{"id":3502,"date":"2018-05-09T00:00:00","date_gmt":"2018-05-08T23:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espai-marx.net\/?p=3502"},"modified":"2020-02-19T08:34:59","modified_gmt":"2020-02-19T07:34:59","slug":"entrevista-a-david-rodriguez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espai-marx.net\/?p=3502","title":{"rendered":"Entrevista a David Rodr\u00edguez"},"content":{"rendered":"<p><b>\u00c9s um habitual das an\u00e1lises pol\u00edticas na internet, agora confirmas com o livro, dalgum modo, a tua quer\u00eancia polo ensa\u00edsmo pol\u00edtico. De onde parte o teu interesse?<\/b><\/p>\n<p>Suponho que eu tenho um ponto heterodoxo na hora de chegar \u00e0 pol\u00edtica, e em concreto ao mundo soberanista. A minha traject\u00f3ria nom \u00e9 a t\u00edpica de universidade, mocidades de partido\u2026 eu entrei no Bloco em Salvaterra, no trabalho local, mas tinha j\u00e1 trinta anos, quase. Eu de rapaz dedicava-me ao punk, gostava do hardcore, vivia nesse mundo alternativo\u2026 acho que ficou muito disso na minha concep\u00e7om da pol\u00edtica. Era \u00e1crata, era castel\u00e1m falante tamb\u00e9m; criei-me numha fam\u00edlia com muita presen\u00e7a do galego, com m\u00e9dia fam\u00edlia ourensana e rural, e a outra metade urbana. O meu mundo est\u00e1 a\u00ed, eu mamei muito essa passagem da vida das aldeias \u00e0 urbe, a n\u00edvel vivencial. \u00c9 umha outra cousa que tamb\u00e9m configura a minha maneira de estar no mundo, foi muito experiencial. A teoria veu logo; eu deixei os estudos universit\u00e1rios, trabalhei em Citro\u00ebn na cadeia de montagem, trabalhei de repartidor de pacotes, em Londres a fazer camas\u2026 sei o que \u00e9 o trabalho manual, sei o que \u00e9 a explora\u00e7om, a falta de democracia numha empresa.<\/p>\n<p><b>E como chegas \u00e0 pol\u00edtica?<\/b><\/p>\n<p>Tivem umha experi\u00eancia de trabalho local boa, humildemente, num concelho, com companheirismo, com sentido de comunidade. E depois envolvim-me na pol\u00edtica nacional, no Foro Social Galego, com umha visom muito movimentista, e nom vou dizer antipartidos, mas si com umha visom antiescler\u00f3tica dos partidos. Todo isso levou-me ao mundo AGE e Mareas. Isto foi como um descobrir as mis\u00e9rias, a diferen\u00e7a entre o que se diz e o que se fai\u2026 foi um baptismo ser\u00f4dio na pol\u00edtica partid\u00e1ria.<\/p>\n<p><b>E quais som as tuas inquedan\u00e7as intelectuais? Porque o livro que escreves demonstra muitas leituras\u2026<\/b><\/p>\n<p>Eu a n\u00edvel te\u00f3rico encaixei o que intuitivamente vim na experi\u00eancia de vida com o descobrimento dum colectivo catal\u00e1m, EspaiMarx. Tivem a sorte de poder entrar num foro de correio onde se debatia muito, e aprendim imenso. A\u00ed tamb\u00e9m entra a minha reflexom de transladar isso \u00e0 Galiza. Por que algu\u00e9m coma mim consegue formar-se num foro catal\u00e1m? Por que nom h\u00e1 um foro galego? Eu neste foro o que topei foi gente que quer comunicar. Tratava-se de toda essa gente da \u00f3rbita de <b>Manuel Sacrist\u00e1n<\/b>, esse tipo de marxismo mais ligado ao factor cultural e ideol\u00f3gico, vencelhado ao ecologismo.<\/p>\n<p><b>Como te decides a escrever umha obra tam abrangente quelcan\u00e7a um espa\u00e7o cronol\u00f3gico mui vasto, e vai da economia \u00e0 pol\u00edtica, passando pola cultura?<\/b><\/p>\n<p>Acho que se trata da minha falta de tradi\u00e7om acad\u00e9mica, que me fai ter menos pudor do que seguramente tem a gente da universidade. Som consciente disso, \u00e9 um livro de ambi\u00e7om desmedida, fago um percurso polo s\u00e9culo XX, trato de falar de economia, de mudan\u00e7a cultural, da hist\u00f3ria da Galiza, da hist\u00f3ria da esquerda, da esquerda galega\u2026 mas \u00e9 que na realidade tenho um interesse grande por estudar a totalidade. Agora temos pouco costume desse tipo de focagens, agora \u00e9 todo muito especializado, e eu acho que cumpre umha panor\u00e1mica.