{"id":217,"date":"2006-04-10T00:00:00","date_gmt":"2006-04-10T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espai-marx.net\/?p=217"},"modified":"2019-01-21T18:58:48","modified_gmt":"2019-01-21T18:58:48","slug":"francisco-de-oliveira-a-politica-desapareceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espai-marx.net\/?p=217","title":{"rendered":"Francisco de Oliveira: \u00aba pol\u00edtica desapareceu\u00bb"},"content":{"rendered":"\n<p><i>Nesta edi\u00e7\u00e3o, o Correio da Cidadania traz entrevista com o soci\u00f3logo da USP Francisco de Oliveira. Partindo das elei\u00e7\u00f5es realizadas dia 03 deste m\u00eas, ele explica como a converg\u00eancia ao centro dos principais partidos deixou o eleitor sem op\u00e7\u00e3o. Neste processo, a pol\u00edtica torna-se irrelevante, perante o triunfo do capital, e a democracia um sonho cada vez mais distante para os milh\u00f5es de brasileiros.<\/i><\/p>\n<p> <b>Correio da Cidadania<\/b>: Quem saiu vitorioso nas elei\u00e7\u00f5es do dia 03?<\/p>\n<p> <b>Francisco de Oliveira<\/b>: Quantitativamente, foi o PT. O PSDB apareceu em segundo, enquanto PMDB continua com a maioria das prefeituras no Brasil. S\u00f3 que do ponto de vista do espectro pol\u00edtico, venceu o centro.<\/p>\n<p> <b>CC<\/b>: O que significa esse fortalecimento do centro?<\/p>\n<p> <b>FO<\/b>: Contraditoriamente, significa a desimport\u00e2ncia da pol\u00edtica. Pol\u00edtica entendida como aquilo que \u00e9 diferen\u00e7a, dissenso, n\u00e3o consenso harmonioso. \u00c9 a pol\u00edtica que desaparece com a vit\u00f3ria do centro. O PMDB j\u00e1 era centro h\u00e1 tempos, o PT que era esquerda e o PSDB que, no seu in\u00edcio, era centro-esquerda dirigiram-se para o centro. Quem perde \u00e9 a pol\u00edtica. Veja os arranjos para o segundo turno em S\u00e3o Paulo (SP). Todos buscam os votos de Paulo Maluf (PP), que fazia diferen\u00e7a at\u00e9 o pleito de 2000. Eles buscam um voto que simboliza os setores sociais que Maluf representava &#8211; uma certa concep\u00e7\u00e3o de mundo, de horror ao que \u00e9 estranho, diferente; \u00e0 direita, mas uma direita extremada, que n\u00e3o teve chance de transformar-se em fascismo.<\/p>\n<p> <b>CC<\/b>: Se quem perde \u00e9 a pol\u00edtica, quem ganha?<\/p>\n<p> <b>FO<\/b>: \u00c9 o capital visto de uma forma bem abrangente: a preval\u00eancia dos interesses econ\u00f4micos sempre se colocaram de fora da pol\u00edtica. Essa \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o que foi se dando desde o in\u00edcio do capitalismo, o capital sempre esteve fora da pol\u00edtica. Agora, a pol\u00edtica atualiza est\u00e1 separa\u00e7\u00e3o, portanto, quem ganha \u00e9 o capital com o desaparecimento da pol\u00edtica.<\/p>\n<p> <b>CC<\/b>: Isso quer dizer que a direita ganha?<\/p>\n<p> <b>FO<\/b>: N\u00e3o propriamente a direita. Como disse Jos\u00e9 Dirceu, &#8220;a direita n\u00e3o existe mais&#8221;. Todos est\u00e3o no centro. \u00c9 apenas uma forma de localizar no espectro pol\u00edtico cl\u00e1ssico. Mas n\u00e3o \u00e9 uma direita atuando como classe. O capital passa por cima dessas determina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p> <b>CC<\/b>: Como est\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o do eleitor?<\/p>\n<p> <b>FO<\/b>: Ele est\u00e1 sem escolha. Est\u00e1 frente a duas siglas, dois simulacros de representa\u00e7\u00e3o. Mas, de fato, ele n\u00e3o tem escolha. As diferen\u00e7as que v\u00e3o ser apontadas, por exemplo, na elei\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo (SP) s\u00e3o assim: &#8220;eu fiz os CEUs (Centros Educacionais Unificados, constru\u00eddos pela prefeita paulistana Marta Suplicy)&#8221;, ao que o outro candidato responde, &#8220;mas quem vai aperfei\u00e7o\u00e1-lo sou eu&#8221;. E ataca: &#8220;voc\u00ea n\u00e3o deu aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade (principal eixo da campanha do ex-ministro da Sa\u00fade Jos\u00e9 Serra)&#8221;. Ao que Marta retruca: &#8220;agora vou fazer o CEU sa\u00fade&#8221;. Quer dizer, n\u00e3o tem diferen\u00e7a alguma entre eles.