{"id":120,"date":"2006-03-30T00:00:00","date_gmt":"2006-03-30T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espai-marx.net\/?p=120"},"modified":"2020-02-29T12:12:15","modified_gmt":"2020-02-29T11:12:15","slug":"a-crise-do-pt-a-direita-e-a-esquerda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espai-marx.net\/?p=120","title":{"rendered":"A crise do PT, a direita e a esquerda"},"content":{"rendered":"<p>Data de fechamento do texto: 19 de julho de 2005.<\/p>\n<p><i>\u201cN\u00e3o se pode separar mecanicamente as quest\u00f5es pol\u00edticas das quest\u00f5es de organiza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/i><\/p>\n<p>L\u00eanin<\/p>\n<p><i>\u201cO peixe apodrece pela cabe\u00e7a\u201d.<\/i><\/p>\n<p>Mao Ts\u00e9-tung<\/p>\n<p>A crise do PT pode aparecer como uma crise dos m\u00e9todos de a\u00e7\u00e3o do partido. A crise parece ter sido exportada para o Congresso e o partido, buscando apurar que parlamentares estariam envolvidos na compra de votos e de que forma membros do partido teriam operado para fazer isso, assim como para financiar atividades partid\u00e1rias com recursos paralelos. O PT teria constru\u00eddo uma enorme m\u00e1quina partid\u00e1ria \u2013 que estenderia seus bra\u00e7os e pernas na dire\u00e7\u00e3o dos governos e dos parlamentos \u2013, \u201cconfundindo partido com Estado\u201d, como afirmou na sua capa uma renomada revista \u201cbushista\u201d brasileira.<\/p>\n<p>Mas se foi constru\u00edda uma estrutura monstruosa na dire\u00e7\u00e3o do PT, que agora parece ser condenada por todos ou quase todos, ela \u00e9 apenas a contrapartida da linha pol\u00edtica que o partido foi adotando. Da mesma maneira para a forma \u00e9 a forma de um conte\u00fado, a estrutura organizativa \u00e9 a forma de uma linha pol\u00edtica. A compreens\u00e3o de uma \u00e9 insepar\u00e1vel da compreens\u00e3o da outra.<\/p>\n<p><u>A organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 a express\u00e3o de uma estrat\u00e9gia<\/u><\/p>\n<p>Essa mesma imprensa sa\u00fada as transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que o PT teve, passando a ser um partido \u201crespons\u00e1vel\u201d na sua pol\u00edtica econ\u00f4mica, contente com a sua redu\u00e7\u00e3o a um partido que cuida das condi\u00e7\u00f5es de reprodu\u00e7\u00e3o do modelo econ\u00f4mico vigente. Mas para que isso fosse poss\u00edvel, o partido teve que sofrer grandes transforma\u00e7\u00f5es. Estas j\u00e1 se refletiam nas campanhas presidenciais anteriores, em que as equipes que dirigiam as campanhas foram se autonomizando cada vez mais em rela\u00e7\u00e3o ao partido, at\u00e9 o limite em que foi o Instituto da Cidadania o respons\u00e1vel pela elabora\u00e7\u00e3o do programa da campanha presidencial de 2002. Por\u00e9m, o processo de autonomiza\u00e7\u00e3o ganhou outro patamar, porque nem sequer este programa vingou, conforme as decis\u00f5es fundamentais foram transferidas para um c\u00edrculo estreito em que Palocci e Duda Mendon\u00e7a passaram a ter peso essencial. O partido foi sendo neutralizado, reservando suas inst\u00e2ncias para os embates de tend\u00eancias, que definiam candidatos a outros cargos, mas reservando o que se referia \u00e0 campanha presidencial cada vez mais para o c\u00edrculo constitu\u00eddo em torno de Lula.<\/p>\n<p>Mas \u2013 como afirma L\u00eanin \u2013 n\u00e3o existe separa\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica entre as quest\u00f5es pol\u00edticas e as de organiza\u00e7\u00e3o. