{"id":211,"date":"2006-04-02T00:00:00","date_gmt":"2006-04-02T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espai-marx.net\/?p=211"},"modified":"2020-02-12T12:30:55","modified_gmt":"2020-02-12T11:30:55","slug":"mais-valia-e-mais-gozar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espai-marx.net\/?p=211","title":{"rendered":"Mais-valia e mais-gozar"},"content":{"rendered":"<p>Eis aqui a diferen\u00e7a do marxismo: na perspectiva marxista predominante, o olhar ideol\u00f3gico e um olhar <i>parcial,<\/i> que deixa escapar a <i>totalidade<\/i> das rela\u00e7\u00f5es sociais, ao passo que, na perspectiva lacaniana, a ideologia designa, antes, <i>a totalidade empenhada em apagar os vest\u00edgios de sua pr\u00f3pria impossibilidade.<\/i> Essa diferen\u00e7a corresponde \u00e0 que distingue as no\u00e7\u00f5es de fetichismo em Freud e em Marx: no marxismo, o fetiche oculta a rede positiva de rela\u00e7\u00f5es sociais, ao passo que, em Freud, o fetiche oculta a falta (\u00abcastra\u00e7\u00e3o\u00bb) em torno da qual se articula a rede simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>Na medida em que concebemos o Real como aquilo que \u00absempre retorna ao mesmo lugar\u00bb, podemos deduzir outra diferen\u00e7a n\u00e3o menos crucial. Do ponto de vista marxista, o m\u00e9todo ideol\u00f3gico por excel\u00eancia \u00e9 o da <i>\u00abfalsa\u00bb eterniza\u00e7\u00e3o e\/ou universaliza\u00e7\u00e3o:<\/i> um estado que depende de uma conjuntura hist\u00f3rica concreta afigura-se um tra\u00e7o eterno e universal da condi\u00e7\u00e3o humana; o interesse de uma classe particular disfar\u00e7a-se como um interesse humano universal&#8230; e a meta da \u00abcr\u00edtica da ideologia\u00bb \u00e9 denunciar essa falsa universalidade, identificar por tr\u00e1s do homem em geral o indiv\u00edduo burgu\u00eas, por tr\u00e1s dos direitos universais do homem, a forma que possibilita a explora\u00e7\u00e3o capitalista, por tr\u00e1s*da \u00abfam\u00edlia nuclear\u00bb como constante trans-hist\u00f3rica, uma forma historicamente especificada e limitada de rela\u00e7\u00f5es de parentesco, e assim por diante.<\/p>\n<p>Na perspectiva lacaniana, devemos modificar os termos e apontar como m\u00e9todo ideol\u00f3gico mais \u00abastuto\u00bb o oposto diametral da eterniza\u00e7\u00e3o: a <i>historiciza\u00e7\u00e3o ultra-r\u00e1pida.<\/i> Tomemos um dos lugares-comuns da cr\u00edtica marxista-feminista \u00e0 psican\u00e1lise, a id\u00e9ia de que sua insist\u00eancia no papel crucial do complexo de \u00c9dipo e do tri\u00e2ngulo da fam\u00edlia nuclear transforma uma forma historicamente condicionada de fam\u00edlia patriarcal num tra\u00e7o da condi\u00e7\u00e3o humana universal: n\u00e3o ser\u00e1 esse esfor\u00e7o de historicizar o tri\u00e2ngulo familiar precisamente uma tentativa de <i>eludir o<\/i> \u00abn\u00facleo s\u00f3lido\u00bb que se anuncia atrav\u00e9s da \u00abfam\u00edlia patriarcal\u00bb \u2014 o Real da Lei, a rocha da castra\u00e7\u00e3o? Em outras palavras, se a universaliza\u00e7\u00e3o ultra-r\u00e1pida produz uma Imagem quase universal, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 cegar-nos para sua determina\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-simb\u00f3lica hist\u00f3rica, a historiciza\u00e7\u00e3o ultra-r\u00e1pida cega-nos para o verdadeiro n\u00facleo que retorna como o mesmo atrav\u00e9s de diversas historiciza\u00e7\u00f5es\/simboliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O mesmo se d\u00e1 com um fen\u00f4meno que aponta com muita exatid\u00e3o o avesso \u00abperverso\u00bb da civiliza\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XX: os campos de concentra\u00e7\u00e3o. Todas