<\/p>\n<p> <b>CC<\/b>: Isso atrapalha o caminho do Brasil em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia?<\/p>\n<p> <b>FO<\/b>: Compromete seriamente. Vejo cientistas pol\u00edticos, como F\u00e1bio Wanderley Reis, se regozijarem com a reitera\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es. Com essa converg\u00eancia para o centro, os partidos se tornam previs\u00edveis. Fico espantado. Perde-se a capacidade de escolha. A pol\u00edtica torna-se irrelevante. N\u00e3o participo desse otimismo que se satisfaz com as formas.<\/p>\n<p> <b>CC<\/b>: Essa conjuntura aponta algo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s elei\u00e7\u00f5es de 2006?<br \/> <b>FO<\/b>: Todos procurar\u00e3o ocupar o centro, as diferen\u00e7as de programa ser\u00e3o irrelevantes e a elei\u00e7\u00e3o passar\u00e1 a depender, como acontece nos EUA, do \u00eaxito da economia; se ela estiver bem, o Lula se reelege, se estiver mal, os tucanos podem voltar ao governo. Quer dizer, a elei\u00e7\u00e3o passa a depender da economia. O marqueteiro de Bill Clinton (ex-presidente norte-americano) disse, antes da primeira elei\u00e7\u00e3o do democrata, ao seu cliente &#8211; preocupado com outros assuntos &#8211; para prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 economia &#8211; &#8220;\u00e9 a economia, est\u00fapido, que decide a elei\u00e7\u00e3o&#8221;, afirmou. Vai passar a ser assim. Al\u00e9m, evidentemente, do poder das m\u00e1quinas estatais que estar\u00e3o nas m\u00e3os de cada partido. \u00c9 isso que vai decidir quem ganha e quem perde, mas todos v\u00e3o procurar ocupar o centro.<\/p>\n<p> <b>CC<\/b>: Num quadro pol\u00edtico como esse, de que forma deve se comportar a esquerda?<\/p>\n<p> <b>FO<\/b>: Deve-se ocupar a cena partid\u00e1ria porque ela faz parte das institui\u00e7\u00f5es do poder. Essa \u00e9 a raz\u00e3o principal. A esquerda deve insistir em diferenciar, quer dizer, tentar restaurar o dissenso como forma da pol\u00edtica, separando-se dessa ampla converg\u00eancia ao centro. Quais s\u00e3o as formas de se fazer isso? N\u00e3o sei. S\u00f3 a experi\u00eancia hist\u00f3rica \u00e9 capaz de criar novas formas. Mas \u00e9 preciso ocupar esse lugar &#8211; embora a pol\u00edtica tenha se tornado irrelevante enquanto lugar da disputa &#8211; pois as m\u00e1quinas partid\u00e1rias, agora \u00e0 servi\u00e7o do Estado, tocam na distribui\u00e7\u00e3o do excedente p\u00fablico e \u00e9 preciso fazer isso ser repartido. No fim das contas, ao contr\u00e1rio do otimismo r\u00f3seo que impera por a\u00ed, vivemos um momento muito negativo.<\/p>\n<p>Fuente: Correio Da Ciudadania<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta edi\u00e7\u00e3o, o Correio da Cidadania traz entrevista com o soci\u00f3logo da USP Francisco de Oliveira. Partindo das elei\u00e7\u00f5es realizadas dia 03 deste m\u00eas, ele explica como a converg\u00eancia ao centro dos principais partidos deixou o eleitor sem op\u00e7\u00e3o. Neste processo, a pol\u00edtica torna-se irrelevante, perante o triunfo do capital, e a democracia um sonho cada vez mais distante para os milh\u00f5es de brasileiros.   Correio da Cidadania: Quem saiu vitorioso nas elei\u00e7\u00f5es do dia 03?  Francisco de Oliveira: Quantitativamente, foi o PT. O PSDB apareceu em segundo, enquanto PMDB continua com a maioria das prefeituras no Brasil. S\u00f3 que do ponto de vista do espectro pol\u00edtico, venceu o centro.  