{"id":1686,"date":"2020-02-12T14:54:01","date_gmt":"2020-02-12T14:54:01","guid":{"rendered":"http:\/\/espai-marx.net\/elsarbres\/?post_type=rcno_review&#038;p=1686"},"modified":"2020-06-03T16:59:25","modified_gmt":"2020-06-03T16:59:25","slug":"gramsci-a-vitalidade-de-um-pensamento-alberto-aggio-ed","status":"publish","type":"rcno_review","link":"https:\/\/espai-marx.net\/elsarbres\/review\/gramsci-a-vitalidade-de-um-pensamento-alberto-aggio-ed\/","title":{"rendered":"Gramsci. A vitalidade de um pensamento &#8211; Alberto Aggio (ed.)"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/espai-marx.net\/elsarbres\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Alberto_Aggio_Gramsci_A_Vitalidade_De_Um_Pensamento.pdf\">Descarga (PDF)<\/a><\/p>\n<p>O col\u00f3quio promovido pela UNESP no Campus de Franca, no Estado de S\u00e3o Paulo, em maio de 1997, reuniu um grupo de pesquisadores brasileiros de alto n\u00edvel para confrontarem suas diversas<br \/>\ninterpreta\u00e7\u00f5es de alguns aspectos fundamentais da obra do pensador italiano, falecido h\u00e1 sessenta anos, no auge da ditadura fascista de Benito Mussolini.<br \/>\nGramsci foi rediscutido e homenageado como convinha a um fil\u00f3sofo militante, que concebia o marximo como um \u201chistoricismo absoluto\u201d: a troca de id\u00e9ia dos pesquisadores abordou elementos \u201cdatados\u201d da sua perspectiva, por\u00e9m reconheceu-o, no essencial, como um \u201ccontempor\u00e2neo\u201d nosso.<br \/>\nCarlos Nelson Coutinho, autor do primeiro dos nove ensaios acolhidos neste volume, chama a aten\u00e7\u00e3o justamente para isso: Gramsci n\u00e3o \u00e9 um \u201ccl\u00e1ssico\u201d no mesmo sentido em que o \u00e9 Hobbes, por exemplo, porque n\u00e3o o consultamos para saber como foi algo e sim para tentarmos compreender como algo est\u00e1 sendo.<br \/>\nAl\u00e9m de sublinhar a import\u00e2ncia das id\u00e9ias de Gramsci sobre socialismo e democracia, ressaltando em especial o alcance da cr\u00edtica gramsciana \u00e0 \u201cestatolatria\u201d que se manifestou no modelo adotado e exportado pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, Carlos Nelson Coutinho observa que, nas rela\u00e7\u00f5es da perspectiva de Gramsci com o legado do \u201ccontratualismo\u201d de Rousseau e com o legado da concep\u00e7\u00e3o hegeliana da hist\u00f3ria, o autor dos Cadernos do c\u00e1rcere, de certo modo, \u201ccorrige\u201d Rousseau apoiando-se em Hegel, \u201ccorrige\u201d Hegel apoiando-se em Rousseau e \u2013 aproveitando Marx \u2013 vai al\u00e9m dos horizontes tanto do autor do Contrato social como do autor da Fenomenologia do esp\u00edrito.<br \/>\nNo ensaio seguinte, Ivete Simionatto se empenha em dissipar alguns mal-entendidos freq\u00fcentes que dificultam o entendimento da categoria dial\u00e9tica da \u201ctotalidade\u201d, detendo-se, sobretudo, no papel crucial que essa categoria desempenha na an\u00e1lise que Gramsci empreende da cultura como esfera constitutiva da historicidade do ser social e na abordagem gramsciana da \u201chegemonia\u201d como \u201cdire\u00e7\u00e3o intelectual e moral\u201d no processo de transforma\u00e7\u00e3o das esferas econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica. H\u00e1 no ensaio de Ivete Simionatto uma advert\u00eancia quanto aos efeitos delet\u00e9rios da atual manobra do conservadorismo que se esfor\u00e7a para despolitizar e fragmentar os sujeitos coletivos.<br \/>\nUma preocupa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 de Carlos Nelson Coutinho e de Ivete Simionatto pode ser detectada no ensaio em que Marco Aur\u00e9lio Nogueira revisita Gramsci e enxerga nele o \u201cpensador da crise\u201d: n\u00e3o apenas da crise do Estado liberal italiano, que foi derrubado pela ofensiva dos \u201ccamisas negras\u201d liderados pelo \u201cDuce\u201d, mas tamb\u00e9m da crise mais abrangente das rela\u00e7\u00f5es entre o Estado e a sociedade, que tinha como pano de fundo a politiza\u00e7\u00e3o do social e a socializa\u00e7\u00e3o do pol\u00edtico.<br \/>\nGramsci percebeu que o movimento comunista, com ferramentas te\u00f3ricas toscas, n\u00e3o estava enfrentando satisfatoriamente o desafio que se apresentava em novos campos de batalha. E Marco<br \/>\nAur\u00e9lio Nogueira afirma que o pensamento de esquerda, hoje, precisa desenvolver o que Gramsci caracterizou como uma \u201cnova pol\u00edtica\u201d para defender e ampliar a democracia amea\u00e7ada. De acordo<br \/>\ncom Marco Aur\u00e9lio Nogueira, \u201cseria p\u00e9ssimo \u2013 para toda a sociedade \u2013 se a esquerda desaparecesse ou virasse r\u00f3tulo inespec\u00edfico no exato momento em que se faz mais necess\u00e1ria\u201d.