{"id":221,"date":"2006-04-02T00:00:00","date_gmt":"2006-04-02T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espai-marx.net\/?p=221"},"modified":"2020-02-29T12:26:10","modified_gmt":"2020-02-29T11:26:10","slug":"o-novo-eixo-da-luta-de-classes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espai-marx.net\/?p=221","title":{"rendered":"O novo eixo da luta de classes"},"content":{"rendered":"<p><b>SITUA\u00c7\u00c3O DOS FAVELADOS NO TERCEIRO MUNDO CORRESPONDE EM BOA PARTE \u00c0 DEFINI\u00c7\u00c3O DO SUJEITO REVOLUCION\u00c1RIO ANTEVISTA POR KARL MARX<\/b><\/p>\n<p>O destino de um velho revolucion\u00e1rio comunista esloveno pode ser exposto como met\u00e1fora perfeita das voltas e reviravoltas descritas pelo stalinismo. Em 1943, quando a It\u00e1lia capitulou, ele comandou uma rebeli\u00e3o de prisioneiros iugoslavos em um campo de concentra\u00e7\u00e3o em Rab, uma ilha do mar Adri\u00e1tico: sob sua lideran\u00e7a, 200 prisioneiros semimortos de fome desarmaram 2.200 soldados italianos, sem nenhuma ajuda externa. Ap\u00f3s a guerra ele foi preso e encarcerado numa \u00abgoli otok\u00bb (\u00abilha nua\u00bb) da regi\u00e3o -um conhecido campo de concentra\u00e7\u00e3o comunista. Em 1953, ainda nesse campo, ele foi mobilizado, com outros detentos, para erguer um monumento para comemorar o d\u00e9cimo anivers\u00e1rio da rebeli\u00e3o de 1943 em Rab. Ou seja, enquanto era prisioneiro dos comunistas, foi obrigado a erguer um monumento a ele pr\u00f3prio, \u00e0 rebeli\u00e3o liderada por ele&#8230; Se a injusti\u00e7a (\u00e9 mais adequado falar dela que da justi\u00e7a) po\u00e9tica significou alguma coisa, foi o seguinte: n\u00e3o teria o destino desse revolucion\u00e1rio sido aquele da popula\u00e7\u00e3o inteira sob a ditadura stalinista, dos milh\u00f5es de pessoas que, primeiro, promovem a derrubada hist\u00f3rica do \u00abancien r\u00e9gime\u00bb, na revolu\u00e7\u00e3o, e, depois, escravizados pelas novas regras, s\u00e3o obrigados a erguer monumentos em homenagem a seu pr\u00f3prio passado revolucion\u00e1rio? Acho que [o historiador brit\u00e2nico] Timothy Garton Ash teria apreciado esse acidente tragic\u00f4mico -ele se aproxima do esp\u00edrito de ironia eticamente engajada que permeia os melhores momentos de sua obra. Embora Ash seja, formalmente, meu advers\u00e1rio pol\u00edtico, sempre o considerei digno de ser lido, sempre o apreciei por sua abund\u00e2ncia de observa\u00e7\u00f5es precisas e como fonte confi\u00e1vel de informa\u00e7\u00f5es sobre as vicissitudes da desintegra\u00e7\u00e3o do comunismo no Leste Europeu. Em \u00abThe Free World &#8211; America, Europe and the Surprising Future of the West\u00bb [O Mundo Livre &#8211; Am\u00e9rica, Europa e o Surpreendente Futuro do Ocidente, Allen Lane, 256 p\u00e1gs., 17,99 libras], seu novo livro, Ash aplicou a mesma abordagem l\u00facida e amargamente espirituosa ao quebra-cabe\u00e7as das tens\u00f5es recentes entre os pa\u00edses-chave da Europa Ocidental, por um lado, e os EUA, do outro. Suas observa\u00e7\u00f5es sobre as rela\u00e7\u00f5es entre Reino Unido, Fran\u00e7a e Alemanha em v\u00e1rios momentos recordam a ironia gentil do romance de costumes, conferindo um novo significado ao tema antigo da chamada \u00abtrindade europ\u00e9ia\u00bb. Em uma cena famosa de \u00abO Fantasma da Liberdade\u00bb, de Bu\u00f1uel, as rela\u00e7\u00f5es entre o comer e o defecar s\u00e3o invertidas: as pessoas ficam sentadas sobre privadas em volta da mesa, conversando agradavelmente e, quando sentem vontade de comer, perguntam discretamente \u00e0 criada \u00abonde \u00e9 aquele lugar, sabe?\u00bb e saem para um pequeno c\u00f4modo nos fundos da casa, sem se deixarem notar. Ent\u00e3o, como complemento a L\u00e9vi-Strauss, nos sentimos tentados a sugerir que as fezes tamb\u00e9m podem funcionar como \u00abmati\u00e8re \u00e0 penser\u00bb [mat\u00e9ria a pensar]: afinal, os tr\u00eas tipos b\u00e1sicos de privada n\u00e3o formam uma esp\u00e9cie de correla\u00e7\u00e3o\/contraponto ao tri\u00e2ngulo culin\u00e1rio levi-straussiano?<\/p>\n<p>Chafurdando em ideologia<\/p>\n<p>Numa privada alem\u00e3 tradicional, o buraco no qual as fezes desaparecem depois de darmos a descarga fica \u00e0 frente, de modo que primeiro o coc\u00f4 fica exposto \u00e0 nossa frente, para cheirarmos e inspecionarmos para verificar poss\u00edveis sinais de doen\u00e7a. Na privada francesa t\u00edpica, pelo contr\u00e1rio, o buraco fica atr\u00e1s, ou seja, a id\u00e9ia \u00e9 que o coc\u00f4 desapare\u00e7a o quanto antes. E a privada americana (anglo-sax\u00e3), finalmente, apresenta uma esp\u00e9cie de s\u00edntese, uma media\u00e7\u00e3o entre esses dois p\u00f3los opostos -a bacia da privada fica cheia de \u00e1gua, de modo que as fezes flutuam sobre ela, vis\u00edveis, mas n\u00e3o para serem inspecionadas. N\u00e3o surpreende que, na famosa discuss\u00e3o sobre diferentes tipos de privadas europ\u00e9ias presente no come\u00e7o de seu livro semi-esquecido, \u00abMedo de Voar\u00bb, Erica Jong afirme, em tom zombeteiro, que \u00abas privadas alem\u00e3s s\u00e3o realmente a chave dos horrores do Terceiro Reich. Pessoas capazes de construir privadas como essas s\u00e3o capazes de qualquer coisa\u00bb. Fica claro que nenhuma dessas vers\u00f5es pode ser explicada em termos puramente utilit\u00e1rios: \u00e9 claramente discern\u00edvel uma certa percep\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica sobre como o sujeito deve relacionar-se com o excremento desagrad\u00e1vel que sai de dentro de seu corpo. Hegel foi um dos primeiros a interpretar a tr\u00edade geogr\u00e1fica da Alemanha\/Fran\u00e7a\/Inglaterra como express\u00e3o de tr\u00eas atitudes existenciais distintas: a profundidade e meticulosidade reflexiva alem\u00e3, a pressa revolucion\u00e1ria francesa, o pragmatismo utilit\u00e1rio moderado ingl\u00eas. Em termos de postura pol\u00edtica, essa tr\u00edade pode ser lida como conservadorismo alem\u00e3o, radicalismo revolucion\u00e1rio franc\u00eas e liberalismo moderado ingl\u00eas e, em termos do predom\u00ednio