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o de um partido de esquerda \u00e9 sempre instrumento de seu programa e de sua estrat\u00e9gia. O conhecido debate entre os bolcheviques e os mencheviques, h\u00e1 exatamente um s\u00e9culo, mais al\u00e9m do seu contexto espec\u00edfico, revela como estrat\u00e9gias diferentes requeriam partidos diferentes. Se se tratasse da luta democr\u00e1tico-burguesa, pelo car\u00e1ter desta, se necessitaria de um partido amplo, parlamentar, sem maior seletividade no recrutamento, um partido de massas. Se se tratasse de uma luta revolucion\u00e1ria para derrubar o tzarismo, mas tamb\u00e9m romper com o capitalismo, seria necess\u00e1rio um partido que pudesse sobreviver e atuar na clandestinidade, com militantes ativos, escolhidos seletivamente, dedicados prioritariamente \u00e0 milit\u00e2ncia pol\u00edtica. O debate se d\u00e1 sobre a forma de partido, paralelamente \u00e0 discuss\u00e3o estrat\u00e9gica sobre a etapa da luta pol\u00edtica da esquerda russa.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o sobre o tipo de organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o t\u00e9cnica, mas pol\u00edtica. A quest\u00e3o: \u201cQue tipo de partido?\u201d tem que ser decorrente de outra: \u201cPartido para qu\u00ea?\u201d \u2013 Para que tipo de pol\u00edtica? Com que tipo de objetivo? Qual estrat\u00e9gia requer cada tipo de partido?<\/p>\n<p>A forma de organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 a express\u00e3o de um tipo de estrat\u00e9gia. As crises organizativas s\u00e3o express\u00f5es das crises de estrat\u00e9gia dos partidos.<\/p>\n<p>Se o governo do PT aplica um programa similar ao de outros partidos, se assume a heran\u00e7a econ\u00f4mica do governo FHC de forma expl\u00edcita \u2013 conforme palavras do Ministro da Fazenda \u2013,n\u00e3o \u00e9 estranho que atue como outros partidos, que deixe de ter especificidades e seja um partido como os outros.<\/p>\n<p>Se a forma de organiza\u00e7\u00e3o do PT est\u00e1 abertamente em crise, ela reflete o esgotamento de uma estrat\u00e9gia. O PT pode se reorganizar para adequar-se institucionalmente a ser o partido que o governo \u2013 com sua cara atual \u2013 requer e a\u00ed estar\u00e1 formalizando organizativamente seu esvaziamento. Ou poder\u00e1 definir suas rela\u00e7\u00f5es com as for\u00e7as sociais motoras da luta antineoliberal e anti-capitalista. Isto requerer\u00e1 uma profunda revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica no seu interior, uma esp\u00e9cie de choque de \u201cgramscianismo\u201d, porque o partido sempre se situou em um universo te\u00f3rico pr\u00e9-gramsciano, sem se propor a construir um modelo hegem\u00f4nico alternativo ao predominante no pa\u00eds \u2013 com todos os seus desdobramentos no plano de um modelo econ\u00f4mico antineoliberal, de propostas de universaliza\u00e7\u00e3o dos direitos sociais, de valores de democracia cultural, de refunda\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro \u2013 e n\u00e3o apenas do sistema pol\u00edtico-eleitoral.<\/p>\n<p><u>Transforma\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, pol\u00edticas e organizativas<\/u><\/p>\n<p>\u00c9 nesse marco que devem ser pensadas as transforma\u00e7\u00f5es do PT como partido e sua crise atual. Se ao longo dos \u00faltimos anos \u2013 particularmente da \u00faltima d\u00e9cada \u2013 o PT foi modificando sua plataforma, suas defini\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, suas formas priorit\u00e1rias de a\u00e7\u00e3o, sua pr\u00e1tica, essas mudan\u00e7as tiveram seus correlatos nas formas de organiza\u00e7\u00e3o. Estas se expressaram no aprofundamento que o PT \u2013 pela vontade origin\u00e1ria