<\/p>\n<p><b>A tua tese central resume-se nessa imagem do canastro sem tornarratos, que d\u00e1 t\u00edtulo \u00e0 obra. Poderias explicar-no-la ?<\/b><\/p>\n<p>O canastro \u00e9 parte da minha experi\u00eancia. Eu cheguei a um ponto, no fim da adolesc\u00eancia, no que nom podia ir \u00e0 minha aldeia, fazia-me mal, porque o que via era decad\u00eancia; e dava-me m\u00e1goa, porque eu tinha uns bons recordos de inf\u00e1ncia, o dum lugar vivo. Passei umha jeira muito longa sem ir; porque s\u00f3 via velhos, casas a se esboroar, casas novas horripilantes que nom tinham nada a ver com o tipo de vida que houvera al\u00f4\u2026 e os canastros estavam al\u00f4. Falo da zona do Ribeiro, os canastros som de pedra, mas tenhem toda umha parte de madeira, toda aquela parte que implica trabalho humano, e essa desaparece. Eu essa imagem do canastro sem tornarratos sempre a tivem muito gravada. Ao ser este livro tam amplo, interessava-me ter umha imagem muito concreta, de enganche. E realmente todo se reduz a isto: que aconteceu aqui? Que \u00e9 o que nos falta? Por isso falo de que faltam tornarratos. E como agora o mundo -e quando falo do mundo digo o capitalismo- entra at\u00e9 a cozinha. Umha vez que nos retir\u00e1rom qualquer tipo de parapeto, a sociedade nom se salva disto. J\u00e1 nom falo s\u00f3 de parapetos pol\u00edticos, falo tamb\u00e9m de parapetos culturais, de ferramentas pr\u00f3prias, de formas de viver\u2026 por isso o h\u00f3rreo \u00e9, al\u00e9m dumha simbologia pr\u00f3pria e muito galega, parecia umha boa met\u00e1fora.<\/p>\n<p><b>Remontas fen\u00f3menos muito actuais a um passado centen\u00e1rio. Um deles \u00e9 o do constitucionalismo, e rec\u00faas no tempo para esclareceres a falta de associa\u00e7om directa entre constitucionalismo e democracia.<\/b><\/p>\n<p>No livro trato de analisar diversos elitismos que se d\u00e9rom na Europa. Existe o elitismo da cultura conservadora e aristocr\u00e1tica, da selec\u00e7om dos melhores por umha questom de estirpe. E depois h\u00e1 ainda outro, que ao meu ver \u00e9 umha evolu\u00e7om do primeiro, que se ampara na t\u00e9cnica: na elimina\u00e7om da pol\u00edtica e na gestom do p\u00fablico por parte dos expertos. A\u00ed enla\u00e7am-se persoeiros como <b>Hanna Arendt<\/b>, que com a sua ideia do totalitarismo como \u2018excesso da pol\u00edtica\u2019, propom formas de certo funcionamento autom\u00e1tico das institui\u00e7ons, com<b> Ortega y Gasset<\/b>. Este \u00e9 um autor poli\u00e9drico que fusiona o elitismo dos anos 30 com a tecnocracia que vem a posteriori; fusiona-as e si mesmo. O elitismo t\u00e9cnico est\u00e1 na l\u00f3gica do liberalismo e a sua proposta de separa\u00e7om de poderes, nomeadamente da considera\u00e7om da lei escrita como algo neutral, nom pol\u00edtica. Isso est\u00e1 hoje de plena actualidade, mas cito estudiosos do republicanismo que advertem que tais teses estavam j\u00e1 nos dirigentes da independ\u00eancia norteamericana; de facto, esse constitucionalismo serviu par frear o que tinha de revolucion\u00e1rio o processo independentista. O mesmo acontece tr\u00e1s a Revolu\u00e7om francesa com o c\u00f3digo civil napole\u00f3nico. Sempre que h\u00e1 revolu\u00e7om e se esclerotiza a proposta arredor da lei escrita, acaba por haver opressom; porque a sociedade continua a ser m\u00f3bil, flex\u00edvel, partida por conflitos\u2026 quando h\u00e1 umha sobreconcentra\u00e7om dum governo na lei escrita \u00e9 que este tem pouca vontade de a sociedade participar. Um exemplo chave disto \u00e9 a Uniom Europeia: o seu esquema \u00e9 o sonho do liberalismo. Nas suas institui\u00e7ons l\u00ea-se isto com claridade: um parlamento com quase nulas atribui\u00e7ons, um executivo, a Comissom, forte; e sobretodo, as leis escritas, os tratados, como algo intoc\u00e1vel, ou de muito dif\u00edcil modifica\u00e7om. Vimo-lo na Gr\u00e9cia, se as normas econ\u00f3micas dim que isto deve de ser de tal jeito, nom h\u00e1 nenhuma outra possibilidade; nom se importa se nesse pa\u00eds h\u00e1 referenduns, se se vota esta ou estoutra op\u00e7om pol\u00edtica. <b>Gerardo Pisarello<\/b>, no caso espanhol, estudou o fen\u00f3meno do constitucionalismo antidemocr\u00e1tico. E temos bons exemplos no nosso pa\u00eds, caso do colunista estrela de <i>La Voz de Galicia<\/i>, um senhor ao que lhe horripila a democracia no que tem de governo dos pobres, como dizia Arist\u00f3teles.