as diferentes tentativas de ligar esse fen\u00f4meno a uma imagem concreta (\u00abHolocausto\u00bb, \u00abGulag\u00bb etc), de reduzi-lo a um produto de uma ordem social concreta (fascismo, stalinismo etc), que s\u00e3o elas sen\u00e3o um punhado de tentativas de eludir o fato de estarmos lidando, nesse fen\u00f4meno, com o \u00abreal\u00bb de nossa civiliza\u00e7\u00e3o, que retorna como o mesmo n\u00facleo traum\u00e1tico em todos os sistemas sociais? (N\u00e3o devemos esquecer que os campos de concentra\u00e7\u00e3o foram uma inven\u00e7\u00e3o da Inglaterra \u00abliberal\u00bb, que data da Guerra dos B\u00f4eres; que tamb\u00e9m foram usados nos EUA para isolar a popula\u00e7\u00e3o japonesa, e assim por diante.)<\/p>\n<p>O marxismo, portanto, n\u00e3o conseguiu levar em conta ou chegar a um acordo com o objeto-a-mais, com o resto do Real que escapa \u00e0 simboliza\u00e7\u00e3o \u2014 fato que \u00e9 ainda mais surpreendente ao lembrarmos que Lacan pautou sua no\u00e7\u00e3o do mais-gozar na id\u00e9ia marxista da mais-valia. A prova de que a mais-valia marxista efetivamente anuncia a l\u00f3gica do <i>objeto pequeno a<\/i> lacaniano, como encarna\u00e7\u00e3o do mais-gozar, j\u00e1 \u00e9 fornecida pela f\u00f3rmula decisiva que Marx utilizou, no terceiro volume de O <i>capital,<\/i> para designar o limite l\u00f3gico-hist\u00f3rico do capitalismo: \u00abo limite do capital \u00e9 o pr\u00f3prio capital, isto \u00e9, o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista\u00bb.<\/p>\n<p>Essa f\u00f3rmula pode ser lida de 4uas maneiras. A primeira, a leitura historicista-evolucionista habitual, concebe-a, de acordo com o lament\u00e1vel paradigma da dial\u00e9tica das for\u00e7as produtivas e das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, como o modelo do \u00abconte\u00fado\u00bb e da \u00abforma\u00bb. Esse paradigma segue aproximadamente a met\u00e1fora da\u00a0 cobra, que troca periodicamente de pele, quando esta fica apertada demais: postula-se como \u00edmpeto \u00faltimo do desenvolvimento social \u2014 como sua constante \u00abnatural\u00bb e \u00abespont\u00e2nea\u00bb (por assim dizer) \u2014 o crescimento incessante das for\u00e7as produtivas (em geral, reduzidas ao desenvolvimento t\u00e9cnico); esse cresci mento \u00abespont\u00e2neo\u00bb \u00e9 ent\u00e3o seguido, com maior ou menor grau de atraso, pelo momento inerte e dependente, a rela\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o. Assim, temos \u00e9pocas em que as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o est\u00e3o de acordo com as for\u00e7as produtivas; depois, essas for\u00e7as se desenvolvem e ficam grandes demais para sua \u00abroupagem social\u00bb, o contexto das rela\u00e7\u00f5es; esse contexto torna-se um obst\u00e1culo a seu desenvolvimento ulterior, at\u00e9 que a revolu\u00e7\u00e3o social torna a coordenar as for\u00e7as e as rela\u00e7\u00f5es, substituindo as antigas rela\u00e7\u00f5es por novas, que correspondem ao novo estado das for\u00e7as.<\/p>\n<p>Se concebermos por esse ponto de vista a f\u00f3rmula do capital como sendo o limite dele mesmo, ela significar\u00e1, simplesmente, que a rela\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o capitalista, que, a princ\u00edpio, possibilita o r\u00e1pido desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, torna-se, a certa altura, um obst\u00e1culo para seu desenvolvimento ulterior: que essas for\u00e7as tornam-se maiores que seu arcabou\u00e7o e exigem uma nova forma de rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Marx, \u00e9 claro, est\u00e1 longe dessa id\u00e9ia evolucionista simplista. Para nos convencermos disso, basta examinar