de diferenciar-se do leninismo \u2013 chamou de \u201cpartido de massas\u201d, em oposi\u00e7\u00e3o ao que seria um \u201cpartido de quadros\u201d. Mas se expressaram tamb\u00e9m no tipo de quadro que passou a ser promovido para postos de dire\u00e7\u00e3o, nos m\u00e9todos de a\u00e7\u00e3o das dire\u00e7\u00f5es, nos centros privilegiados de atua\u00e7\u00e3o do partido. De tal forma que \u00e9 imposs\u00edvel compreender a crise atual do PT de forma separada das transforma\u00e7\u00f5es da sua linha pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o por um \u201cpartido de massas\u201d revela uma prefer\u00eancia ideol\u00f3gica, apontando, mediante o tipo de organiza\u00e7\u00e3o que se deseja construir, o objetivo que se busca. Um \u201cpartido de massas\u201d, na medida em que possa existir, \u00e9 um partido eleitoral.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso recordar que o PT nasceu em um cen\u00e1rio de cr\u00edtica generalizada aos modelos sovi\u00e9ticos de socialismo, de Estado e de partido. O partido se afirmava como socialista, mas sempre acrescentava a palavra \u201cdemocr\u00e1tico\u201d para expressar essa diferen\u00e7a. Se fundava um partido \u2013 depois de n\u00e3o poucas resist\u00eancias dos seus principais l\u00edderes, inclusive Lula \u2013, mas se afirmava que era uma agremia\u00e7\u00e3o \u201cligada aos movimentos sociais\u201d.<\/p>\n<p>O PT nunca definiu uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica nem o tipo de socialismo que buscava. Os documentos posteriores sobre \u201co socialismo petista\u201d afirmam diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao modelo sovi\u00e9tico, ao mesmo tempo em que procuravam se distanciar do modelo social-democrata \u2013 mas sem definir a natureza do socialismo pelo qual pretendiam lutar.<\/p>\n<p>Tampouco houve uma defini\u00e7\u00e3o sobre as formas de luta. Na primeira vez que o partido participou de elei\u00e7\u00f5es \u2013 em 1982, com Lula candidato ao governo de S\u00e3o Paulo, entre outras candidaturas \u2013,o PT quase pedia desculpas em seus documentos por participar de elei\u00e7\u00f5es. Posteriormente passou a participar como algo natural, sem definir o que buscava nas elei\u00e7\u00f5es. Logo o ritmo de atua\u00e7\u00e3o do partido passou a ser determinado pelo calend\u00e1rio eleitoral e os n\u00facleos mais ativos do partido passaram a ser os gabinetes dos parlamentares e as inst\u00e2ncias dos governos que o PT passou a eleger, inicialmente, em n\u00edvel municipal, depois estadual, at\u00e9 chegar a \u00e1rea federal.<\/p>\n<p>O PT foi se adaptando rapidamente \u00e0 institucionalidade. Se inicialmente elegia seus delegados e dirigentes e fazia suas conven\u00e7\u00f5es com crit\u00e9rios pr\u00f3prios, para depois realizar conven\u00e7\u00f5es conforme os crit\u00e9rios legais da Justi\u00e7a Eleitoral, passou logo a adequar-se aos crit\u00e9rios dessa legisla\u00e7\u00e3o para realizar suas conven\u00e7\u00f5es e eleger seus delegados e dire\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias.<\/p>\n<p>O funcionamento cotidiano do partido foi esvaziando os n\u00facleos de base, funcionou pouco ou quase nada a cobran\u00e7a de mensalidades dos seus membros, os crit\u00e9rios de ingresso foram ficando cada vez mais frouxos, a ponto de se limitar finalmente ao preenchimento da ficha do partido \u2013 o que permitiu filia\u00e7\u00f5es em massa, at\u00e9 mesmo com casos denunciados, como os ocorridos no Rio de Janeiro, da contrata\u00e7\u00e3o de profissionais em filia\u00e7\u00e3o, de outros partidos. A cobran\u00e7a de porcentagem