de uma das esferas da vida social, \u00e9 a metaf\u00edsica e poesia alem\u00e3s contra a pol\u00edtica francesa e a economia inglesa. A refer\u00eancia a privadas permite n\u00e3o s\u00f3 discernir a mesma tr\u00edade em a\u00e7\u00e3o no campo mais \u00edntimo da realiza\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o excrement\u00edcia mas tamb\u00e9m visualizar o mecanismo subjacente dessa tr\u00edade nas tr\u00eas atitudes diferentes em rela\u00e7\u00e3o ao excesso excrement\u00edcio: fasc\u00ednio contemplativo amb\u00edguo, a tentativa apressada de livrar-se do excesso desagrad\u00e1vel o mais rapidamente poss\u00edvel e a abordagem pragm\u00e1tica de tratar o excesso como objeto comum ao qual deve ser dado um fim de maneira apropriada. Assim, \u00e9 f\u00e1cil para um acad\u00eamico em uma mesa-redonda afirmar que vivemos num universo p\u00f3s-ideol\u00f3gico -assim que ele vai ao banheiro ap\u00f3s a discuss\u00e3o acalorada, volta a ver-se chafurdando em ideologia.<\/p>\n<p>Neste momento n\u00e3o devemos ter medo de formular a pergunta ing\u00eanua: por que n\u00e3o os EUA como pol\u00edcia global?<\/p>\n<p>As observa\u00e7\u00f5es de Ash parecem indicar como, hoje, essa trindade est\u00e1 passando por um deslocamento estranho de termos com rela\u00e7\u00e3o a suas posi\u00e7\u00f5es: os franceses parecem estar preocupados com a cultura (como salvar seu legado cultural da vulgar americaniza\u00e7\u00e3o global), os ingleses est\u00e3o concentrados em dilemas pol\u00edticos (devem ou n\u00e3o ingressar na Europa politicamente unificada etc.) e os alem\u00e3es -os alem\u00e3es andam preocupados com a triste in\u00e9rcia de sua economia. At\u00e9 aqui, tudo bem, ent\u00e3o. Entretanto, quando, na segunda metade do livro, Ash passa a fazer um diagn\u00f3stico geral das amea\u00e7as \u00e0 liberdade ap\u00f3s o fim da Guerra Fria, o tom geral se torna dogm\u00e1tico e simplista, e as solu\u00e7\u00f5es propostas soam impossivelmente ing\u00eanuas e declarat\u00f3rias. \u00c9 verdade que, aqui ou ali, lemos insights e declara\u00e7\u00f5es surpreendentes, em se tratando de um autor da posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Ash (como, por exemplo, o ataque inequ\u00edvoco \u00e0s pr\u00e1ticas comerciais injustas dos pa\u00edses desenvolvidos, que est\u00e3o impelindo os pa\u00edses pobres \u00e0 ru\u00edna). Apesar disso, fica claro que falta a suas propostas positivas uma fundamenta\u00e7\u00e3o s\u00f3lida numa an\u00e1lise detalhada da situa\u00e7\u00e3o mundial. Para come\u00e7ar, ele identifica quatro \u00abnovos Ex\u00e9rcitos Vermelhos\u00bb (sic!), as for\u00e7as do mal (ou os processos hist\u00f3ricos) que representam (ou v\u00e3o representar) uma amea\u00e7a \u00e0 democracia e \u00e0 liberdade nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas: a situa\u00e7\u00e3o no Oriente M\u00e9dio (o conflito israelo-palestino sem solu\u00e7\u00e3o e a ascens\u00e3o do fundamentalismo isl\u00e2mico), a situa\u00e7\u00e3o no Extremo Oriente (em que a China vai se transformar, no que diz respeito \u00e0 democracia?), a disparidade entre o Norte rico e o Sul pobre e o impasse ecol\u00f3gico global. J\u00e1 aqui n\u00e3o podemos deixar de notar como os quatro pontos de preocupa\u00e7\u00e3o s\u00e3o enumerados com simplicidade: Ash simplesmente faz uma lista de quatro \u00e1reas que causam preocupa\u00e7\u00e3o. Conseq\u00fcentemente, as solu\u00e7\u00f5es que ele prop\u00f5e se l\u00eaem mais como uma lista de desejos (os pa\u00edses desenvolvidos devem respeitar as regras da concorr\u00eancia de mercado que querem impor aos pa\u00edses subdesenvolvidos; eles devem fazer mais um esfor\u00e7o concentrado e s\u00e9rio para evitar poss\u00edveis cat\u00e1strofes ecol\u00f3gicas; a crise do Oriente M\u00e9dio s\u00f3 pode ser resolvida por meio do esfor\u00e7o conjunto dos jogadores-chave, nos EUA e na Europa&#8230;) do que como um plano de a\u00e7\u00e3o baseado numa an\u00e1lise s\u00e9ria da constela\u00e7\u00e3o global.<\/p>\n<p>Anticl\u00edmax<\/p>\n<p>Assim, a conclus\u00e3o do livro forma um anticl\u00edmax e n\u00e3o satisfaz as expectativas do projeto declaradas no subt\u00edtulo do livro, ou seja, mostrar como o mundo p\u00f3s-Guerra Fria, apesar de gerar problemas novos e pr\u00f3prios, tamb\u00e9m abre uma oportunidade \u00fanica de fazer frente a esses problemas. A percep\u00e7\u00e3o que eu tenho das causas dessa defici\u00eancia \u00e9 totalmente \u00absuperada\u00bb, tingida de marxismo: para mim, est\u00e1 claro que os quatro pontos problem\u00e1ticos citados por Ash t\u00eam suas ra\u00edzes na din\u00e2mica geral do capitalismo de hoje. Essa liga\u00e7\u00e3o fica auto-evidente no caso dos problemas ecol\u00f3gicos e da disparidade econ\u00f4mica entre o Norte e o Sul. A ascens\u00e3o do fundamentalismo isl\u00e2mico n\u00e3o \u00e9 condicionada pela recusa da civiliza\u00e7\u00e3o mu\u00e7ulmana em integrar a din\u00e2mica social do capitalismo? A din\u00e2mica econ\u00f4mica estranha da China n\u00e3o tem suas ra\u00edzes no fato de ela ser um Estado comunista que aderiu plenamente \u00e0 economia capitalista? Assim, a quest\u00e3o deveria ser formulada em um n\u00edvel mais generalizado: em que p\u00e9 estamos com rela\u00e7\u00e3o ao capitalismo global? Esses pontos problem\u00e1ticos s\u00e3o sintomas de uma falha estrutural inscrita no pr\u00f3prio cerne da m\u00e1quina capitalista ou s\u00e3o meros acidentes que poderiam ser mantidos sob controle, quando n\u00e3o resolvidos? Isso n\u00e3o significa que devamos pura e simplesmente rejeitar o diagn\u00f3stico e as propostas de Ash por meio de uma r\u00e9plica marxista impolida, dizendo que \u00abele n\u00e3o leva em conta a totalidade dial\u00e9tica da situa\u00e7\u00e3o\u00bb. Existem pontos nos quais o sofrimento humano, em sua singularidade, alcan\u00e7a um n\u00edvel no qual a refer\u00eancia f\u00e1cil a uma totalidade maior vira cinismo. Dentro desse esp\u00edrito, o \u00fanico argumento v\u00e1lido a favor da Guerra do Iraque foi evocado repetidas vezes por