as passagens de O <i>capital<\/i> em que ele aborda a rela\u00e7\u00e3o entre a subordina\u00e7\u00e3o formal e a subordina\u00e7\u00e3o real do processo de produ\u00e7\u00e3o ao capital: a subordina\u00e7\u00e3o formal <i>precede<\/i> a real; primeiro o capital\u00a0 subordina o processo de produ\u00e7\u00e3o tal como este \u00e9 encontrado (artes\u00e3os etc) e s\u00f3\u00a0 depois modifica passo a passo as for\u00e7as produtivas, moldando-as de maneira a\u00a0 criar uma correspond\u00eancia. Ao contr\u00e1rio da id\u00e9ia simplista mencionada anteriormente, portanto, \u00e9 a <i>forma<\/i> da rela\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o que impulsiona o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas \u2014 isto \u00e9, de seu \u00abconte\u00fado\u00bb.<\/p>\n<p>Tudo de que precisamos para tornar imposs\u00edvel a leitura evolucionista simplista da f\u00f3rmula \u00abo limite do capital \u00e9 o pr\u00f3prio capital\u00bb \u00e9 fazer uma pergunta\u00a0 muito simples e \u00f3bvia: como definimos, exatamente, o momento \u2014 ainda que\u00a0 apenas ideal \u2014 em que a rela\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o capitalista torna-se um obst\u00e1culo\u00a0 ao desenvolvimento adicional das for\u00e7as produtivas? Ou ent\u00e3o, o avesso da mesma pergunta: quando podemos falar de concord\u00e2ncia entre as for\u00e7as produtivas\u00a0 e as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o no modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista? Uma an\u00e1lise rigorosa leva a uma \u00fanica resposta poss\u00edvel: <i>nunca.<\/i><\/p>\n<p>\u00c9 exatamente nisso que o capitalismo difere de outros modos de produ\u00e7\u00e3o\u00a0 anteriores: nestes, podemos falar de per\u00edodos de \u00abconcord\u00e2ncia\u00bb em que o pro\u00a0 cesso da produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o sociais avan\u00e7a como um sereno movimento circular, e de per\u00edodos de convuls\u00e3o em que a contradi\u00e7\u00e3o entre as for\u00e7as e a rela\u00e7\u00e3o\u00a0 se agrava; j\u00e1 no capitalismo, essa contradi\u00e7\u00e3o, a discord\u00e2ncia for\u00e7as\/rela\u00e7\u00e3o, <i>est\u00e1\u00a0 contida em seu pr\u00f3prio conceito<\/i> (na forma da contradi\u00e7\u00e3o entre o modo de produ\u00e7\u00e3o social e o modo de apropria\u00e7\u00e3o privado individual). \u00c9 essa contradi\u00e7\u00e3o inter\u00a0 na que obriga o capitalismo a uma permanente reprodu\u00e7\u00e3o ampliada \u2014 ao desenvolvimento incessante de suas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, em contraste\u00a0 com os modos de produ\u00e7\u00e3o anteriores, onde, ao menos em seu estado \u00abnormal\u00bb,\u00a0 a (re)produ\u00e7\u00e3o se d\u00e1 como um movimento circular.<\/p>\n<p>Se assim \u00e9, a leitura evolucionista da f\u00f3rmula do capital como sua pr\u00f3pria\u00a0 limita\u00e7\u00e3o \u00e9 inadequada: a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 que, num certo momento de seu desenvolvimento, a estrutura da rela\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o comece a constranger o desenvolvimento adicional das for\u00e7as produtivas; a quest\u00e3o \u00e9 que <i>\u00e9 esse pr\u00f3prio limite\u00a0 imanente, essa \u00abcontradi\u00e7\u00e3o interna\u00bb, que impele o capitalismo a um desenvolvi\u00a0 mento permanente. O<\/i> estado \u00abnormal\u00bb do capitalismo \u00e9 o revolucionamento permanente de suas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia: desde o come\u00e7o, o capitalismo\u00a0 \u00abapodrece\u00bb, \u00e9 marcado por uma contradi\u00e7\u00e3o mutuante, pela disc\u00f3rdia, por uma\u00a0 falta de equil\u00edbrio imanente: \u00e9 exatamente