dos representantes eleitos e nomeados para cargos p\u00fablicos, se por um lado deu respaldo econ\u00f4mico para o partido, por outro enfraqueceu a necessidade do compromisso regular de contribui\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica dos seus membros, acentuando os la\u00e7os frouxos internos. Depois de alguns anos de fundado, o PT apresentava uma estrutura real de funcionamento que pouco tinha a ver com o desenho original de n\u00facleos de base, expressando j\u00e1 uma forma de funcionamento em que as inst\u00e2ncias administrativas ganharam for\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 possibilidade dos movimentos sociais terem peso determinante na vida do partido.<\/p>\n<p>Sem inovar na forma de rela\u00e7\u00e3o do partido com os movimentos sociais, os dirigentes sindicais, por exemplo, que tiveram peso na vida do PT, conseguiram isso por terem sido eleitos parlamentares ou por ocupar, via tend\u00eancias internas, postos na dire\u00e7\u00e3o. A rela\u00e7\u00e3o com o MST \u00e9 exemplar disso, pelo papel pol\u00edtico e ideol\u00f3gico que esse movimento passou a ter, como refer\u00eancia de \u201cradicaliza\u00e7\u00e3o\u201d e utiliza\u00e7\u00e3o de formas \u201cviolentas\u201d de a\u00e7\u00e3o, que o tornaram uma unanimidade nos editoriais da m\u00eddia monopolista privada, como modelo a ser atacado, vinculando-o com Cuba e com um passado de lutas n\u00e3o-institucionais que se procurava interditar, para cooptar o conjunto da esquerda da institucionalidade. Isso se dava paralelamente aos retrocessos da nova Constitui\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o de terras para a reforma agr\u00e1ria, sob o impacto da a\u00e7\u00e3o das for\u00e7as ligadas aos latifundi\u00e1rios no Congresso.<\/p>\n<p>Enquanto os sem-terra sofriam dura campanha de repress\u00e3o e criminaliza\u00e7\u00e3o na imprensa, o PT marcava dist\u00e2ncias em rela\u00e7\u00e3o ao MST, assim como em rela\u00e7\u00e3o a Cuba \u2013 os dois elementos mais caracterizados de formas de luta e de constru\u00e7\u00e3o do socialismo de que o PT cada vez mais tomaria dist\u00e2ncia, sob a press\u00e3o da direita \u2013 especialmente de seus \u00f3rg\u00e3os de imprensa \u2013, como demonstra\u00e7\u00f5es de uma \u201cop\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d feita pelo partido.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia eleitoral foi sendo adotada de maneira expressa, sem sequer definir o objetivo a que se queria chegar, nem se as inst\u00e2ncias eleitorais permitiriam isso. Restam quest\u00f5es, como: Que maioria eleitoral \u00e9 poss\u00edvel construir com os mecanismos pol\u00edticos atuais? A que fins correspondem os meios escolhidos?<\/p>\n<p><u>Partido, para qu\u00ea?<\/u><\/p>\n<p>Esse caminho foi estreitando as propostas program\u00e1ticas do PT. Apesar dos extensos programas das campanhas eleitorais de 1989 e de 1994 \u2013 formulados mediante extensas consultas aos movimentos sociais, com grande participa\u00e7\u00e3o desses movimentos \u2013,estes eram cada vez mais uma longa plataforma de reivindica\u00e7\u00f5es \u2013 de direitos econ\u00f4micos, sociais e pol\u00edticos \u2013,sem an\u00e1lises sobre a realidade concreta, do mundo, da Am\u00e9rica Latina e do pa\u00eds \u2013 em que se desenvolvia a luta do PT.