Christopher Hitchens: n\u00e3o devemos nos esquecer de que a maioria dos iraquianos \u00e9, concretamente, v\u00edtima de Saddam e ficaria realmente feliz e aliviada em ver-se livre dele. Saddam foi uma cat\u00e1strofe t\u00e3o grande para seu pa\u00eds que uma ocupa\u00e7\u00e3o americana, fosse qual fosse a forma que assumisse, poderia parecer \u00e0 popula\u00e7\u00e3o iraquiana uma perspectiva muito mais animadora, no que dizia respeito \u00e0 sua sobreviv\u00eancia di\u00e1ria e seus n\u00edveis de medo. N\u00e3o estamos falando aqui em \u00ablevar a democracia ocidental ao Iraque\u00bb, mas apenas em nos livrar do pesadelo chamado Saddam. Para essa maioria da popula\u00e7\u00e3o, a cautela expressa por liberais ocidentais s\u00f3 pode se configurar como uma hipocrisia profunda -ser\u00e1 que esses liberais realmente se preocupam com o sentimento da popula\u00e7\u00e3o do Iraque? Podemos apresentar aqui um argumento ainda mais geral: o que dizer dos esquerdistas ocidentais pr\u00f3-Fidel Castro, que desprezam aqueles que os pr\u00f3prios cubanos designam como \u00abgusanos\u00bb (vermes), ou seja, os cubanos que deixaram o pa\u00eds? Entretanto, mesmo com toda a simpatia do mundo pela Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, que direito tem um t\u00edpico esquerdista ocidental de classe m\u00e9dia de desprezar um cubano que decidiu deixar Cuba n\u00e3o por desencanto pol\u00edtico, mas tamb\u00e9m em raz\u00e3o da pobreza (t\u00e3o grande que envolve a fome concreta)? Nesse mesmo veio, eu mesmo me recordo -no in\u00edcio dos anos 1990- de dezenas de esquerdistas ocidentais que, orgulhosamente, me atiraram na cara o fato de que, para eles, a Iugosl\u00e1via ainda existia e me criticaram por ter tra\u00eddo a oportunidade \u00fanica de manter a Iugosl\u00e1via -acusa\u00e7\u00e3o \u00e0 qual eu sempre respondia que ainda n\u00e3o estava disposto a viver minha vida de maneira a n\u00e3o desiludir esquerdistas ocidentais. Existem poucas coisas mais dignas de desprezo, poucas atitudes mais \u00abideol\u00f3gicas\u00bb (se esse termo possui algum significado hoje, deve ser aplicado aqui), do que um catedr\u00e1tico esquerdista ocidental desprezando com arrog\u00e2ncia (ou, ainda pior, \u00abcompreendendo\u00bb de maneira paternalista) um europeu oriental de um pa\u00eds comunista que anseia pela democracia liberal ocidental e por alguns bens de consumo.<\/p>\n<p>Press\u00e3o bilateral<\/p>\n<p>Neste momento n\u00e3o devemos ter medo nem mesmo de formular a pergunta ing\u00eanua: por que n\u00e3o os EUA como pol\u00edcia global? A situa\u00e7\u00e3o do p\u00f3s-Guerra Fria de fato exigia alguma pot\u00eancia global para preencher o vazio. O problema \u00e9 outro: basta recordar a percep\u00e7\u00e3o comum que se tem dos EUA como o \u00abnovo Imp\u00e9rio Romano\u00bb. O problema dos EUA de hoje n\u00e3o \u00e9 que ele seja um novo imp\u00e9rio global, mas que n\u00e3o o seja, isto \u00e9, embora fa\u00e7a de conta que o \u00e9, o pa\u00eds continua a agir como na\u00e7\u00e3o-Estado, defendendo implacavelmente seus interesses pr\u00f3prios. \u00c9 como se a diretriz da pol\u00edtica norte-americana recente fosse uma invers\u00e3o esdr\u00faxula do slogan muito conhecido dos ecologistas: \u00abPense globalmente, aja localmente\u00bb. Essa contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 mais bem exemplificada pela press\u00e3o bilateral que os EUA exerceram sobre a S\u00e9rvia em 2003: ao mesmo tempo, os representantes americanos exigiam do governo s\u00e9rvio que entregasse suspeitos criminosos de guerra ao tribunal de Haia (seguindo a l\u00f3gica do imp\u00e9rio global, que exige uma institui\u00e7\u00e3o judici\u00e1ria global, transnacional) e, simultaneamente, que ele assinasse com os EUA o tratado bilateral que obrigaria a S\u00e9rvia a n\u00e3o entregar pessoas a nenhuma institui\u00e7\u00e3o internacional (ou seja, ao mesmo tribunal de Haia). N\u00e3o surpreende que a rea\u00e7\u00e3o s\u00e9rvia fosse de f\u00faria perplexa. O paradoxo not\u00e1vel contido nessa quest\u00e3o \u00e9 que, com isso, os EUA rejeitaram a jurisdi\u00e7\u00e3o de um tribunal que foi constitu\u00eddo com o apoio pleno (e o voto) dos pr\u00f3prios EUA! Assim, quando, falando do tribunal de Haia, Ash (em um ensaio publicado em alem\u00e3o no \u00abSueddeutsche Zeitung\u00bb) fez a afirma\u00e7\u00e3o pat\u00e9tica de que \u00abde hoje em diante nenhum Fuhrer ou Duce, nenhum Pinochet, Idi Amin ou Pol Pot deve poder sentir-se a salvo da interven\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a popular, protegido pelos port\u00f5es do pal\u00e1cio da soberania nacional\u00bb, devemos simplesmente tomar nota daquilo que est\u00e1 faltando nesta lista de nomes, que, fora a dupla padr\u00e3o formada por Hitler e Mussolini, cont\u00e9m tr\u00eas ditadores do Terceiro Mundo.<br \/>\nOnde est\u00e1 pelo menos um nome dos sete grandes -algu\u00e9m como Kissinger, por exemplo?<\/p>\n<p>A tortura tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 sendo \u00abterceirizada\u00bb, deixada a cargo de aliados terceiro-mundistas dos EUA?<\/p>\n<p>Como Ash bem sabe, a mesma l\u00f3gica da exce\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se aplica \u00e0s rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas: em Cancun, em setembro de 2003, os EUA insistiram na manuten\u00e7\u00e3o dos subs\u00eddios aos plantadores de algod\u00e3o, com isso violando seu pr\u00f3prio conselho sacrossanto aos pa\u00edses do Terceiro Mundo, aos quais diz que devem suspender os subs\u00eddios estatais e abrir-se ao mercado. E ser\u00e1 que o mesmo n\u00e3o se aplica at\u00e9 mesmo \u00e0 tortura? A estrat\u00e9gia econ\u00f4mica exemplar do capitalismo atual \u00e9 a terceiriza\u00e7\u00e3o -ou seja, repassar o processo \u00absujo\u00bb de produ\u00e7\u00e3o material (mas tamb\u00e9m a publicidade, o design, a contabilidade etc.) a outras empresas, por meio de subcontratos.