CC: O que significa esse fortalecimento do centro?  FO: Contraditoriamente, significa a desimport\u00e2ncia da pol\u00edtica. Pol\u00edtica entendida como aquilo que \u00e9 diferen\u00e7a, dissenso, n\u00e3o consenso harmonioso. \u00c9 a pol\u00edtica que desaparece com a vit\u00f3ria do centro. O PMDB j\u00e1 era centro h\u00e1 tempos, o PT que era esquerda e o PSDB que, no seu in\u00edcio, era centro-esquerda dirigiram-se para o centro. Quem perde \u00e9 a pol\u00edtica. Veja os arranjos para o segundo turno em S\u00e3o Paulo (SP). Todos buscam os votos de Paulo Maluf (PP), que fazia diferen\u00e7a at\u00e9 o pleito de 2000. Eles buscam um voto que simboliza os setores sociais que Maluf representava &#8211; uma certa concep\u00e7\u00e3o de mundo, de horror ao que \u00e9 estranho, diferente; \u00e0 direita, mas uma direita extremada, que n\u00e3o teve chance de transformar-se em fascismo.  CC: Se quem perde \u00e9 a pol\u00edtica, quem ganha?  FO: \u00c9 o capital visto de uma forma bem abrangente: a preval\u00eancia dos interesses econ\u00f4micos sempre se colocaram de fora da pol\u00edtica. Essa \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o que foi se dando desde o in\u00edcio do capitalismo, o capital sempre esteve fora da pol\u00edtica. Agora, a pol\u00edtica atualiza est\u00e1 separa\u00e7\u00e3o, portanto, quem ganha \u00e9 o capital com o desaparecimento da pol\u00edtica.  CC: Isso quer dizer que a direita ganha?  FO: N\u00e3o propriamente a direita. Como disse Jos\u00e9 Dirceu, &#8220;a direita n\u00e3o existe mais&#8221;. Todos est\u00e3o no centro. \u00c9 apenas uma forma de localizar no espectro pol\u00edtico cl\u00e1ssico. Mas n\u00e3o \u00e9 uma direita atuando como classe. O capital passa por cima dessas determina\u00e7\u00f5es.  CC: Como est\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o do eleitor?  FO: Ele est\u00e1 sem escolha. Est\u00e1 frente a duas siglas, dois simulacros de representa\u00e7\u00e3o. Mas, de fato, ele n\u00e3o tem escolha. As diferen\u00e7as que v\u00e3o ser apontadas, por exemplo, na elei\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo (SP) s\u00e3o assim: &#8220;eu fiz os CEUs (Centros Educacionais Unificados, constru\u00eddos pela prefeita paulistana Marta Suplicy)&#8221;, ao que o outro candidato responde, &#8220;mas quem vai aperfei\u00e7o\u00e1-lo sou eu&#8221;. E ataca: &#8220;voc\u00ea n\u00e3o deu aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade (principal eixo da campanha do ex-ministro da Sa\u00fade Jos\u00e9 Serra)&#8221;. Ao que Marta retruca: &#8220;agora vou fazer o CEU sa\u00fade&#8221;. Quer dizer, n\u00e3o tem diferen\u00e7a alguma entre eles.  CC: Isso atrapalha o caminho do Brasil em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia?  FO: Compromete seriamente. Vejo cientistas pol\u00edticos, como F\u00e1bio Wanderley Reis, se regozijarem com a reitera\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es. Com essa converg\u00eancia para o centro, os partidos se tornam previs\u00edveis. Fico espantado. Perde-se a capacidade de escolha. A pol\u00edtica torna-se irrelevante. N\u00e3o participo desse otimismo que se satisfaz com as formas.  CC: Essa conjuntura aponta algo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s elei\u00e7\u00f5es de 2006? FO: Todos procurar\u00e3o ocupar o centro, as diferen\u00e7as de programa ser\u00e3o irrelevantes e a elei\u00e7\u00e3o passar\u00e1 a depender, como acontece nos EUA, do \u00eaxito da economia; se ela estiver bem, o Lula se reelege, se estiver mal, os tucanos podem voltar ao governo. Quer dizer, a elei\u00e7\u00e3o passa a depender da economia. 