<\/p>\n<p>As propostas pol\u00edticas do PT podem ser condensadas em duas proposi\u00e7\u00f5es: \u00e9tica na pol\u00edtica e prioridade do social. A campanha de 1994, a primeira em que o PT via, desde o seu come\u00e7o, a possibilidade concreta de triunfar e governar o Brasil, expressava isso muito claramente. A campanha contra Collor tinha destacado com for\u00e7a o primeiro elemento \u2013 de que o primeiro candidato a vice de Lula, Bisol, era um bom representante, enquanto Lula, com suas caravanas, colocava o acento no outro elemento da proposta \u2013 a prioridade do social, identificada nos documentos anteriores, sobre a \u201cforma petista de governar\u201d, como \u201crevers\u00e3o de prioridades\u201d, deslocando-a do plano econ\u00f4mico-financeiro para o social.<\/p>\n<p>Se a campanha presidencial de 1989 deveria ter ensinado ao PT que, sem \u00f3rg\u00e3os pr\u00f3prios de imprensa, da esquerda, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel disputar hegemonia com as elites tradicionais, que tem seus partidos \u2013 no sentido gramsciano do conceito \u2013 na grande m\u00eddia monopolista privada, a campanha de 1994 deveria ter ensinado que sem uma an\u00e1lise das condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas concretas do capitalismo contempor\u00e2neo o partido n\u00e3o conseguiria formular um projeto pol\u00edtico pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Conforme as duas propostas do PT pareciam constituir os eixos de um novo consenso nacional, a campanha foi atropelada pelo tema da \u201ccrise fiscal\u201d de FHC e sofreu uma derrota traum\u00e1tica para o PT e que teria peso decisivo nas transforma\u00e7\u00f5es futuras do partido. Deveria ter sido suficiente para que a dire\u00e7\u00e3o aprendesse que \u201cn\u00e3o basta ter raz\u00e3o\u201d, \u00e9 preciso formular a linha pol\u00edtica e as alian\u00e7as adequadas para faz\u00ea-la triunfar.<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise da hegemonia neoliberal no mundo \u2013 que se ainda n\u00e3o se havia consolidado em 1989, em 1994 j\u00e1 se expressava no Consenso de Washington, na condu\u00e7\u00e3o da dupla Reagan\/Thatcher e na sua concretiza\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina, em pa\u00edses como a Argentina, o M\u00e9xico e o Chile, por exemplo \u2013 teria permitido compreender sua natureza e os temas novos que colocavam para a esquerda.<\/p>\n<p>A cren\u00e7a em que a \u201cdemocratiza\u00e7\u00e3o\u201d seria o marco de resolu\u00e7\u00e3o da crise brasileira de forma positiva, se a ela fosse acrescentada a prioridade das pol\u00edticas sociais, impedia uma vis\u00e3o mais abrangente da nova cara assumida pelo neoliberalismo e a forma como chegaria at\u00e9 n\u00f3s: com os temas da \u201cgovernabilidade\u201d, do \u201cajuste fiscal\u201d, da \u201cestabilidade monet\u00e1ria\u201d, todas inseridas no marco da prioridade da luta antiinflacion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Faltou ao PT uma compreens\u00e3o do per\u00edodo hist\u00f3rico que vivia o capitalismo, de seu novo modelo hegem\u00f4nico e de suas conseq\u00fc\u00eancias no Brasil. Faltou-lhe uma vis\u00e3o hist\u00f3rica, faltou-lhe uma vis\u00e3o marxista do mundo contempor\u00e2neo. Ningu\u00e9m se desfaz impunemente de um instrumento te\u00f3rico essencial como o marxismo, sem pagar o pre\u00e7o concreto dessa ren\u00fancia.