{"id":217,"date":"2006-04-10T00:00:00","date_gmt":"2006-04-10T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espai-marx.net\/?p=217"},"modified":"2019-01-21T18:58:48","modified_gmt":"2019-01-21T18:58:48","slug":"francisco-de-oliveira-a-politica-desapareceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espai-marx.net\/?p=217","title":{"rendered":"Francisco de Oliveira: \u00aba pol\u00edtica desapareceu\u00bb"},"content":{"rendered":"\n<p><i>Nesta edi\u00e7\u00e3o, o Correio da Cidadania traz entrevista com o soci\u00f3logo da USP Francisco de Oliveira. Partindo das elei\u00e7\u00f5es realizadas dia 03 deste m\u00eas, ele explica como a converg\u00eancia ao centro dos principais partidos deixou o eleitor sem op\u00e7\u00e3o. Neste processo, a pol\u00edtica torna-se irrelevante, perante o triunfo do capital, e a democracia um sonho cada vez mais distante para os milh\u00f5es de brasileiros.<\/i><\/p>\n<p> <b>Correio da Cidadania<\/b>: Quem saiu vitorioso nas elei\u00e7\u00f5es do dia 03?<\/p>\n<p> <b>Francisco de Oliveira<\/b>: Quantitativamente, foi o PT. O PSDB apareceu em segundo, enquanto PMDB continua com a maioria das prefeituras no Brasil. S\u00f3 que do ponto de vista do espectro pol\u00edtico, venceu o centro.<\/p>\n<p> <b>CC<\/b>: O que significa esse fortalecimento do centro?<\/p>\n<p> <b>FO<\/b>: Contraditoriamente, significa a desimport\u00e2ncia da pol\u00edtica. Pol\u00edtica entendida como aquilo que \u00e9 diferen\u00e7a, dissenso, n\u00e3o consenso harmonioso. \u00c9 a pol\u00edtica que desaparece com a vit\u00f3ria do centro. O PMDB j\u00e1 era centro h\u00e1 tempos, o PT que era esquerda e o PSDB que, no seu in\u00edcio, era centro-esquerda dirigiram-se para o centro. Quem perde \u00e9 a pol\u00edtica. Veja os arranjos para o segundo turno em S\u00e3o Paulo (SP). Todos buscam os votos de Paulo Maluf (PP), que fazia diferen\u00e7a at\u00e9 o pleito de 2000. Eles buscam um voto que simboliza os setores sociais que Maluf representava &#8211; uma certa concep\u00e7\u00e3o de mundo, de horror ao que \u00e9 estranho, diferente; \u00e0 direita, mas uma direita extremada, que n\u00e3o teve chance de transformar-se em fascismo.<\/p>\n<p> <b>CC<\/b>: Se quem perde \u00e9 a pol\u00edtica, quem ganha?<\/p>\n<p> <b>FO<\/b>: \u00c9 o capital visto de uma forma bem abrangente: a preval\u00eancia dos interesses econ\u00f4micos sempre se colocaram de fora da pol\u00edtica. Essa \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o que foi se dando desde o in\u00edcio do capitalismo, o capital sempre esteve fora da pol\u00edtica. Agora, a pol\u00edtica atualiza est\u00e1 separa\u00e7\u00e3o, portanto, quem ganha \u00e9 o capital com o desaparecimento da pol\u00edtica.<\/p>\n<p> <b>CC<\/b>: Isso quer dizer que a direita ganha?<\/p>\n<p> <b>FO<\/b>: N\u00e3o propriamente a direita. Como disse Jos\u00e9 Dirceu, &#8220;a direita n\u00e3o existe mais&#8221;. Todos est\u00e3o no centro. \u00c9 apenas uma forma de localizar no espectro pol\u00edtico cl\u00e1ssico. Mas n\u00e3o \u00e9 uma direita atuando como classe. O capital passa por cima dessas determina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p> <b>CC<\/b>: Como est\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o do eleitor?<\/p>\n<p> <b>FO<\/b>: Ele est\u00e1 sem escolha. Est\u00e1 frente a duas siglas, dois simulacros de representa\u00e7\u00e3o. Mas, de fato, ele n\u00e3o tem escolha. As diferen\u00e7as que v\u00e3o ser apontadas, por exemplo, na elei\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo (SP) s\u00e3o assim: &#8220;eu fiz os CEUs (Centros Educacionais Unificados, constru\u00eddos pela prefeita paulistana Marta Suplicy)&#8221;, ao que o outro candidato responde, &#8220;mas quem vai aperfei\u00e7o\u00e1-lo sou eu&#8221;. E ataca: &#8220;voc\u00ea n\u00e3o deu aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade (principal eixo da campanha do ex-ministro da Sa\u00fade Jos\u00e9 Serra)&#8221;. Ao que Marta retruca: &#8220;agora vou fazer o CEU sa\u00fade&#8221;. Quer dizer, n\u00e3o tem diferen\u00e7a alguma entre eles.<\/p>\n<p> <b>CC<\/b>: Isso atrapalha o caminho do Brasil em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia?<\/p>\n<p> <b>FO<\/b>: Compromete seriamente. Vejo cientistas pol\u00edticos, como F\u00e1bio Wanderley Reis, se regozijarem com a reitera\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es. Com essa converg\u00eancia para o centro, os partidos se tornam previs\u00edveis. Fico espantado. Perde-se a capacidade de escolha. A pol\u00edtica torna-se irrelevante. N\u00e3o participo desse otimismo que se satisfaz com as formas.