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No fim das contas, ao contr\u00e1rio do otimismo r\u00f3seo que impera por a\u00ed, vivemos um momento muito negativo.<\/p>\n<p>Fuente: Correio Da Ciudadania<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-217","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-la-izquierda-a-debate"],"aioseo_notices":[],"aioseo_head":"\n\t\t<!-- All in One SEO 4.9.9 - aioseo.com -->\n\t<meta name=\"description\" content=\"Nesta edi\u00e7\u00e3o, o Correio da Cidadania traz entrevista com o soci\u00f3logo da USP Francisco de Oliveira. Partindo das elei\u00e7\u00f5es realizadas dia 03 deste m\u00eas, ele explica como a converg\u00eancia ao centro dos principais partidos deixou o eleitor sem op\u00e7\u00e3o. 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Veja os arranjos para o segundo turno em S\u00e3o Paulo (SP). Todos buscam os votos de Paulo Maluf (PP), que fazia diferen\u00e7a at\u00e9 o pleito de 2000. Eles buscam um voto que simboliza os setores sociais que Maluf representava \u2013 uma certa concep\u00e7\u00e3o de mundo, de horror ao que \u00e9 estranho, diferente; \u00e0 direita, mas uma direita extremada, que n\u00e3o teve chance de transformar-se em fascismo. CC: Se quem perde \u00e9 a pol\u00edtica, quem ganha? FO: \u00c9 o capital visto de uma forma bem abrangente: a preval\u00eancia dos interesses econ\u00f4micos sempre se colocaram de fora da pol\u00edtica. Essa \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o que foi se dando desde o in\u00edcio do capitalismo, o capital sempre esteve fora da pol\u00edtica. Agora, a pol\u00edtica atualiza est\u00e1 separa\u00e7\u00e3o, portanto, quem ganha \u00e9 o capital com o desaparecimento da pol\u00edtica. CC: Isso quer dizer que a direita ganha? FO: N\u00e3o propriamente a direita. Como disse Jos\u00e9 Dirceu, \u201ca direita n\u00e3o existe mais\u201d. Todos est\u00e3o no centro. \u00c9 apenas uma forma de localizar no espectro pol\u00edtico cl\u00e1ssico. Mas n\u00e3o \u00e9 uma direita atuando como classe. O capital passa por cima dessas determina\u00e7\u00f5es. CC: Como est\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o do eleitor? FO: Ele est\u00e1 sem escolha. Est\u00e1 frente a duas siglas, dois simulacros de representa\u00e7\u00e3o. Mas, de fato, ele n\u00e3o tem escolha. As diferen\u00e7as que v\u00e3o ser apontadas, por exemplo, na elei\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo (SP) s\u00e3o assim: \u201ceu fiz os CEUs (Centros Educacionais Unificados, constru\u00eddos pela prefeita paulistana Marta Suplicy)\u201d, ao que o outro candidato responde, \u201cmas quem vai aperfei\u00e7o\u00e1-lo sou eu\u201d. E ataca: \u201cvoc\u00ea n\u00e3o deu aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade (principal eixo da campanha do ex-ministro da Sa\u00fade Jos\u00e9 Serra)\u201d. 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Quer dizer, a elei\u00e7\u00e3o passa a depender da economia. O marqueteiro de Bill Clinton (ex-presidente norte-americano) disse, antes da primeira elei\u00e7\u00e3o do democrata, ao seu cliente \u2013 preocupado com outros assuntos \u2013 para prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 economia - \u201c\u00e9 a economia, est\u00fapido, que decide a elei\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou. Vai passar a ser assim. Al\u00e9m, evidentemente, do poder das m\u00e1quinas estatais que estar\u00e3o nas m\u00e3os de cada partido. \u00c9 isso que vai decidir quem ganha e quem perde, mas todos v\u00e3o procurar ocupar o centro. CC: Num quadro pol\u00edtico como esse, de que forma deve se comportar a esquerda? FO: Deve-se ocupar a cena partid\u00e1ria porque ela faz parte das institui\u00e7\u00f5es do poder. Essa \u00e9 a raz\u00e3o principal. A esquerda deve insistir em diferenciar, quer dizer, tentar restaurar o dissenso como forma da pol\u00edtica, separando-se dessa ampla converg\u00eancia ao centro. 