por isso que ele se modifica e se desenvolve sem parar \u2014 o desenvolvimento incessante \u00e9 sua \u00fanica maneira de resolver\u00a0 reiteradamente, de entrar em acordo com seu desequil\u00edbrio fundamental e constitutivo, a \u00abcontradi\u00e7\u00e3o\u00bb. Longe de ser restritivo, portanto, seu limite \u00e9 o pr\u00f3prio\u00a0 impulso de seu desenvolvimento. Nisso reside o paradoxo caracter\u00edstico do capitalismo, seu \u00faltimo recurso: o capitalismo \u00e9 capaz de transformar seu limite, sua\u00a0 pr\u00f3pria impot\u00eancia, na fonte de seu poder \u2014 quanto mais ele \u00abapodrece\u00bb, quanto mais se agrava sua contradi\u00e7\u00e3o imanente, mais ele tem que se revolucionar\u00a0 para sobreviver.<\/p>\n<p>\u00c9 esse paradoxo que define o mais-gozar: n\u00e3o se trata de um excedente que\u00a0 simplesmente se ligue a um gozo \u00abnormal\u00bb, fundamental, porque o <i>gozo como tal\u00a0 s\u00f3 emerge nesse excedente, \u00e9<\/i> constitutivamente um \u00abexcesso\u00bb. Se retirarmos o excedente, perderemos o pr\u00f3prio gozo, do mesmo modo que o capitalismo, que s\u00f3\u00a0 pode sobreviver revolucionando incessantemente suas condi\u00e7\u00f5es materiais, deixa de existir quando \u00abpermanece o mesmo\u00bb, quando atinge um equil\u00edbrio in\u00a0 terno. \u00c9 essa, pois, a homologia entre a mais-valia \u2014 a \u00abcausa\u00bb que aciona o\u00a0 processo de produ\u00e7\u00e3o capitalista \u2014 e o mais-gozar, o objeto-causa do desejo.\u00a0 Porventura a topologia paradoxal da movimenta\u00e7\u00e3o do capital, do bloqueio fundamental que se resolve e se reproduz atrav\u00e9s da atividade fren\u00e9tica, do poder\u00a0 <i>excessivo<\/i> como a pr\u00f3pria forma da apar\u00eancia de uma <i>impot\u00eancia<\/i> b\u00e1sica \u2014 por\u00a0 ventura essa passagem imediata, essa coincid\u00eancia entre o limite e o excesso, entre a falta e o excedente, n\u00e3o ser\u00e1 precisamente a do <i>objeto pequeno a<\/i> lacaniano,\u00a0 do resto que encarna a falta constitutiva fundamental?<\/p>\n<p>De tudo isso, \u00e9 claro, Marx \u00absabe perfeitamente, mas&#8230;\u00bb: mas, na formula\u00e7\u00e3o\u00a0 crucial do <i>Pref\u00e1cio \u00e0 Cr\u00edtica da economia pol\u00edtica,<\/i> ele procede <i>como se n\u00e3o soubesse,<\/i> descrevendo a pr\u00f3pria passagem do capitalismo para o socialismo em termos\u00a0 da j\u00e1 mencionada dial\u00e9tica vulgar das for\u00e7as produtivas e da rela\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o: quando as for\u00e7as ultrapassam um certo grau, a rela\u00e7\u00e3o capitalista torna-se um\u00a0 obst\u00e1culo a seu desenvolvimento futuro; essa discord\u00e2ncia acarreta a necessidade\u00a0 da revolu\u00e7\u00e3o socialista, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 tornar a coordenar as for\u00e7as com a rela\u00e7\u00e3o,\u00a0 ou seja, estabelecer rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o que possibilitem o desenvolvimento intensificado das for\u00e7as produtivas como o fim-em-si do processo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Como podemos deixar de detectar nessa formula\u00e7\u00e3o o fato de que Marx n\u00e3o\u00a0 conseguiu lidar com os paradoxos do mais-gozar? E a ir\u00f4nica vingan\u00e7a da hist\u00f3ria por esse fracasso \u00e9 que, hoje em dia, existe uma sociedade que parece corresponder perfeitamente a essa dial\u00e9tica evolucionista vulgar das for\u00e7as e da rela\u00e7\u00e3o: o \u00absocialismo real\u00bb, uma sociedade que se legitima referindo-se a Marx. Acaso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um lugar-comum dizer que o \u00absocialismo real\u00bb possibilitou a industrializa\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, mas que, t\u00e3o logo as for\u00e7as produtivas atingiram um certo n\u00edvel de desenvolvimento (geralmente designado pela vaga express\u00e3o \u00absociedade p\u00f3s-industrial\u00bb), as rela\u00e7\u00f5es sociais \u00absocialistas reais\u00bb come\u00e7aram a restringir seu crescimento ulterior?