<br \/>\nMarco del Roio traz para o debate uma preocupa\u00e7\u00e3o diferente: ele enfatiza o peso do legado do leninismo na perspectiva do fundador do Partido Comunista da It\u00e1lia, que, em sua constante luta contra o reformismo, atuou, de fato, como agente de uma refunda\u00e7\u00e3o da pr\u00e1xis socialista. Para Marcos del Roio, Gramsci tinha posi\u00e7\u00e3o acentuadamente cr\u00edtica em face do \u201cOcidente\u201d, que ele considerava respons\u00e1vel pela pr\u00f3pria exist\u00eancia do atraso do \u201cOriente\u201d. Combatendo qualquer contraposi\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica de \u201cOcidente\u201d e \u201cOriente\u201d, e insistindo na exist\u00eancia de grada\u00e7\u00f5es vari\u00e1veis entre os dois, o ensa\u00edsta n\u00e3o cr\u00ea que o programa pol\u00edtico de Gramsci \u201cvislumbrasse como desej\u00e1vel e inelut\u00e1vel a ocidentaliza\u00e7\u00e3o do mundo\u201d, j\u00e1 que, a seu ver, isso resultaria numa converg\u00eancia com o reformismo e com a utopia liberal, que Gramsci tanto combateu.<br \/>\nSeguem-se dois textos dedicados \u00e0 concep\u00e7\u00e3o gramsciana dos intelectuais. Jos\u00e9 Lu\u00eds Bendicho Beired observa que, em sua reflex\u00e3o sobre a fun\u00e7\u00e3o e o lugar dos intelectuais, tanto conservadores como transformadores da sociedade, Gramsci procurou compreend\u00ea-los nos pap\u00e9is necess\u00e1rios que\u00a0 desempenhavam e nas responsabilidades que assumiam. Nas condi\u00e7\u00f5es atuais, sob o capitalismo,<br \/>\nos intelectuais \u201cmodernos\u201d desenvolvem uma atua\u00e7\u00e3o bastante complexa no plano das ideologias, na elabora\u00e7\u00e3o daquilo que Pierre Bourdieu chamou de \u201cdomina\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica\u201d.<br \/>\nJos\u00e9 Lu\u00eds Bendicho Beired assinala uma limita\u00e7\u00e3o da teoria gramsciana dos \u201cfuncion\u00e1rios da ideologia\u201d: ele acha que a vis\u00e3o que Gramsci tinha dos intelectuais n\u00e3o lhe permitia abordar os problemas<br \/>\nligados \u00e0 persist\u00eancia de desigualdades entre dirigentes e dirigidos nos partidos e organiza\u00e7\u00f5es de esquerda.<br \/>\nMilton Lahuerta reconstitui o pano de fundo hist\u00f3rico que punha na ordem do dia para a cultura europ\u00e9ia das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX o desafio de uma reflex\u00e3o sobre os intelectuais.<br \/>\nEle lembra que naquele per\u00edodo se fortaleceu uma linha de pensamento que via os intelectuais como \u201ccl\u00e9rigos\u201d, que devia zelar por valores \u201ceternos\u201d (Julien Benda, Karl Mannheim, Ortega y Gasset e Benedetto Croce, entre outros). Numa outra dire\u00e7\u00e3o, apareciam muitos intelectuais que, acuados pela barb\u00e1rie fascista, aderiam ao movimento comunista com uma perspectiva de \u201cmiss\u00e3o\u201d. Segundo Milton Lahuerta, Gramsci, no c\u00e1rcere, conseguiu refletir sobre o tema dos intelectuais evitando tanto o idealismo dos \u201ccl\u00e9rigos\u201d como o \u201cromantismo\u201d dos \u201cmission\u00e1rios\u201d.<br \/>\nAlberto Aggio, al\u00e9m de ter sido o coordenador do col\u00f3quio e ser o organizador da publica\u00e7\u00e3o, \u00e9 o autor do ensaio seguinte, que introduz a reflex\u00e3o sobre o tema da concep\u00e7\u00e3o gramsciana da \u201crevolu\u00e7\u00e3o passiva\u201d, t\u00e3o caro a Luiz Werneck Vianna (que tamb\u00e9m o aborda no trabalho que fecha o volume). Segundo Alberto Aggio, o conceito de \u201crevolu\u00e7\u00e3o passiva\u201d, tal como o concebe Gramsci, pode nos ajudar a compreendermos os processos de constru\u00e7\u00e3o do Estado e de moderniza\u00e7\u00e3o capitalista na Am\u00e9rica<br \/>\nLatina. Embora a \u201crevolu\u00e7\u00e3o passiva\u201d, por sua pr\u00f3pria natureza, n\u00e3o corresponda a um programa no qual as classes subalternizadas possam se reconhecer plenamente, os de \u201cbaixo\u201d podem, de algum modo e em certa medida, influir de maneira significativa em deteminadas modalidades de \u201crevolu\u00e7\u00e3o passiva\u201d.