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O PMDB j\u00e1 era centro h\u00e1 tempos, o PT que era esquerda e o PSDB que, no seu in\u00edcio, era centro-esquerda dirigiram-se para o centro. Quem perde \u00e9 a pol\u00edtica. Veja os arranjos para o segundo turno em S\u00e3o Paulo (SP). Todos buscam os votos de Paulo Maluf (PP), que fazia diferen\u00e7a at\u00e9 o pleito de 2000. Eles buscam um voto que simboliza os setores sociais que Maluf representava \u2013 uma certa concep\u00e7\u00e3o de mundo, de horror ao que \u00e9 estranho, diferente; \u00e0 direita, mas uma direita extremada, que n\u00e3o teve chance de transformar-se em fascismo. CC: Se quem perde \u00e9 a pol\u00edtica, quem ganha? FO: \u00c9 o capital visto de uma forma bem abrangente: a preval\u00eancia dos interesses econ\u00f4micos sempre se colocaram de fora da pol\u00edtica. Essa \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o que foi se dando desde o in\u00edcio do capitalismo, o capital sempre esteve fora da pol\u00edtica. Agora, a pol\u00edtica atualiza est\u00e1 separa\u00e7\u00e3o, portanto, quem ganha \u00e9 o capital com o desaparecimento da pol\u00edtica. CC: Isso quer dizer que a direita ganha? FO: N\u00e3o propriamente a direita. Como disse Jos\u00e9 Dirceu, \u201ca direita n\u00e3o existe mais\u201d. Todos est\u00e3o no centro. \u00c9 apenas uma forma de localizar no espectro pol\u00edtico cl\u00e1ssico. Mas n\u00e3o \u00e9 uma direita atuando como classe. O capital passa por cima dessas determina\u00e7\u00f5es. CC: Como est\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o do eleitor? FO: Ele est\u00e1 sem escolha. Est\u00e1 frente a duas siglas, dois simulacros de representa\u00e7\u00e3o. Mas, de fato, ele n\u00e3o tem escolha. As diferen\u00e7as que v\u00e3o ser apontadas, por exemplo, na elei\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo (SP) s\u00e3o assim: \u201ceu fiz os CEUs (Centros Educacionais Unificados, constru\u00eddos pela prefeita paulistana Marta Suplicy)\u201d, ao que o outro candidato responde, \u201cmas quem vai aperfei\u00e7o\u00e1-lo sou eu\u201d. E ataca: \u201cvoc\u00ea n\u00e3o deu aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade (principal eixo da campanha do ex-ministro da Sa\u00fade Jos\u00e9 Serra)\u201d. Ao que Marta retruca: \u201cagora vou fazer o CEU sa\u00fade\u201d. Quer dizer, n\u00e3o tem diferen\u00e7a alguma entre eles. CC: Isso atrapalha o caminho do Brasil em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia? FO: Compromete seriamente. Vejo cientistas pol\u00edticos, como F\u00e1bio Wanderley Reis, se regozijarem com a reitera\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es. Com essa converg\u00eancia para o centro, os partidos se tornam previs\u00edveis. Fico espantado. Perde-se a capacidade de escolha. A pol\u00edtica torna-se irrelevante. N\u00e3o participo desse otimismo que se satisfaz com as formas. CC: Essa conjuntura aponta algo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s elei\u00e7\u00f5es de 2006? FO: Todos procurar\u00e3o ocupar o centro, as diferen\u00e7as de programa ser\u00e3o irrelevantes e a elei\u00e7\u00e3o passar\u00e1 a depender, como acontece nos EUA, do \u00eaxito da economia; se ela estiver bem, o Lula se reelege, se estiver mal, os tucanos podem voltar ao governo. Quer dizer, a elei\u00e7\u00e3o passa a depender da economia. O marqueteiro de Bill Clinton (ex-presidente