<br \/>\nDessa maneira \u00e9 f\u00e1cil fugir das regras ecol\u00f3gicas e de sa\u00fade: a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 feita, por exemplo, na Indon\u00e9sia, onde os regulamentos ambientais e de sa\u00fade s\u00e3o muito menos r\u00edgidos do que no Ocidente, e a empresa global ocidental que \u00e9 dona do logotipo pode isentar-se de responsabilidade pelas viola\u00e7\u00f5es de outra empresa.<br \/>\nN\u00e3o est\u00e1 ocorrendo algo hom\u00f3logo a isso com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tortura? A tortura tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 sendo \u00abterceirizada\u00bb, deixada a cargo de aliados terceiro-mundistas dos EUA, que podem realiz\u00e1-la sem preocupar-se com problemas legais ou protestos p\u00fablicos? E tal terceiriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi proposta explicitamente pelo jornalista Jonathan Alter na \u00abNewsweek\u00bb [em 5\/11\/2001], imediatamente ap\u00f3s o 11 de Setembro? Depois de afirmar que \u00abn\u00e3o podemos legalizar a tortura -ela \u00e9 contr\u00e1ria aos valores americanos\u00bb, ele concluiu que \u00abteremos que pensar em transferir alguns suspeitos a nossos aliados menos escrupulosos, mesmo que isso seja uma hipocrisia. Ningu\u00e9m falou que isso seria um processo limpinho\u00bb. \u00c9 desse modo que, hoje, a democracia do Primeiro Mundo funciona cada vez mais por meio da \u00abterceiriza\u00e7\u00e3o\u00bb para outros pa\u00edses de seu lado oculto e sujo.<br \/>\nEssa inconsist\u00eancia tem ra\u00edzes geopol\u00edticas profundas. Pa\u00edses como a Ar\u00e1bia Saudita e o Kuait s\u00e3o monarquias conservadoras, mas, em termos econ\u00f4micos, aliados dos EUA plenamente integrados ao capitalismo ocidental. Aqui os EUA t\u00eam um interesse muito preciso e simples: para que possa contar com as reservas petrol\u00edferas desses pa\u00edses, \u00e9 preciso que eles permane\u00e7am n\u00e3o democr\u00e1ticos. Ou seja, \u00e9 seguro apostar que, se houvesse elei\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas na Ar\u00e1bia Saudita ou no Iraque, elas conduziriam ao poder um regime nacionalista pr\u00f3-isl\u00e2mico que se elegeria com base em atitudes anti-americanas.<\/p>\n<p>As favelas s\u00e3o o verdadeiro sintoma de slogans como \u00abdesenvolvimen to\u00bb, \u00abmoderniza\u00e7\u00e3o\u00bb e \u00abmercado mundial\u00bb<\/p>\n<p>Existe aqui uma ironia hist\u00f3rica de cujo peso Ash, a meu ver, n\u00e3o se deu conta. Na d\u00e9cada de 1980, Jeanne Kirkpatrick [que foi embaixadora dos EUA na ONU] elaborou a (ent\u00e3o) not\u00f3ria distin\u00e7\u00e3o entre regimes \u00abautorit\u00e1rios\u00bb e \u00abtotalit\u00e1rios\u00bb, que foi usada para justificar a pol\u00edtica americana de colaborar com ditadores de direita e, ao mesmo tempo, tratar regimes comunistas com muito mais dureza. Segundo a distin\u00e7\u00e3o feita, os ditadores autorit\u00e1rios s\u00e3o governantes pragm\u00e1ticos que se preocupam com seu poder e riqueza e v\u00eaem quest\u00f5es ideol\u00f3gicas com indiferen\u00e7a, mesmo que, superficialmente, afirmem alinhar-se a alguma causa importante. Contrastando com eles, os l\u00edderes totalit\u00e1rios seriam fan\u00e1ticos que cr\u00eaem em sua ideologia e se disp\u00f5em a arriscar tudo por seus ideais.<br \/>\nAssim, enquanto \u00e9 poss\u00edvel lidar com governantes autorit\u00e1rios que reagem de maneira racional e previs\u00edvel a amea\u00e7as materiais e militares, os l\u00edderes totalit\u00e1rios s\u00e3o muito mais perigosos e precisam ser confrontados de maneira direta. A ironia \u00e9 que essa distin\u00e7\u00e3o cobre \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o o que deu errado na ocupa\u00e7\u00e3o americana do Iraque: Saddam Hussein era um ditador autorit\u00e1rio corrupto que buscava poder e era guiado por considera\u00e7\u00f5es pragm\u00e1ticas brutais (que o levaram a colaborar com os Estados Unidos na d\u00e9cada de 1980), e a principal conseq\u00fc\u00eancia da interven\u00e7\u00e3o americana vem sendo a de gerar uma oposi\u00e7\u00e3o \u00abfundamentalista\u00bb, muito mais radical, que exclui de antem\u00e3o a possibilidade de qualquer acordo pragm\u00e1tico. De maneira geral, a limita\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise feita por Ash consiste em sua incapacidade de ver como os elementos que ele condena (o desprezo irredut\u00edvel pelo ambiente, a hipocrisia dos dois pesos e duas medidas impostos pelas superpot\u00eancias ao mercado mundial etc.) s\u00e3o produtos da pr\u00f3pria din\u00e2mica social que sustenta seu papel de exportadores da democracia e guardi\u00e3es dos direitos humanos universais. \u00c9 verdade que, com frequ\u00eancia, n\u00e3o podemos deixar de nos chocar com a excessiva indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao sofrimento, mesmo -e especialmente- quando esse sofrimento \u00e9 amplamente noticiado pela m\u00eddia e condenado -como se fosse o pr\u00f3prio ultraje diante do sofrimento que nos transformasse em espectadores imobilizados e fascinados. De maneira mais geral, devemos enxergar como problem\u00e1tica a pol\u00edtica humanit\u00e1ria muito despolitizada dos \u00abdireitos humanos\u00bb, como ideologia do intervencionismo militar que promove objetivos econ\u00f4mico-pol\u00edticos espec\u00edficos. \u00c9 claro que esse humanitarismo se apresenta como pura defesa dos inocentes e fracos contra o poder, como defesa pr\u00e9-pol\u00edtica do indiv\u00edduo contra os imensos e desp\u00f3ticos aparatos da cultura, do Estado, da guerra, dos conflitos \u00e9tnicos, do tribalismo e do patriarcado. Mas, como observou h\u00e1 pouco [a escritora] Wendy Brown, a quest\u00e3o \u00e9 a seguinte: \u00abQue tipo de politiza\u00e7\u00e3o acionam aqueles que interv\u00eam em defesa dos direitos humanos e contra os poderes aos quais se op\u00f5em? Ser\u00e1 que representam uma f\u00f3rmula de justi\u00e7a diferente ou ser\u00e1 que se op\u00f5em aos projetos de justi\u00e7a coletivos?