<\/p>\n<p><b>Falas dum Estado espanhol muito provinciano nalguns aspectos, mas muito vanguardista noutros. Em que sentido?<\/b><\/p>\n<p>Tomo a ideia de <b>Joan Garc\u00e9s<\/b>, onde ele analisa o texto constitucional espanhol e conclui que se trata dum texto pensado para o baleiramento da soberania. Nesse sentido \u00e9 vanguardista para o que iria vir depois, o esvaziamento dos estados como espa\u00e7os de pol\u00edtica em favor de entes superestatais. Por outra banda, \u00e9 muito provinciano, porque Espanha \u00e9 como umha esp\u00e9cie de cela de manic\u00f3mio na que um est\u00e1 fechado a repetir eternamente os mesmos problemas e traumas que j\u00e1 venhem do 1898 ou mais atr\u00e1s. \u00c9 um bucle. Ao abrolhar a crise econ\u00f3mica eu partilho a leitura de <b>S\u00e1nchez Cuenca<\/b>. Ele afirma que a crise \u00e9 umha crise, no m\u00ednimo, do sul europeu, da sua fun\u00e7om na divisom internacional do trabalho; em troca, aqui a crise remata por desaguar sempre em problemas dom\u00e9sticos. Se um vai \u00e0 imprensa portuguesa, por exemplo, pode ver que a \u00f3ptica muda por completo, al\u00f4 os problemas nacionais est\u00e1m sempre postos em rela\u00e7om com um espa\u00e7o internacional. A sua capacidade de an\u00e1lise dos fen\u00f3menos, nomeadamente econ\u00f3micos, \u00e9 muito mais ampla e mais l\u00facida.<\/p>\n<p><b>Recelas do potencial e da legitimidade da lei, mas h\u00e1 umha corrente de esquerda intelectual, reformista, que nos \u00faltimos anos chama a valorizar o Estado de direito dumha perspectiva transformadora. Que opinas ?<\/b><\/p>\n<p>H\u00e1 umha parte interessante do debate. O que defende o liberalismo \u00e9 em parte tradi\u00e7om republicana, valiosa, acontece que logo se mesturou com o liberalismo econ\u00f3mico. Claro, as figuras do s\u00e9culo XIX galego eram liberais, e n\u00f3s orgulhamo-nos disso, nom? Eu julgo que o Estado \u00e9 necess\u00e1rio, nom som neste ponto nada vaporoso; se nom lhe queremos chamar Estado chamemos-lhe x, mas a institui\u00e7om \u00e9 precisa. H\u00e1 quem nom quer falar de Estado, e realmente o que propom \u00e9 Estado, com outro nome; assim fai o municipalismo, por exemplo. Entom, si, aposto no Estado, na lei, numha separa\u00e7om de poderes aut\u00eantica, mas sempre com cautela, e tendo tino com a visom liberal das institui\u00e7ons, porque \u00e9 tendente ao elitismo. V\u00ea-se claramente em boa parte da esquerda espanhola, que por esse querer salvar as institui\u00e7ons a todo pre\u00e7o chega a considerar que nom existe o que n\u00f3s chamamos o regime, quando \u00e9 evidente que este existe, com umha corrup\u00e7om estrutural que impede que as institui\u00e7ons se saneiem.<\/p>\n<p><b>Precisamente na pesquisa de velhas liga\u00e7ons hist\u00f3ricas, tamb\u00e9m mergulhas nas ra\u00edzes da esquerda. E descobres as origens de posi\u00e7ons aparentemente novas nascida nesta d\u00e9cada, noutro ciclo bem distinto.