<\/p>\n<p> <b>CC<\/b>: Essa conjuntura aponta algo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s elei\u00e7\u00f5es de 2006?<br \/> <b>FO<\/b>: Todos procurar\u00e3o ocupar o centro, as diferen\u00e7as de programa ser\u00e3o irrelevantes e a elei\u00e7\u00e3o passar\u00e1 a depender, como acontece nos EUA, do \u00eaxito da economia; se ela estiver bem, o Lula se reelege, se estiver mal, os tucanos podem voltar ao governo. Quer dizer, a elei\u00e7\u00e3o passa a depender da economia. O marqueteiro de Bill Clinton (ex-presidente norte-americano) disse, antes da primeira elei\u00e7\u00e3o do democrata, ao seu cliente &#8211; preocupado com outros assuntos &#8211; para prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 economia &#8211; &#8220;\u00e9 a economia, est\u00fapido, que decide a elei\u00e7\u00e3o&#8221;, afirmou. Vai passar a ser assim. Al\u00e9m, evidentemente, do poder das m\u00e1quinas estatais que estar\u00e3o nas m\u00e3os de cada partido. \u00c9 isso que vai decidir quem ganha e quem perde, mas todos v\u00e3o procurar ocupar o centro.<\/p>\n<p> <b>CC<\/b>: Num quadro pol\u00edtico como esse, de que forma deve se comportar a esquerda?<\/p>\n<p> <b>FO<\/b>: Deve-se ocupar a cena partid\u00e1ria porque ela faz parte das institui\u00e7\u00f5es do poder. Essa \u00e9 a raz\u00e3o principal. A esquerda deve insistir em diferenciar, quer dizer, tentar restaurar o dissenso como forma da pol\u00edtica, separando-se dessa ampla converg\u00eancia ao centro. Quais s\u00e3o as formas de se fazer isso? N\u00e3o sei. S\u00f3 a experi\u00eancia hist\u00f3rica \u00e9 capaz de criar novas formas. Mas \u00e9 preciso ocupar esse lugar &#8211; embora a pol\u00edtica tenha se tornado irrelevante enquanto lugar da disputa &#8211; pois as m\u00e1quinas partid\u00e1rias, agora \u00e0 servi\u00e7o do Estado, tocam na distribui\u00e7\u00e3o do excedente p\u00fablico e \u00e9 preciso fazer isso ser repartido. No fim das contas, ao contr\u00e1rio do otimismo r\u00f3seo que impera por a\u00ed, vivemos um momento muito negativo.<\/p>\n<p>Fuente: Correio Da Ciudadania<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta edi\u00e7\u00e3o, o Correio da Cidadania traz entrevista com o soci\u00f3logo da USP Francisco de Oliveira. Partindo das elei\u00e7\u00f5es realizadas dia 03 deste m\u00eas, ele explica como a converg\u00eancia ao centro dos principais partidos deixou o eleitor sem op\u00e7\u00e3o. Neste processo, a pol\u00edtica torna-se irrelevante, perante o triunfo do capital, e a democracia um sonho cada vez mais distante para os milh\u00f5es de brasileiros.   Correio da Cidadania: Quem saiu vitorioso nas elei\u00e7\u00f5es do dia 03?  Francisco de Oliveira: Quantitativamente, foi o PT. O PSDB apareceu em segundo, enquanto PMDB continua com a maioria das prefeituras no Brasil. S\u00f3 que do ponto de vista do espectro pol\u00edtico, venceu o centro.  CC: O que significa esse fortalecimento do centro?  FO: Contraditoriamente, significa a desimport\u00e2ncia da pol\u00edtica. Pol\u00edtica entendida como aquilo que \u00e9 diferen\u00e7a, dissenso, n\u00e3o consenso harmonioso. \u00c9 a pol\u00edtica que desaparece com a vit\u00f3ria do centro. O PMDB j\u00e1 era centro h\u00e1 tempos, o PT que era esquerda e o PSDB que, no seu in\u00edcio, era centro-esquerda dirigiram-se para o centro. Quem perde \u00e9 a pol\u00edtica. Veja os arranjos para o segundo turno em S\u00e3o Paulo (SP). Todos buscam os votos de Paulo Maluf (PP), que fazia diferen\u00e7a at\u00e9 o pleito de 2000. Eles buscam um voto que simboliza os setores sociais que Maluf representava &#8211; uma certa concep\u00e7\u00e3o de mundo, de horror ao que \u00e9 estranho, diferente; \u00e0 direita, mas uma direita extremada, que n\u00e3o teve chance de transformar-se em fascismo.  CC: Se quem perde \u00e9 a pol\u00edtica, quem ganha?  FO: \u00c9 o capital visto de uma forma bem abrangente: a preval\u00eancia dos interesses econ\u00f4micos sempre se colocaram de fora da pol\u00edtica. Essa \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o que foi se dando desde o in\u00edcio do capitalismo, o capital sempre esteve fora da pol\u00edtica. Agora, a pol\u00edtica atualiza est\u00e1 separa\u00e7\u00e3o, portanto, quem ganha \u00e9 o capital com o desaparecimento da pol\u00edtica.  