\u00bb. Digamos, por exemplo, que \u00e9 claro que a derrubada de Saddam Hussein pelos EUA, legitimada na medida em que p\u00f4s fim ao sofrimento da popula\u00e7\u00e3o iraquiana, n\u00e3o apenas foi motivada por outros interesses pol\u00edtico-econ\u00f4micos (o petr\u00f3leo) mas tamb\u00e9m se baseou numa id\u00e9ia determinada sobre as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas (democracia liberal ocidental, garantias da propriedade privada, inclus\u00e3o do pa\u00eds na economia global de mercado etc.) que deveriam abrir \u00e0 popula\u00e7\u00e3o iraquiana a perspectiva de liberdade. Assim, a pol\u00edtica puramente humanit\u00e1ria e antipol\u00edtica de apenas prevenir o sofrimento equivale, na pr\u00e1tica, \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o impl\u00edcita de elaborar um projeto coletivo de transforma\u00e7\u00e3o sociopol\u00edtica. O que acontece, ent\u00e3o, com os direitos humanos quando eles s\u00e3o reduzidos aos direitos daqueles que s\u00e3o exclu\u00eddos da comunidade pol\u00edtica, reduzidos \u00e0 \u00abvida nua\u00bb -ou seja, quando se tornam sem utilidade, j\u00e1 que s\u00e3o os direitos daqueles que, justamente, n\u00e3o t\u00eam direitos, daqueles que s\u00e3o tratados como n\u00e3o humanos? Com rela\u00e7\u00e3o a essa quest\u00e3o, [o fil\u00f3sofo franc\u00eas] Jacques Ranci\u00e8re prop\u00f4s uma invers\u00e3o dial\u00e9tica importante: \u00abQuando deixam de ter utilidade para voc\u00ea, voc\u00ea faz como fazem as pessoas caridosas com suas roupas velhas: doam-nas aos pobres. Os direitos que parecem ser in\u00fateis em seus lugares s\u00e3o enviados ao exterior, juntamente com roupas e medicamentos, para pessoas carentes de medicamentos, roupas e direitos&#8230; Os direitos humanos se tornam os direitos daqueles que n\u00e3o t\u00eam direitos, os direitos de seres humanos reduzidos ao m\u00ednimo, sujeitos \u00e0 repress\u00e3o desumana e a condi\u00e7\u00f5es de vida inumanas. Tornam-se direitos humanit\u00e1rios, os direitos daqueles que n\u00e3o podem implement\u00e1-los, as v\u00edtimas da nega\u00e7\u00e3o absoluta do direito. Apesar disso, eles n\u00e3o s\u00e3o destitu\u00eddos de significado. Nomes e lugares pol\u00edticos nunca se tornam simplesmente vazios. O vazio \u00e9 preenchido por algu\u00e9m ou outra coisa&#8230; Se os que sofrem repress\u00e3o inumana n\u00e3o conseguem implementar os direitos humanos que constituem seu \u00faltimo recurso, ent\u00e3o outros precisam herdar seus direitos, para que os implementem em seu lugar. \u00c9 a isso que chamamos \u00abo direito \u00e0 interven\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria\u00bb -o direito que alguns pa\u00edses se arrogam de agir em suposto benef\u00edcio de popula\u00e7\u00f5es vitimizadas, freq\u00fcentemente contrariando os conselhos das pr\u00f3prias organiza\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias. O \u00abdireito \u00e0 interven\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria\u00bb pode ser descrito como uma esp\u00e9cie de \u00abdevolu\u00e7\u00e3o ao remetente&#8217;: o direito em desuso que tinha sido enviado aos destitu\u00eddos de direitos \u00e9 devolvido a seus remetentes\u00bb. A refer\u00eancia \u00e0 f\u00f3rmula de comunica\u00e7\u00e3o proposta por Lacan (na qual o remetente recebe de volta do destinat\u00e1rio sua pr\u00f3pria mensagem em forma invertida, ou seja, verdadeira) \u00e9 pontual: no discurso reinante do intervencionismo humanit\u00e1rio, o Ocidente desenvolvido est\u00e1, de fato, recebendo de volta do Terceiro Mundo vitimizado sua pr\u00f3pria mensagem em sua forma verdadeira. E \u00e9 tamb\u00e9m aqui que devemos buscar os candidatos a \u00abindiv\u00edduo universal\u00bb, um grupo determinado cujo destino hoje pode ser visto como representativo da injusti\u00e7a do mundo atual: os palestinos, os prisioneiros em Guant\u00e1namo etc. A Palestina \u00e9 hoje sede de um acontecimento potencial precisamente porque todas as solu\u00e7\u00f5es \u00abpragm\u00e1ticas\u00bb padronizadas para a crise do Oriente fracassaram repetidas vezes, de modo que a inven\u00e7\u00e3o ut\u00f3pica de um espa\u00e7o novo \u00e9 a \u00fanica op\u00e7\u00e3o \u00abrealista\u00bb.<\/p>\n<p>Fato crucial<\/p>\n<p>Mas existe uma inst\u00e2ncia privilegiada nessa s\u00e9rie: os moradores das favelas nas novas megal\u00f3poles. O crescimento explosivo das favelas nas \u00faltimas d\u00e9cadas, especialmente nas megal\u00f3poles do Terceiro Mundo, desde a Cidade do M\u00e9xico e outras capitais latino-americanas at\u00e9 a \u00c1frica (Lagos) e \u00cdndia, China, Filipinas e Indon\u00e9sia, talvez constitua o fato geopol\u00edtico crucial de nossos tempos. O caso de Lagos, maior nodo no corredor de favelas, com 70 milh\u00f5es de habitantes, que se estende de Abidjan [capital da Costa do Marfim] a Ibadan [na Nig\u00e9ria], \u00e9 exemplar: ningu\u00e9m nem sequer sabe o tamanho de sua popula\u00e7\u00e3o. Oficialmente ela \u00e9 dada como sendo de 6 milh\u00f5es de habitantes, mas a maioria dos especialistas a estima em 10 milh\u00f5es. Como em algum momento muito pr\u00f3ximo a popula\u00e7\u00e3o urbana do mundo vai superar a popula\u00e7\u00e3o rural (\u00e9 poss\u00edvel que, dada a imprecis\u00e3o dos censos realizados no Terceiro Mundo, isso j\u00e1 tenha acontecido) e como os favelados v\u00e3o compor a maioria da popula\u00e7\u00e3o urbana, n\u00e3o estamos tratando de um fen\u00f4meno marginal, de maneira nenhuma. Estamos assistindo ao crescimento acelerado da popula\u00e7\u00e3o fora do controle estatal, vivendo em condi\u00e7\u00f5es metade fora da lei, terrivelmente carente de formas m\u00ednimas de auto-organiza\u00e7\u00e3o. Embora sua popula\u00e7\u00e3o seja composta de trabalhadores marginalizados, funcion\u00e1rios p\u00fablicos desempregados e ex-camponeses, as favelas n\u00e3o formam um simples excedente: elas s\u00e3o incorporadas \u00e0 economia global de diversas maneiras, com alguns de seus moradores trabalhando como assalariados informais ou aut\u00f4nomos, sem acesso \u00e0 sa\u00fade ou \u00e0 previd\u00eancia (a principal fonte de aumento das favelas \u00e9 a inclus\u00e3o dos pa\u00edses do Terceiro Mundo na economia global, com