<br \/>\nO pen\u00faltimo texto do livro \u00e9 o de Jos\u00e9 Antonio Segatto, que trata de reconstruir, com riqueza de informa\u00e7\u00f5es, elementos da hist\u00f3ria da difus\u00e3o dos escritos de Gramsci entre n\u00f3s e das hist\u00f3rias das refer\u00eancias que passaram a ser feitas no Brasil ao pensador italiano, sobretudo a partir dos anos 60. A reconstitui\u00e7\u00e3o evoca o \u201cboom\u201d da segunda metade dos anos 70 e da primeira metade dos anos 80 e aborda tamb\u00e9m o atual per\u00edodo de refluxo. Jos\u00e9 Antonio Segatto sugere a exist\u00eancia de alguns pontos nos quais poderia ser constatada certa influ\u00eancia das teorias de Gramsci sobre o Partido Comunista Brasileiro, o PCB, que depois deu origem ao atual PPS.<br \/>\nPor fim, Luiz Werneck Vianna volta ao conceito gramsciano de \u201crevolu\u00e7\u00e3o passiva\u201d e reexamina os caminhos e descaminhos do paradoxal processo pelo qual, no Brasil, a conserva\u00e7\u00e3o, para bem cumprir seu papel, reivindica aquilo que deveria ser seu contr\u00e1rio: a revolu\u00e7\u00e3o. Luiz Werneck Vianna fala da tensa ambig\u00fcidade do Estado Imperial do s\u00e9culo XIX, que combinava liberalismo e escravid\u00e3o, e em certo sentido buscava a sua sociedade. A revolu\u00e7\u00e3o burguesa deu continuidade a um \u201clento movimento de transi\u00e7\u00e3o da ordem senhorial-escravocrata para uma ordem competitiva\u201d, numa esp\u00e9cie de \u201cdial\u00e9tica sem s\u00edntese\u201d ou \u201ctransformismo ininterrupto\u201d. Agora, por\u00e9m, chegamos a uma situa\u00e7\u00e3o na qual a sociedade (a na\u00e7\u00e3o) atua com objetivo de conquistar direitos e cidadania para a maioria da popula\u00e7\u00e3o. Quer dizer: ela procura conceber seu Estado.<br \/>\nOs nove ensaios acolhidos neste volume merecem ser lidos com aten\u00e7\u00e3o. As breves indica\u00e7\u00f5es que me permiti fazer nesta apresenta\u00e7\u00e3o a respeito de cada um deles tiveram um \u00fanico objetivo: suscitar a curiosidade dos leitores. Asseguro-lhes de que, lendo-os, voc\u00eas encontrar\u00e3o, na diversidade deles, um riqu\u00edssimo material para reflex\u00e3o. (de la presentaci\u00f3n de Leandro Konder)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Descarga (PDF) O col\u00f3quio promovido pela UNESP no Campus de Franca, no Estado de S\u00e3o Paulo, em maio de 1997,<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":1687,"comment_status":"open","ping_status":"closed","template":"","categories":[128,14],"tags":[213,201,40],"rcno\/autores":[1058],"rcno\/series":[],"rcno\/publishers":[],"class_list":["post-1686","rcno_review","type-rcno_review","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category-filosofia","category-politica","tag-america-latina","tag-antonio-gramsci","tag-socialismo","rcno_autor-alberto-aggio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/elsarbres\/wp-json\/wp\/v2\/rcno\/reviews\/1686","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/elsarbres\/wp-json\/wp\/v2\/rcno\/reviews"}],"about":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/elsarbres\/wp-json\/wp\/v2\/types\/rcno_review"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/elsarbres\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/elsarbres\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1686"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/elsarbres\/wp-json\/wp\/v2\/rcno\/reviews\/1686\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1689,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/elsarbres\/wp-json\/wp\/v2\/rcno\/reviews\/1686\/revisions\/1689"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/elsarbres\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1687"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/elsarbres\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1686"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/elsarbres\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1686"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/elsarbres\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1686"},{"taxonomy":"rcno_autor","embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/elsarbres\/wp-json\/wp\/v2\/rcno\/autores?post=1686"},{"taxonomy":"rcno_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/elsarbres\/wp-json\/wp\/v2\/rcno\/series?post=1686"},{"taxonomy":"rcno_publisher","embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/elsarbres\/wp-json\/wp\/v2\/rcno\/publishers?post=1686"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}