<\/p>\n<p><b>Um Mapa da Ideologia<\/b><\/p>\n<p><b>Como Marx Inventou o Sintoma?<\/b><\/p>\n<p><b>MAIS-VALIA E MAIS-GOZAR (pp. 327 \u2013 330)<\/b><\/p>\n<p><b>Slavoj Zizek<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eis aqui a diferen\u00e7a do marxismo: na perspectiva marxista predominante, o olhar ideol\u00f3gico e um olhar parcial, que deixa escapar a totalidade das rela\u00e7\u00f5es sociais, ao passo que, na perspectiva lacaniana, a ideologia designa, antes, a totalidade empenhada em apagar os vest\u00edgios de sua pr\u00f3pria impossibilidade. Essa diferen\u00e7a corresponde \u00e0 que distingue as no\u00e7\u00f5es de fetichismo em Freud e em Marx: no marxismo, o fetiche oculta a rede positiva de rela\u00e7\u00f5es sociais, ao passo que, em Freud, o fetiche oculta a falta (&quot;castra\u00e7\u00e3o&quot;) em torno da qual se articula a rede simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>Na medida em que concebemos o Real como aquilo que &quot;sempre retorna ao mesmo lugar&quot;, podemos deduzir outra diferen\u00e7a n\u00e3o menos crucial. Do ponto de vista marxista, o m\u00e9todo ideol\u00f3gico por excel\u00eancia \u00e9 o da &quot;falsa&quot; eterniza\u00e7\u00e3o e\/ou universaliza\u00e7\u00e3o: um estado que depende de uma conjuntura hist\u00f3rica concreta afigura-se um tra\u00e7o eterno e universal da condi\u00e7\u00e3o humana; o interesse de uma classe particular disfar\u00e7a-se como um interesse humano universal&#8230; e a meta da &quot;cr\u00edtica da ideologia&quot; \u00e9 denunciar essa falsa universalidade, identificar por tr\u00e1s do homem em geral o indiv\u00edduo burgu\u00eas, por tr\u00e1s dos direitos universais do homem, a forma que possibilita a explora\u00e7\u00e3o capitalista, por tr\u00e1s*da &quot;fam\u00edlia nuclear&quot; como constante trans-hist\u00f3rica, uma forma historicamente especificada e limitada de rela\u00e7\u00f5es de parentesco, e assim por diante.<\/p>\n<p>Na perspectiva lacaniana, devemos modificar os termos e apontar como m\u00e9todo ideol\u00f3gico mais &quot;astuto&quot; o oposto diametral da eterniza\u00e7\u00e3o: a historiciza\u00e7\u00e3o ultra-r\u00e1pida. Tomemos um dos lugares-comuns da cr\u00edtica marxista-feminista \u00e0 psican\u00e1lise, a id\u00e9ia de que sua insist\u00eancia no papel crucial do complexo de \u00c9dipo e do tri\u00e2ngulo da fam\u00edlia nuclear transforma uma forma historicamente condicionada de fam\u00edlia patriarcal num tra\u00e7o da condi\u00e7\u00e3o humana universal: n\u00e3o ser\u00e1 esse esfor\u00e7o de historicizar o tri\u00e2ngulo familiar precisamente uma tentativa de eludir o &quot;n\u00facleo s\u00f3lido&quot; que se anuncia atrav\u00e9s da &quot;fam\u00edlia patriarcal&quot; &#8212; o Real da Lei, a rocha da castra\u00e7\u00e3o? Em outras palavras, se a universaliza\u00e7\u00e3o ultra-r\u00e1pida produz uma Imagem quase universal, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 cegar-nos para sua determina\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-simb\u00f3lica hist\u00f3rica, a historiciza\u00e7\u00e3o ultra-r\u00e1pida cega-nos para o verdadeiro n\u00facleo que retorna como o mesmo atrav\u00e9s de diversas historiciza\u00e7\u00f5es\/simboliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O mesmo se d\u00e1 com um fen\u00f4meno que aponta com muita