norte-americano) disse, antes da primeira elei\u00e7\u00e3o do democrata, ao seu cliente \u2013 preocupado com outros assuntos \u2013 para prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 economia - \u201c\u00e9 a economia, est\u00fapido, que decide a elei\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou. Vai passar a ser assim. Al\u00e9m, evidentemente, do poder das m\u00e1quinas estatais que estar\u00e3o nas m\u00e3os de cada partido. \u00c9 isso que vai decidir quem ganha e quem perde, mas todos v\u00e3o procurar ocupar o centro. CC: Num quadro pol\u00edtico como esse, de que forma deve se comportar a esquerda? FO: Deve-se ocupar a cena partid\u00e1ria porque ela faz parte das institui\u00e7\u00f5es do poder. Essa \u00e9 a raz\u00e3o principal. A esquerda deve insistir em diferenciar, quer dizer, tentar restaurar o dissenso como forma da pol\u00edtica, separando-se dessa ampla converg\u00eancia ao centro. Quais s\u00e3o as formas de se fazer isso? N\u00e3o sei. S\u00f3 a experi\u00eancia hist\u00f3rica \u00e9 capaz de criar novas formas. Mas \u00e9 preciso ocupar esse lugar \u2013 embora a pol\u00edtica tenha se tornado irrelevante enquanto lugar da disputa \u2013 pois as m\u00e1quinas partid\u00e1rias, agora \u00e0 servi\u00e7o do Estado, tocam na distribui\u00e7\u00e3o do excedente p\u00fablico e \u00e9 preciso fazer isso ser repartido. 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A pol\u00edtica torna-se irrelevante. N\u00e3o participo desse otimismo que se satisfaz com as formas. CC: Essa conjuntura aponta algo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s elei\u00e7\u00f5es de 2006? FO: Todos procurar\u00e3o ocupar o centro, as diferen\u00e7as de programa ser\u00e3o irrelevantes e a elei\u00e7\u00e3o passar\u00e1 a depender, como acontece nos EUA, do \u00eaxito da economia; se ela estiver bem, o Lula se reelege, se estiver mal, os tucanos podem voltar ao governo. Quer dizer, a elei\u00e7\u00e3o passa a depender da economia. O marqueteiro de Bill Clinton (ex-presidente norte-americano) disse, antes da primeira elei\u00e7\u00e3o do democrata, ao seu cliente \u2013 preocupado com outros assuntos \u2013 para prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 economia - \u201c\u00e9 a economia, est\u00fapido, que decide a elei\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou. Vai passar a ser assim. 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Partindo das elei\u00e7\u00f5es realizadas dia 03 deste m\u00eas, ele explica como a converg\u00eancia ao centro dos principais partidos deixou o eleitor sem op\u00e7\u00e3o. Neste processo, a pol\u00edtica torna-se irrelevante, perante o triunfo do capital, e a democracia um sonho cada vez mais distante para os milh\u00f5es de brasileiros. Correio da Cidadania: Quem saiu vitorioso nas elei\u00e7\u00f5es do dia 03? Francisco de Oliveira: Quantitativamente, foi o PT. O PSDB apareceu em segundo, enquanto PMDB continua com a maioria das prefeituras no Brasil. S\u00f3 que do ponto de vista do espectro pol\u00edtico, venceu o centro. CC: O que significa esse fortalecimento do centro? FO: Contraditoriamente, significa a desimport\u00e2ncia da pol\u00edtica. Pol\u00edtica entendida como aquilo que \u00e9 diferen\u00e7a, dissenso, n\u00e3o consenso harmonioso. \u00c9 a pol\u00edtica que desaparece com a vit\u00f3ria do centro. O PMDB j\u00e1 era centro h\u00e1 tempos, o PT que era esquerda e o PSDB que, no seu in\u00edcio, era centro-esquerda dirigiram-se para o centro. Quem perde \u00e9 a pol\u00edtica. Veja os arranjos para o segundo turno em S\u00e3o Paulo (SP). Todos buscam os votos de Paulo Maluf (PP), que fazia diferen\u00e7a at\u00e9 o pleito de 2000. Eles buscam um voto