<\/p>\n<p>Faltou a compreens\u00e3o do que representava a crise no processo de acumula\u00e7\u00e3o, assim como a crise do tipo de Estado que t\u00ednhamos tido at\u00e9 aquele momento. O PT ficou atordoado com a derrota diante do Plano Real e do tema da d\u00edvida p\u00fablica. At\u00e9 aquele momento os candidatos do PT apenas diziam, sobre o tema, que quando ganhassem abririam a caixa preta da d\u00edvida e s\u00f3 ent\u00e3o veriam a forma de resolv\u00ea-la. N\u00e3o se davam conta de como a d\u00edvida p\u00fablica era a ponta do iceberg da crise do Estado e que a esquerda n\u00e3o poderia aceitar os termos em que ela era colocada pela direita, que levaria \u00e0 mesma resposta: ajuste fiscal, para restabelecer o equil\u00edbrio das contas p\u00fablicas, sempre em detrimento das pol\u00edticas sociais. A armadilha estava montada. Ou o PT recolocava o problema em outros termos, para buscar suas verdadeiras ra\u00edzes e as respostas da esquerda, ou se deixaria levar pela agenda neoliberal, ficando condenado \u00e0s suas respostas.<\/p>\n<p>Para colocar em pr\u00e1tica as respostas neoliberais, n\u00e3o somente o PT n\u00e3o era necess\u00e1rio, como seria um obst\u00e1culo, porque continuava a representar no plano pol\u00edtico os movimentos sociais e porque havia ocupado no plano pol\u00edtico o espa\u00e7o da resist\u00eancia ao neoliberalismo.<\/p>\n<p>A partir das conseq\u00fc\u00eancias que a dire\u00e7\u00e3o do PT tirou da derrota de 1994, passando a privilegiar o caminho da \u201cgovernabilidade\u201d (ver artigo do <i>Outro Brasil<\/i> de junho de 2005 sobre o tema), o partido foi, de forma mais acentuada, adaptando-se \u00e0s respostas neoliberais. A nova agenda provocou profundos deslocamentos na organiza\u00e7\u00e3o do partido. Essa plataforma provocou importantes redefini\u00e7\u00f5es na linha pol\u00edtica do PT. Algumas delas foram sendo amadurecidas desde a derrota de 1994, por\u00e9m somente foram assumidas j\u00e1 na campanha de Lula de 2002 ou no pr\u00f3prio governo. Entre elas est\u00e3o a redefini\u00e7\u00e3o sobre o pagamento da d\u00edvida externa, a quest\u00e3o da previd\u00eancia, os transg\u00eanicos e o agroneg\u00f3cio, o direito das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, o papel do mercado interno de consumo de massas, o papel do capital especulativo e da sua contraposi\u00e7\u00e3o ao capital produtivo, a necessidade de um modelo de desenvolvimento estreitamente associado \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o de renda, o modelo de reforma agr\u00e1ria, o plano diretor da reforma do Estado, entre outros.<\/p>\n<p><u>A direita, a esquerda e a crise do PT<\/u><\/p>\n<p>A crise do governo e do PT tem sido bem aproveitada pela direita. Nunca se desatou uma campanha t\u00e3o sistem\u00e1tica de den\u00fancias na m\u00eddia, maior que a realizada contra seus \u201cqueridinhos\u201d: Collor e FHC. A m\u00eddia pasteuriza tudo: den\u00fancias com fundamento, testemunhos de pessoas h\u00e1 pouco tempo desclassificadas, acusa\u00e7\u00f5es a todo tipo de gasto de recursos p\u00fablicos, mais ainda quando se trata de pol\u00edticas sociais \u2013 tudo possibilita a direita enfraquecer o governo e o PT. A obscena proposta de FHC n\u00e3o deixa d\u00favida sobre os objetivos: que Lula\u00a0\u00a0\u00a0 renuncie a candidatar-se \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o, revelando que ainda temem muito o voto popular em Lula \u2013 medo que foi confirmado pela pesquisa que revelou que o presidente manteve o n\u00edvel de apoio do eleitorado.<\/p>\n<p>Sua linha de a\u00e7\u00e3o est\u00e1 clara: enfraquecer Lula para buscar derrot\u00e1-lo em 2006 e retomar seu processo de privatiza\u00e7\u00f5es, mas sobretudo prestar o servi\u00e7o fundamental ao governo dos EUA de terminar com a pol\u00edtica externa atual \u2013 tema sobre o qual FHC conversou com autoridades estadunidenses recentemente.