exatid\u00e3o o avesso &quot;perverso&quot; da civiliza\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XX: os campos de concentra\u00e7\u00e3o. Todas as diferentes tentativas de ligar esse fen\u00f4meno a uma imagem concreta (&quot;Holocausto&quot;, &quot;Gulag&quot; etc), de reduzi-lo a um produto de uma ordem social concreta (fascismo, stalinismo etc), que s\u00e3o elas sen\u00e3o um punhado de tentativas de eludir o fato de estarmos lidando, nesse fen\u00f4meno, com o &quot;real&quot; de nossa civiliza\u00e7\u00e3o, que retorna como o mesmo n\u00facleo traum\u00e1tico em todos os sistemas sociais? (N\u00e3o devemos esquecer que os campos de concentra\u00e7\u00e3o foram uma inven\u00e7\u00e3o da Inglaterra &quot;liberal&quot;, que data da Guerra dos B\u00f4eres; que tamb\u00e9m foram usados nos EUA para isolar a popula\u00e7\u00e3o japonesa, e assim por diante.)<\/p>\n<p>O marxismo, portanto, n\u00e3o conseguiu levar em conta ou chegar a um acordo com o objeto-a-mais, com o resto do Real que escapa \u00e0 simboliza\u00e7\u00e3o &#8212; fato que \u00e9 ainda mais surpreendente ao lembrarmos que Lacan pautou sua no\u00e7\u00e3o do mais-gozar na id\u00e9ia marxista da mais-valia. A prova de que a mais-valia marxista efetivamente anuncia a l\u00f3gica do objeto pequeno a lacaniano, como encarna\u00e7\u00e3o do mais-gozar, j\u00e1 \u00e9 fornecida pela f\u00f3rmula decisiva que Marx utilizou, no terceiro volume de O capital, para designar o limite l\u00f3gico-hist\u00f3rico do capitalismo: &quot;o limite do capital \u00e9 o pr\u00f3prio capital, isto \u00e9, o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista&quot;.<\/p>\n<p>Essa f\u00f3rmula pode ser lida de 4uas maneiras. A primeira, a leitura historicista-evolucionista habitual, concebe-a, de acordo com o lament\u00e1vel paradigma da dial\u00e9tica das for\u00e7as produtivas e das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, como o modelo do &quot;conte\u00fado&quot; e da &quot;forma&quot;. Esse paradigma segue aproximadamente a met\u00e1fora da  cobra, que troca periodicamente de pele, quando esta fica apertada demais: postula-se como \u00edmpeto \u00faltimo do desenvolvimento social &#8212; como sua constante &quot;natural&quot; e &quot;espont\u00e2nea&quot; (por assim dizer) &#8212; o crescimento incessante das for\u00e7as produtivas (em geral, reduzidas ao desenvolvimento t\u00e9cnico); esse cresci mento &quot;espont\u00e2neo&quot; \u00e9 ent\u00e3o seguido, com maior ou menor grau de atraso, pelo momento inerte e dependente, a rela\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o. Assim, temos \u00e9pocas em que as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o est\u00e3o de acordo com as for\u00e7as produtivas; depois, essas for\u00e7as se desenvolvem e ficam grandes demais para sua &quot;roupagem social&quot;, o contexto das rela\u00e7\u00f5es; esse contexto torna-se um obst\u00e1culo a seu desenvolvimento ulterior, at\u00e9 que a revolu\u00e7\u00e3o social torna a coordenar as for\u00e7as e as rela\u00e7\u00f5es, substituindo as antigas rela\u00e7\u00f5es por novas, que correspondem ao novo estado das for\u00e7as.<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-211","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-la-izquierda-a-debate"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/211","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=211"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/211\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=211"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=211"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=211"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}