que simboliza os setores sociais que Maluf representava \u2013 uma certa concep\u00e7\u00e3o de mundo, de horror ao que \u00e9 estranho, diferente; \u00e0 direita, mas uma direita extremada, que n\u00e3o teve chance de transformar-se em fascismo. CC: Se quem perde \u00e9 a pol\u00edtica, quem ganha? FO: \u00c9 o capital visto de uma forma bem abrangente: a preval\u00eancia dos interesses econ\u00f4micos sempre se colocaram de fora da pol\u00edtica. Essa \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o que foi se dando desde o in\u00edcio do capitalismo, o capital sempre esteve fora da pol\u00edtica. 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Partindo das elei\u00e7\u00f5es realizadas dia 03 deste m\u00eas, ele explica como a converg\u00eancia ao centro dos principais partidos deixou o eleitor sem op\u00e7\u00e3o. Neste processo, a pol\u00edtica torna-se irrelevante, perante o triunfo do capital, e a democracia um sonho cada vez mais distante para os milh\u00f5es de brasileiros. Correio da Cidadania: Quem saiu vitorioso nas elei\u00e7\u00f5es do dia 03? Francisco de Oliveira: Quantitativamente, foi o PT. O PSDB apareceu em segundo, enquanto PMDB continua com a maioria das prefeituras no Brasil. S\u00f3 que do ponto de vista do espectro pol\u00edtico, venceu o centro. CC: O que significa esse fortalecimento do centro? FO: Contraditoriamente, significa a desimport\u00e2ncia da pol\u00edtica. Pol\u00edtica entendida como aquilo que \u00e9 diferen\u00e7a, dissenso, n\u00e3o consenso harmonioso. \u00c9 a pol\u00edtica que desaparece com a vit\u00f3ria do centro. O PMDB j\u00e1 era centro h\u00e1 tempos, o PT que era esquerda e o PSDB que, no seu in\u00edcio, era centro-esquerda dirigiram-se para o centro. Quem perde \u00e9 a pol\u00edtica. Veja os arranjos para o segundo turno em S\u00e3o Paulo (SP). Todos buscam os votos de Paulo Maluf (PP), que fazia diferen\u00e7a at\u00e9 o pleito de 2000. Eles buscam um voto que simboliza os setores sociais que Maluf representava \u2013 uma certa concep\u00e7\u00e3o de mundo, de horror ao que \u00e9 estranho, diferente; \u00e0 direita, mas uma direita extremada, que n\u00e3o teve chance de transformar-se em fascismo. CC: Se quem perde \u00e9 a pol\u00edtica, quem ganha? FO: \u00c9 o capital visto de uma forma bem abrangente: a preval\u00eancia dos interesses econ\u00f4micos sempre se colocaram de fora da pol\u00edtica. Essa \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o que foi se dando desde o in\u00edcio do capitalismo, o capital sempre esteve fora da pol\u00edtica. Agora, a pol\u00edtica atualiza est\u00e1 separa\u00e7\u00e3o, portanto, quem ganha \u00e9 o capital com o desaparecimento da pol\u00edtica. CC: Isso quer dizer que a direita ganha? FO: N\u00e3o propriamente a direita. Como disse Jos\u00e9 Dirceu, \u201ca direita n\u00e3o existe mais\u201d. Todos est\u00e3o no centro. \u00c9 apenas uma forma de localizar no espectro pol\u00edtico cl\u00e1ssico. Mas n\u00e3o \u00e9 uma direita atuando como classe. O capital passa por cima dessas determina\u00e7\u00f5es. CC: Como est\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o do eleitor? FO: Ele est\u00e1 sem escolha. Est\u00e1 frente a duas siglas, dois simulacros de representa\u00e7\u00e3o. Mas, de fato, ele n\u00e3o tem escolha. 