importa\u00e7\u00f5es alimentares baratas dos pa\u00edses do Primeiro Mundo, devastando as agriculturas locais). Eles constituem o verdadeiro \u00absintoma\u00bb de slogans como \u00abdesenvolvimento\u00bb, \u00abmoderniza\u00e7\u00e3o\u00bb e \u00abmercado mundial\u00bb. N\u00e3o surpreende que a ideologia dominante nas favelas seja a do cristianismo pentecostalista, com seu misto de fundamentalismo carism\u00e1tico movido a milagres e curas espetaculares e de programas sociais como cozinhas comunit\u00e1rias e programas comunit\u00e1rios de atendimento \u00e0s crian\u00e7as e aos idosos. Embora, \u00e9 claro, devamos resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o f\u00e1cil de elevar e idealizar os favelados, enxergando-os como nova classe revolucion\u00e1ria, tamb\u00e9m devemos, como prop\u00f5e [o fil\u00f3sofo Alain] Badiou, enxergar as favelas como um dos poucos \u00ablugares eventais\u00bb da sociedade contempor\u00e2nea -pois os favelados s\u00e3o literalmente uma cole\u00e7\u00e3o daqueles que formam a \u00abparte de parte alguma\u00bb, o elemento \u00abexcedente\u00bb da sociedade, a parte exclu\u00edda dos benef\u00edcios da cidadania, os desenraizados e despossu\u00eddos, aqueles que, de fato, \u00abn\u00e3o t\u00eam nada a perder, exceto as correntes que os prendem\u00bb.<\/p>\n<p>Dupla liberdade<\/p>\n<p>De fato, \u00e9 surpreendente quantas caracter\u00edsticas dos favelados correspondem \u00e0 boa e velha defini\u00e7\u00e3o marxista do sujeito prolet\u00e1rio revolucion\u00e1rio: eles s\u00e3o \u00ablivres\u00bb no duplo sentido do termo, mais ainda do que o proletariado cl\u00e1ssico (\u00ablibertos\u00bb de todos os la\u00e7os substanciais; obrigados a conviver estreitamente; jogados em uma situa\u00e7\u00e3o na qual precisam criar alguma maneira de conviver e, ao mesmo tempo, privados de qualquer apoio \u00e0s formas de vida tradicionais, \u00e0s formas herdadas de vida religiosa ou \u00e9tnica). Os favelados constituem a contrapartida da outra classe emergente recente, a chamada \u00abclasse simb\u00f3lica\u00bb (formada por gerentes, jornalistas, rela\u00e7\u00f5es-p\u00fablicas, acad\u00eamicos, artistas etc.), que tamb\u00e9m \u00e9 desenraizada e se enxerga como sendo diretamente universal (um acad\u00eamico novaiorquino tem mais em comum com um acad\u00eamico esloveno do que com negros que vivem no Harlem, a meio quil\u00f4metro de dist\u00e2ncia de seu campus universit\u00e1rio). Ser\u00e1 esse o novo eixo da luta de classes ou ser\u00e1 que a \u00abclasse simb\u00f3lica\u00bb \u00e9 inerentemente dividida, de tal modo que se possa fazer uma aposta emancipat\u00f3ria na coaliz\u00e3o entre favelados e parte \u00abprogressista\u00bb da classe simb\u00f3lica? O que dever\u00edamos estar buscando s\u00e3o os sinais de novas formas de consci\u00eancia social que v\u00e3o emergir dos coletivos de favelas -ser\u00e3o eles as sementes do futuro. E isso nos traz de volta ao t\u00edtulo -e ao projeto subjacente- do livro de Ash: nossa maior esperan\u00e7a de um mundo realmente \u00ablivre\u00bb est\u00e1 no universo sombrio e triste das favelas.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<br \/>\nSlavoj Zizek \u00e9 fil\u00f3sofo esloveno, professor no Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana. \u00c9 autor de \u00abBem-Vindo ao Deserto do Real\u00bb (Boitempo). Ele escreve na se\u00e7\u00e3o \u00abAutores\u00bb, do Mais!.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o de Clara Allain.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> SITUA\u00c7\u00c3O DOS FAVELADOS NO TERCEIRO MUNDO CORRESPONDE EM BOA PARTE \u00c0 DEFINI\u00c7\u00c3O DO SUJEITO REVOLUCION\u00c1RIO ANTEVISTA POR KARL MARX  O destino de um velho revolucion\u00e1rio comunista esloveno pode ser exposto como met\u00e1fora perfeita das voltas e reviravoltas descritas pelo stalinismo. Em 1943, quando a It\u00e1lia capitulou, ele comandou uma rebeli\u00e3o de prisioneiros iugoslavos em um campo de concentra\u00e7\u00e3o em Rab, uma ilha do mar Adri\u00e1tico: sob sua lideran\u00e7a, 200 prisioneiros semimortos de fome desarmaram 2.200 soldados italianos, sem nenhuma ajuda externa. Ap\u00f3s a guerra ele foi preso e encarcerado numa &quot;goli otok&quot; (&quot;ilha nua&quot;) da regi\u00e3o -um conhecido campo de concentra\u00e7\u00e3o comunista. Em 1953, ainda nesse campo, ele foi mobilizado, com outros detentos, para erguer um monumento para comemorar o d\u00e9cimo anivers\u00e1rio da rebeli\u00e3o de 1943 em Rab. Ou seja, enquanto era prisioneiro dos comunistas, foi obrigado a erguer um monumento a ele pr\u00f3prio, \u00e0 rebeli\u00e3o liderada por ele&#8230; Se a injusti\u00e7a (\u00e9 mais adequado falar dela que da justi\u00e7a) po\u00e9tica significou alguma coisa, foi o seguinte: n\u00e3o teria o destino desse revolucion\u00e1rio sido aquele da popula\u00e7\u00e3o inteira sob a ditadura stalinista, dos milh\u00f5es de pessoas que, primeiro, promovem a derrubada hist\u00f3rica do &quot;ancien r\u00e9gime&quot;, na revolu\u00e7\u00e3o, e, depois, escravizados pelas novas regras, s\u00e3o obrigados a erguer monumentos em homenagem a seu pr\u00f3prio passado revolucion\u00e1rio? Acho que [o historiador brit\u00e2nico] Timothy Garton Ash teria apreciado esse acidente tragic\u00f4mico -ele se aproxima do esp\u00edrito de ironia eticamente engajada que permeia os melhores momentos de sua obra. Embora Ash seja, formalmente, meu advers\u00e1rio pol\u00edtico, sempre o considerei digno de ser lido, sempre o apreciei por sua abund\u00e2ncia de observa\u00e7\u00f5es precisas e como fonte confi\u00e1vel de informa\u00e7\u00f5es sobre as vicissitudes da desintegra\u00e7\u00e3o do comunismo no Leste Europeu. Em &quot;The Free World &#8211; America, Europe and the Surprising Future of the West&quot; [O Mundo Livre &#8211; Am\u00e9rica, Europa e o Surpreendente Futuro do Ocidente, Allen Lane, 256 p\u00e1gs., 17,99 libras], seu novo livro, Ash aplicou a mesma abordagem l\u00facida e amargamente espirituosa ao quebra-cabe\u00e7as das tens\u00f5es recentes entre os pa\u00edses-chave da Europa Ocidental, por um lado, e os EUA, do outro. Suas observa\u00e7\u00f5es sobre as rela\u00e7\u00f5es entre Reino Unido, Fran\u00e7a e Alemanha em v\u00e1rios momentos recordam a ironia gentil do romance de costumes, conferindo um novo significado ao tema antigo da chamada &quot;trindade europ\u00e9ia&quot;. Em uma cena famosa de &quot;O Fantasma da Liberdade&quot;, de Bu\u00f1uel, as rela\u00e7\u00f5es entre o comer e o defecar s\u00e3o invertidas: as pessoas ficam sentadas sobre privadas em volta da mesa, conversando agradavelmente e, quando sentem vontade de comer, perguntam discretamente \u00e0 criada &quot;onde \u00e9 aquele lugar, sabe?