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 esquerda, \u00e9 e ser\u00e1 v\u00edtima da crise do PT, porque este partido representou historicamente a esquerda no plano pol\u00edtico \u2013 e aparece assim para a massa da popula\u00e7\u00e3o \u2013,mas tamb\u00e9m porque a derrota de Lula recolocar\u00e1 a direita no governo. Por\u00e9m o maior risco \u00e9 um dos subprodutos das derrotas hist\u00f3ricas da esquerda: a dispers\u00e3o.<\/p>\n<p>Este processo avan\u00e7a conforme o PSOL n\u00e3o revela capacidade para catalisar a crise do PT, por v\u00e1rias raz\u00f5es: porque se constituiu precipitadamente, porque rapidamente a dire\u00e7\u00e3o do partido foi dividida majoritariamente por tend\u00eancias de matriz dogm\u00e1tica, com hegemonia de setores de ultra-esquerda, porque n\u00e3o elabora uma interpreta\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da pol\u00edtica brasileira e assim n\u00e3o disputa hegemonia, porque importantes fra\u00e7\u00f5es ap\u00f3iam um setor dissidente do MST e n\u00e3o o mais importante movimento social do pa\u00eds, porque alguns querem jogar tudo nas elei\u00e7\u00f5es e pode sair delas sem nenhum mandato, sem for\u00e7a de massas e sem propostas a apresentar.<\/p>\n<p>Avan\u00e7a quando setores sindicais decidem se desfiliar da CUT, confundindo um aliado moderado com um inimigo, sem for\u00e7a para criar uma for\u00e7a unificada alternativa e contribuindo para a dispers\u00e3o das for\u00e7as sindicais. Avan\u00e7a quando grupos saem do PT e ficam soltos. Avan\u00e7a quando as tend\u00eancias dentro do PT n\u00e3o conseguem sequer unir-se entre si, revelando a incapacidade que teriam, caso chegassem a ganhar as elei\u00e7\u00f5es internas, de coordenar-se entre si e aliar-se a outros setores para consolidar uma nova maioria.<\/p>\n<p>Quando a esquerda fecha o c\u00edrculo da sua vis\u00e3o \u00e0 luta dentro da esquerda ou no (ou contra o) PT, deixa de tomar a totalidade contradit\u00f3ria das rela\u00e7\u00f5es de classe como reveladora do sentido de cada ator e de cada fen\u00f4meno \u2013 como demanda o marxismo. Gramsci j\u00e1 advertia sobre o perigo doutrin\u00e1rio e sect\u00e1rio de se fazer a hist\u00f3ria de um partido como a hist\u00f3ria de sua vida interna, de seus conflitos e problemas, perdendo a perspectiva de sua inser\u00e7\u00e3o no marco hist\u00f3rico e pol\u00edtico mais geral. Ela termina sendo prisioneira do espelho, magnificando os conflitos internos e perdendo de vista os grandes enfrentamentos de classe. Por isso as tend\u00eancias internas tendem a revelar enorme combatividade e radicalismo no confronto interno e capacidade bastante menor de enfrentamento com a direita tradicional e igualmente capacidade bastante menor de mobiliza\u00e7\u00e3o de massas. Usam sua energia desmensuradamente para a luta interna, sem presen\u00e7a correspondente nos maiores embates de classe, n\u00e3o se capacitando para a luta pela hegemonia \u2013 nem dentro do partido, nem fora dele.<\/p>\n<p>Por outro lado, o apelo, aparentemente f\u00e1cil, de buscar retomar as teses hist\u00f3ricas do PT revela-se muito fr\u00e1gil para alimentar uma reagrupa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das for\u00e7as da esquerda, porque essas teses mesmas, como foi dito acima, eram bastante insuficientes para configurar uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica. A reagrupa\u00e7\u00e3o da esquerda s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel em torno de um programa anticapitalista e de um projeto pol\u00edtico antineoliberal, que n\u00e3o foi ainda formulado.