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A pol\u00edtica torna-se irrelevante. N\u00e3o participo desse otimismo que se satisfaz com as formas. CC: Essa conjuntura aponta algo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s elei\u00e7\u00f5es de 2006? FO: Todos procurar\u00e3o ocupar o centro, as diferen\u00e7as de programa ser\u00e3o irrelevantes e a elei\u00e7\u00e3o passar\u00e1 a depender, como acontece nos EUA, do \u00eaxito da economia; se ela estiver bem, o Lula se reelege, se estiver mal, os tucanos podem voltar ao governo. Quer dizer, a elei\u00e7\u00e3o passa a depender da economia. O marqueteiro de Bill Clinton (ex-presidente norte-americano) disse, antes da primeira elei\u00e7\u00e3o do democrata, ao seu cliente \u2013 preocupado com outros assuntos \u2013 para prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 economia - \u201c\u00e9 a economia, est\u00fapido, que decide a elei\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou. Vai passar a ser assim. Al\u00e9m, evidentemente, do poder das m\u00e1quinas estatais que estar\u00e3o nas m\u00e3os de cada partido. \u00c9 isso que vai decidir quem ganha e quem perde, mas todos v\u00e3o procurar ocupar o centro. CC: Num quadro pol\u00edtico como esse, de que forma deve se comportar a esquerda? FO: Deve-se ocupar a cena partid\u00e1ria porque ela faz parte das institui\u00e7\u00f5es do poder. Essa \u00e9 a raz\u00e3o principal. A esquerda deve insistir em diferenciar, quer dizer, tentar restaurar o dissenso como forma da pol\u00edtica, separando-se dessa ampla converg\u00eancia ao centro. Quais s\u00e3o as formas de se fazer isso? N\u00e3o sei. S\u00f3 a experi\u00eancia hist\u00f3rica \u00e9 capaz de criar novas formas. Mas \u00e9 preciso ocupar esse lugar \u2013 embora a pol\u00edtica tenha se tornado irrelevante enquanto lugar da disputa \u2013 pois as m\u00e1quinas partid\u00e1rias, agora \u00e0 servi\u00e7o do Estado, tocam na distribui\u00e7\u00e3o do excedente p\u00fablico e \u00e9 preciso fazer isso ser repartido. 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A pol\u00edtica torna-se irrelevante. N\u00e3o participo desse otimismo que se satisfaz com as formas. CC: Essa conjuntura aponta algo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s elei\u00e7\u00f5es de 2006? FO: Todos procurar\u00e3o ocupar o centro, as diferen\u00e7as de programa ser\u00e3o irrelevantes e a elei\u00e7\u00e3o passar\u00e1 a depender, como acontece nos EUA, do \u00eaxito da economia; se ela estiver bem, o Lula se reelege, se estiver mal, os tucanos podem voltar ao governo. Quer dizer, a elei\u00e7\u00e3o passa a depender da economia. O marqueteiro de Bill Clinton (ex-presidente norte-americano) disse, antes da primeira elei\u00e7\u00e3o do democrata, ao seu cliente \u2013 preocupado com outros assuntos \u2013 para prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 economia - \u201c\u00e9 a economia, est\u00fapido, que decide a elei\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou. Vai passar a ser assim. Al\u00e9m, evidentemente, do poder das m\u00e1quinas estatais que estar\u00e3o nas m\u00e3os de cada partido. \u00c9 isso que vai decidir quem ganha e quem perde, mas todos v\u00e3o procurar ocupar o centro. CC: Num quadro pol\u00edtico como esse, de que forma deve se comportar a esquerda? FO: Deve-se ocupar a cena partid\u00e1ria porque ela faz parte das institui\u00e7\u00f5es do poder. Essa \u00e9 a raz\u00e3o principal. A esquerda deve insistir em diferenciar, quer dizer, tentar restaurar o dissenso como forma da pol\u00edtica, separando-se dessa ampla converg\u00eancia ao centro. Quais s\u00e3o as formas de se fazer isso? N\u00e3o sei. S\u00f3 a experi\u00eancia hist\u00f3rica \u00e9 capaz de criar novas formas. Mas \u00e9 preciso ocupar esse lugar \u2013 embora a pol\u00edtica tenha se tornado irrelevante enquanto lugar da disputa \u2013 pois as m\u00e1quinas partid\u00e1rias, agora \u00e0 servi\u00e7o do Estado, tocam na distribui\u00e7\u00e3o do excedente p\u00fablico e \u00e9 preciso fazer isso ser repartido. 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