&quot; e saem para um pequeno c\u00f4modo nos fundos da casa, sem se deixarem notar. Ent\u00e3o, como complemento a L\u00e9vi-Strauss, nos sentimos tentados a sugerir que as fezes tamb\u00e9m podem funcionar como &quot;mati\u00e8re \u00e0 penser&quot; [mat\u00e9ria a pensar]: afinal, os tr\u00eas tipos b\u00e1sicos de privada n\u00e3o formam uma esp\u00e9cie de correla\u00e7\u00e3o\/contraponto ao tri\u00e2ngulo culin\u00e1rio levi-straussiano? <\/p>\n<p>Chafurdando em ideologia<\/p>\n<p>Numa privada alem\u00e3 tradicional, o buraco no qual as fezes desaparecem depois de darmos a descarga fica \u00e0 frente, de modo que primeiro o coc\u00f4 fica exposto \u00e0 nossa frente, para cheirarmos e inspecionarmos para verificar poss\u00edveis sinais de doen\u00e7a. Na privada francesa t\u00edpica, pelo contr\u00e1rio, o buraco fica atr\u00e1s, ou seja, a id\u00e9ia \u00e9 que o coc\u00f4 desapare\u00e7a o quanto antes. E a privada americana (anglo-sax\u00e3), finalmente, apresenta uma esp\u00e9cie de s\u00edntese, uma media\u00e7\u00e3o entre esses dois p\u00f3los opostos -a bacia da privada fica cheia de \u00e1gua, de modo que as fezes flutuam sobre ela, vis\u00edveis, mas n\u00e3o para serem inspecionadas. N\u00e3o surpreende que, na famosa discuss\u00e3o sobre diferentes tipos de privadas europ\u00e9ias presente no come\u00e7o de seu livro semi-esquecido, &quot;Medo de Voar&quot;, Erica Jong afirme, em tom zombeteiro, que &quot;as privadas alem\u00e3s s\u00e3o realmente a chave dos horrores do Terceiro Reich. Pessoas capazes de construir privadas como essas s\u00e3o capazes de qualquer coisa&quot;. Fica claro que nenhuma dessas vers\u00f5es pode ser explicada em termos puramente utilit\u00e1rios: \u00e9 claramente discern\u00edvel uma certa percep\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica sobre como o sujeito deve relacionar-se com o excremento desagrad\u00e1vel que sai de dentro de seu corpo. Hegel foi um dos primeiros a interpretar a tr\u00edade geogr\u00e1fica da Alemanha\/Fran\u00e7a\/Inglaterra como express\u00e3o de tr\u00eas atitudes existenciais distintas: a profundidade e meticulosidade reflexiva alem\u00e3, a pressa revolucion\u00e1ria francesa, o pragmatismo utilit\u00e1rio moderado ingl\u00eas. Em termos de postura pol\u00edtica, essa tr\u00edade pode ser lida como conservadorismo alem\u00e3o, radicalismo revolucion\u00e1rio franc\u00eas e liberalismo moderado ingl\u00eas e, em termos do predom\u00ednio de uma das esferas da vida social, \u00e9 a metaf\u00edsica e poesia alem\u00e3s contra a pol\u00edtica francesa e a economia inglesa. A refer\u00eancia a privadas permite n\u00e3o s\u00f3 discernir a mesma tr\u00edade em a\u00e7\u00e3o no campo mais \u00edntimo da realiza\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o excrement\u00edcia mas tamb\u00e9m visualizar o mecanismo subjacente dessa tr\u00edade nas tr\u00eas atitudes diferentes em rela\u00e7\u00e3o ao excesso excrement\u00edcio: fasc\u00ednio contemplativo amb\u00edguo, a tentativa apressada de livrar-se do excesso desagrad\u00e1vel o mais rapidamente poss\u00edvel e a abordagem pragm\u00e1tica de tratar o excesso como objeto comum ao qual deve ser dado um fim de maneira apropriada. Assim, \u00e9 f\u00e1cil para um acad\u00eamico em uma mesa-redonda afirmar que vivemos num universo p\u00f3s-ideol\u00f3gico -assim que ele vai ao banheiro ap\u00f3s a discuss\u00e3o acalorada, volta a ver-se chafurdando em ideologia.     Neste momento n\u00e3o devemos ter medo de formular a pergunta ing\u00eanua: por que n\u00e3o os EUA como pol\u00edcia global? <\/p>\n<p>   As observa\u00e7\u00f5es de Ash parecem indicar como, hoje, essa trindade est\u00e1 passando por um deslocamento estranho de termos com rela\u00e7\u00e3o a suas posi\u00e7\u00f5es: os franceses parecem estar preocupados com a cultura (como salvar seu legado cultural da vulgar americaniza\u00e7\u00e3o global), os ingleses est\u00e3o concentrados em dilemas pol\u00edticos (devem ou n\u00e3o ingressar na Europa politicamente unificada etc.) e os alem\u00e3es -os alem\u00e3es andam preocupados com a triste in\u00e9rcia de sua economia. At\u00e9 aqui, tudo bem, ent\u00e3o. Entretanto, quando, na segunda metade do livro, Ash passa a fazer um diagn\u00f3stico geral das amea\u00e7as \u00e0 liberdade ap\u00f3s o fim da Guerra Fria, o tom geral se torna dogm\u00e1tico e simplista, e as solu\u00e7\u00f5es propostas soam impossivelmente ing\u00eanuas e declarat\u00f3rias. \u00c9 verdade que, aqui ou ali, lemos insights e declara\u00e7\u00f5es surpreendentes, em se tratando de um autor da posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Ash (como, por exemplo, o ataque inequ\u00edvoco \u00e0s pr\u00e1ticas comerciais injustas dos pa\u00edses desenvolvidos, que est\u00e3o impelindo os pa\u00edses pobres \u00e0 ru\u00edna). Apesar disso, fica claro que falta a suas propostas positivas uma fundamenta\u00e7\u00e3o s\u00f3lida numa an\u00e1lise detalhada da situa\u00e7\u00e3o mundial. Para come\u00e7ar, ele identifica quatro &quot;novos Ex\u00e9rcitos Vermelhos&quot; (sic!), as for\u00e7as do mal (ou os processos hist\u00f3ricos) que representam (ou v\u00e3o representar) uma amea\u00e7a \u00e0 democracia e \u00e0 liberdade nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas: a situa\u00e7\u00e3o no Oriente M\u00e9dio (o conflito israelo-palestino sem solu\u00e7\u00e3o e a