CC: Isso quer dizer que a direita ganha?  FO: N\u00e3o propriamente a direita. Como disse Jos\u00e9 Dirceu, &#8220;a direita n\u00e3o existe mais&#8221;. Todos est\u00e3o no centro. \u00c9 apenas uma forma de localizar no espectro pol\u00edtico cl\u00e1ssico. Mas n\u00e3o \u00e9 uma direita atuando como classe. O capital passa por cima dessas determina\u00e7\u00f5es.  CC: Como est\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o do eleitor?  FO: Ele est\u00e1 sem escolha. Est\u00e1 frente a duas siglas, dois simulacros de representa\u00e7\u00e3o. Mas, de fato, ele n\u00e3o tem escolha. As diferen\u00e7as que v\u00e3o ser apontadas, por exemplo, na elei\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo (SP) s\u00e3o assim: &#8220;eu fiz os CEUs (Centros Educacionais Unificados, constru\u00eddos pela prefeita paulistana Marta Suplicy)&#8221;, ao que o outro candidato responde, &#8220;mas quem vai aperfei\u00e7o\u00e1-lo sou eu&#8221;. E ataca: &#8220;voc\u00ea n\u00e3o deu aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade (principal eixo da campanha do ex-ministro da Sa\u00fade Jos\u00e9 Serra)&#8221;. Ao que Marta retruca: &#8220;agora vou fazer o CEU sa\u00fade&#8221;. Quer dizer, n\u00e3o tem diferen\u00e7a alguma entre eles.  CC: Isso atrapalha o caminho do Brasil em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia?  FO: Compromete seriamente. Vejo cientistas pol\u00edticos, como F\u00e1bio Wanderley Reis, se regozijarem com a reitera\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es. Com essa converg\u00eancia para o centro, os partidos se tornam previs\u00edveis. Fico espantado. Perde-se a capacidade de escolha. A pol\u00edtica torna-se irrelevante. N\u00e3o participo desse otimismo que se satisfaz com as formas.  CC: Essa conjuntura aponta algo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s elei\u00e7\u00f5es de 2006? FO: Todos procurar\u00e3o ocupar o centro, as diferen\u00e7as de programa ser\u00e3o irrelevantes e a elei\u00e7\u00e3o passar\u00e1 a depender, como acontece nos EUA, do \u00eaxito da economia; se ela estiver bem, o Lula se reelege, se estiver mal, os tucanos podem voltar ao governo. Quer dizer, a elei\u00e7\u00e3o passa a depender da economia. O marqueteiro de Bill Clinton (ex-presidente norte-americano) disse, antes da primeira elei\u00e7\u00e3o do democrata, ao seu cliente &#8211; preocupado com outros assuntos &#8211; para prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 economia &#8211; &#8220;\u00e9 a economia, est\u00fapido, que decide a elei\u00e7\u00e3o&#8221;, afirmou. Vai passar a ser assim. Al\u00e9m, evidentemente, do poder das m\u00e1quinas estatais que estar\u00e3o nas m\u00e3os de cada partido. \u00c9 isso que vai decidir quem ganha e quem perde, mas todos v\u00e3o procurar ocupar o centro.  CC: Num quadro pol\u00edtico como esse, de que forma deve se comportar a esquerda?  FO: Deve-se ocupar a cena partid\u00e1ria porque ela faz parte das institui\u00e7\u00f5es do poder. Essa \u00e9 a raz\u00e3o principal. A esquerda deve insistir em diferenciar, quer dizer, tentar restaurar o dissenso como forma da pol\u00edtica, separando-se dessa ampla converg\u00eancia ao centro. Quais s\u00e3o as formas de se fazer isso? N\u00e3o sei. S\u00f3 a experi\u00eancia hist\u00f3rica \u00e9 capaz de criar novas formas. Mas \u00e9 preciso ocupar esse lugar &#8211; embora a pol\u00edtica tenha se tornado irrelevante enquanto lugar da disputa &#8211; pois as m\u00e1quinas partid\u00e1rias, agora \u00e0 servi\u00e7o do Estado, tocam na distribui\u00e7\u00e3o do excedente p\u00fablico e \u00e9 preciso fazer isso ser repartido. No fim das contas, ao contr\u00e1rio do otimismo r\u00f3seo que impera por a\u00ed, vivemos um momento muito negativo.<\/p>\n<p>Fuente: Correio Da Ciudadania<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-217","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-la-izquierda-a-debate"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/217","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=217"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/217\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=217"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=217"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=217"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}