<\/p>\n<p>A direita ganha com a crise do PT e este, junto com o governo, \u00e9 o respons\u00e1vel por essa situa\u00e7\u00e3o. A renova\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria \u00e9 uma nova oportunidade de reagrupa\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de esquerda, que precisam urgentemente somar for\u00e7as na luta contra o neoliberalismo e seu eixo \u2013 a pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo. Mas as for\u00e7as que agem de forma centr\u00edfuga avan\u00e7am em outra dire\u00e7\u00e3o. Na dispers\u00e3o, perde toda a esquerda. Quem n\u00e3o souber fazer alian\u00e7as, definindo as linhas demarcat\u00f3rias da a\u00e7\u00e3o, contribuir\u00e1 \u00e0 derrota estrat\u00e9gica da esquerda, por n\u00e3o haver entendido o significado da crise atual.<\/p>\n<p>Essa crise de hegemonia na esquerda se insere no marco mais geral da crise hegem\u00f4nica no pa\u00eds e na Am\u00e9rica Latina, como um dos efeitos da subordina\u00e7\u00e3o das economias dos nossos pa\u00edses ao capital financeiro \u2013 tema que trataremos no ensaio do pr\u00f3ximo m\u00eas. Uma crise que requer da esquerda mais do que simplesmente \u201cretomar as teses hist\u00f3ricas do PT\u201d \u2013 que nem sequer constitu\u00edam uma interpreta\u00e7\u00e3o capaz de equipar a esquerda para enfrentar os problemas do Brasil, como mencionamos acima \u2013, dado o tamanho e a profundidade das transforma\u00e7\u00f5es acontecidas no Brasil e no mundo, particularmente nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>A esquerda precisa ser contempor\u00e2nea de sua pr\u00e1tica, coisa que o PT nunca fez, nunca teorizou sobre os caminhos que foi assumindo. A crise do PT e da esquerda \u00e9 tamb\u00e9m uma crise te\u00f3rica, cuja solu\u00e7\u00e3o dificilmente se dar\u00e1 sem que essa defici\u00eancia seja superada, qualquer que seja o prazo em que a pensemos. Porque se trata de uma crise de hegemonia, que requer capacidade de elabora\u00e7\u00e3o e de convoca\u00e7\u00e3o de massas. Mas hoje ela se traduz sobretudo como uma crise pol\u00edtica e de organiza\u00e7\u00e3o, indissociavelmente vinculadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Data de fechamento do texto: 19 de julho de 2005.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o se pode separar mecanicamente as quest\u00f5es pol\u00edticas das quest\u00f5es de organiza\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>                                     L\u00eanin<\/p>\n<p>&#8220;O peixe apodrece pela cabe\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>                                     Mao Ts\u00e9-tung<\/p>\n<p>         A crise do PT pode aparecer como uma crise dos m\u00e9todos de a\u00e7\u00e3o do partido. A crise parece ter sido exportada para o Congresso e o partido, buscando apurar que parlamentares estariam envolvidos na compra de votos e de que forma membros do partido teriam operado para fazer isso, assim como para financiar atividades partid\u00e1rias com recursos paralelos. O PT teria constru\u00eddo uma enorme m\u00e1quina partid\u00e1ria &#8211; que estenderia seus bra\u00e7os e pernas na dire\u00e7\u00e3o dos governos e dos parlamentos &#8211;, &#8220;confundindo partido com Estado&#8221;, como afirmou na sua capa uma renomada revista &#8220;bushista&#8221; brasileira. <\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[32],"tags":[],"class_list":["post-120","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/120","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=120"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/120\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=120"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=120"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=120"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}