ascens\u00e3o do fundamentalismo isl\u00e2mico), a situa\u00e7\u00e3o no Extremo Oriente (em que a China vai se transformar, no que diz respeito \u00e0 democracia?), a disparidade entre o Norte rico e o Sul pobre e o impasse ecol\u00f3gico global. J\u00e1 aqui n\u00e3o podemos deixar de notar como os quatro pontos de preocupa\u00e7\u00e3o s\u00e3o enumerados com simplicidade: Ash simplesmente faz uma lista de quatro \u00e1reas que causam preocupa\u00e7\u00e3o. Conseq\u00fcentemente, as solu\u00e7\u00f5es que ele prop\u00f5e se l\u00eaem mais como uma lista de desejos (os pa\u00edses desenvolvidos devem respeitar as regras da concorr\u00eancia de mercado que querem impor aos pa\u00edses subdesenvolvidos; eles devem fazer mais um esfor\u00e7o concentrado e s\u00e9rio para evitar poss\u00edveis cat\u00e1strofes ecol\u00f3gicas; a crise do Oriente M\u00e9dio s\u00f3 pode ser resolvida por meio do esfor\u00e7o conjunto dos jogadores-chave, nos EUA e na Europa&#8230;) do que como um plano de a\u00e7\u00e3o baseado numa an\u00e1lise s\u00e9ria da constela\u00e7\u00e3o global. <\/p>\n<p> Anticl\u00edmax <\/p>\n<p> Assim, a conclus\u00e3o do livro forma um anticl\u00edmax e n\u00e3o satisfaz as expectativas do projeto declaradas no subt\u00edtulo do livro, ou seja, mostrar como o mundo p\u00f3s-Guerra Fria, apesar de gerar problemas novos e pr\u00f3prios, tamb\u00e9m abre uma oportunidade \u00fanica de fazer frente a esses problemas. A percep\u00e7\u00e3o que eu tenho das causas dessa defici\u00eancia \u00e9 totalmente &quot;superada&quot;, tingida de marxismo: para mim, est\u00e1 claro que os quatro pontos problem\u00e1ticos citados por Ash t\u00eam suas ra\u00edzes na din\u00e2mica geral do capitalismo de hoje. Essa liga\u00e7\u00e3o fica auto-evidente no caso dos problemas ecol\u00f3gicos e da disparidade econ\u00f4mica entre o Norte e o Sul. A ascens\u00e3o do fundamentalismo isl\u00e2mico n\u00e3o \u00e9 condicionada pela recusa da civiliza\u00e7\u00e3o mu\u00e7ulmana em integrar a din\u00e2mica social do capitalismo? A din\u00e2mica econ\u00f4mica estranha da China n\u00e3o tem suas ra\u00edzes no fato de ela ser um Estado comunista que aderiu plenamente \u00e0 economia capitalista? Assim, a quest\u00e3o deveria ser formulada em um n\u00edvel mais generalizado: em que p\u00e9 estamos com rela\u00e7\u00e3o ao capitalismo global? Esses pontos problem\u00e1ticos s\u00e3o sintomas de uma falha estrutural inscrita no pr\u00f3prio cerne da m\u00e1quina capitalista ou s\u00e3o meros acidentes que poderiam ser mantidos sob controle, quando n\u00e3o resolvidos? Isso n\u00e3o significa que devamos pura e simplesmente rejeitar o diagn\u00f3stico e as propostas de Ash por meio de uma r\u00e9plica marxista impolida, dizendo que &quot;ele n\u00e3o leva em conta a totalidade dial\u00e9tica da situa\u00e7\u00e3o&quot;. Existem pontos nos quais o sofrimento humano, em sua singularidade, alcan\u00e7a um n\u00edvel no qual a refer\u00eancia f\u00e1cil a uma totalidade maior vira cinismo. Dentro desse esp\u00edrito, o \u00fanico argumento v\u00e1lido a favor da Guerra do Iraque foi evocado repetidas vezes por Christopher Hitchens: n\u00e3o devemos nos esquecer de que a maioria dos iraquianos \u00e9, concretamente, v\u00edtima de Saddam e ficaria realmente feliz e aliviada em ver-se livre dele. Saddam foi uma cat\u00e1strofe t\u00e3o grande para seu pa\u00eds que uma ocupa\u00e7\u00e3o americana, fosse qual fosse a forma que assumisse, poderia parecer \u00e0 popula\u00e7\u00e3o iraquiana uma perspectiva muito mais animadora, no que dizia respeito \u00e0 sua sobreviv\u00eancia di\u00e1ria e seus n\u00edveis de medo. N\u00e3o estamos falando aqui em &quot;levar a democracia ocidental ao Iraque&quot;, mas apenas em nos livrar do pesadelo chamado Saddam. Para essa maioria da popula\u00e7\u00e3o, a cautela expressa por liberais ocidentais s\u00f3 pode se configurar como uma hipocrisia profunda -ser\u00e1 que esses liberais realmente se preocupam com o sentimento da popula\u00e7\u00e3o do Iraque? Podemos apresentar aqui um argumento ainda mais geral: o que dizer dos esquerdistas ocidentais pr\u00f3-Fidel Castro, que desprezam aqueles que os pr\u00f3prios cubanos designam como &quot;gusanos&quot; (vermes), ou seja, os cubanos que deixaram o pa\u00eds? Entretanto, mesmo com toda a simpatia do mundo pela Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, que direito tem um t\u00edpico esquerdista ocidental de classe m\u00e9dia de desprezar um cubano que decidiu deixar Cuba n\u00e3o por desencanto pol\u00edtico, mas tamb\u00e9m em raz\u00e3o da pobreza (t\u00e3o grande que envolve a fome concreta)? Nesse mesmo veio, eu mesmo me recordo -no in\u00edcio dos anos 1990- de dezenas de esquerdistas ocidentais que, orgulhosamente, me atiraram na cara o fato de que, para eles, a Iugosl\u00e1via ainda existia e me criticaram por ter tra\u00eddo a oportunidade \u00fanica de manter a Iugosl\u00e1via -acusa\u00e7\u00e3o \u00e0 qual eu sempre respondia que ainda n\u00e3o estava disposto a viver minha vida de maneira a n\u00e3o desiludir esquerdistas ocidentais. Existem poucas coisas mais dignas de desprezo, poucas atitudes mais &quot;ideol\u00f3gicas&quot; (se esse termo possui algum significado hoje, deve ser aplicado aqui), do que um catedr\u00e1tico esquerdista ocidental desprezando com arrog\u00e2ncia (ou, ainda pior, &quot;compreendendo&quot; de maneira paternalista) um europeu oriental de um pa\u00eds comunista que anseia pela democracia liberal ocidental e por alguns bens de consumo. <\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-221","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-la-izquierda-a-debate"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/221","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=221"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/221\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=221"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=221"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=221"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}