<\/b><\/p>\n<p>Neste ponto marc\u00e1rom-me as leituras de dous soci\u00f3logos, <b>Boltanski<\/b> e <b>Chiapello<\/b>, que no seu <i>O novo esp\u00edrito do capitalismo<\/i>, din que o sistema toma elementos dos seus antagonistas para sobreviver \u00e0s crises. O capitalismo posterior ao fim do keynesianismo recolhe elementos do 68: a liberta\u00e7om dos desejos, a expressom individual\u2026 isso cria um tipo de capitalismo hedonista, que \u00e9 igual que repressor, mas envolve-se na ret\u00f3rica do desfrute. A\u00ed irrompe umha esquerda que continua com esse discurso, e acaba por se integrar no fluxo do capitalismo. Nom se estabelece nenhum antagonismo com o estado de cousas. Um discurso que apele \u00e0 liberta\u00e7om individual, \u00e0 falta de institui\u00e7ons, a um anarquismo vaporoso\u2026 encaixa neste panorama. No fundo trata-se dum movimento muito acad\u00e9mico. Elaboram-no te\u00f3ricos universit\u00e1rios, divinos, sem conexom nenhuma com movimentos organizados, como sempre tivo a esquerda. Essa \u00e9 umha diferen\u00e7a fundamental que j\u00e1 assinalou <b>Perry Anderson<\/b>. Ele percebe como, chegado um momento, se produz um div\u00f3rcio entre os movimentos de massas e a intelectualidade esquerdista, e acho que ainda estamos nesse ponto. Ele alviscou-no h\u00e1 muitos anos. Todo o que veu desde a <b>Escola de Frankfurt<\/b> para diante som isso, senhores acad\u00e9micos que vivem bem, que disertam, que dim o que cumpre fazer ou nom fazer para acabar com o capitalismo, mas nom vivem mal. Olho, nom gosto de ser demag\u00f3gico com isto, mas o nom experimentar nas carnes a realidade\u2026 algo influi, nom? Toda esta esquerda l\u00edquida, posmoderna, francesa sobretodo, deriva disso. Logo refor\u00e7a-se com os estudos poscoloniais: um movimento muito endog\u00e1mico, focado em problemas que tenhem pouco reflexo na vida quotidiana da gente.<\/p>\n<p><b>Ao abordares a questom galega, det\u00e9s-te em dous temas privilegiados polo nacionalismo historicamente: a teoria da depend\u00eancia e o colonialismo. Muitos galegos e galegas com inquedan\u00e7as perguntam-se hoje se servem para entender a nossa realidade.<\/b><\/p>\n<p>Nom desminto estas categorias, mas eu trato de enquadr\u00e1-las as numhas coordenadas internacionais que mud\u00e1rom enormemente nas \u00faltimas d\u00e9cadas: houvo pa\u00edses do sul que experiment\u00e1rom a chamada moderniza\u00e7om, e que agora aspiram a liderar outras hegemonias; e por outra banda, pa\u00edses pretendidamente centrais, como o Estado espanhol, com as suas cl\u00e1ssicas \u00ednfulas de jogar em primeira divisom, volvem a ver-se na sua situa\u00e7om real, rebaixados na sua hierarquia de poder. Acho portanto que o nacionalismo galego tem que enxergar todo isto, pensar em chave internacional de hoje. Um dos temas que me preocupa bastante \u00e9 a utiliza\u00e7om da questom nacional de fora, como se fijo na Jugosl\u00e1via. Existe umha capacidade de copta\u00e7om destes movimentos nacionais muito importante. Vejo-o \u00e0s claras na Catalunha. H\u00e1 umha parte do movimento catal\u00e1m que o que deseja \u00e9 isso: \u2018senhores europeus, reconhe\u00e7am-me, n\u00f3s somos civilizados, queremos ser da Europa protestante, nom somos como esta banda de aqui do sul\u2019. Esse risco est\u00e1 a\u00ed, e fai parte desta nova configura\u00e7om do mundo. Os Estados na\u00e7om j\u00e1 nom som o que eram; nom desaparec\u00earom, como dizia certa esquerda, mas cumprem umha outra fun\u00e7om. Por outra banda, si h\u00e1 umha certa cr\u00edtica \u00e0 teoria da depend\u00eancia que nom fago s\u00f3 eu, j\u00e1 se lhe tem feito h\u00e1 anos: parte de assumir acriticamente a ideia da moderniza\u00e7om, a cren\u00e7a de que existem umhas fases do progresso econ\u00f3mico polas que todo pa\u00eds deve passar, polo si ou polo nom, e a todo pre\u00e7o. Eu ponho em causa este modelo. A mim alegra-me que quando h\u00e1 agressons ao territ\u00f3rio, como as minas, a gente se rebele, dizendo que nom querem isso, que esse nom \u00e9 o seu progresso. Assumir isso est\u00e1 bem na hora de analisar as infraestruturas, caso do AVE. Precisamos isso todo? Cumpre rev\u00ea-lo todo noutras chaves.<\/p>\n<p><b>Como incid\u00edrom as mudan\u00e7as da sociedade galega desde os anos 70 nas formas de ac\u00e7om pol\u00edtica ?<\/b><\/p>\n<p>Eu aqui falo do desencantamento do mundo, como dizia<b> Weber<\/b>; trata-se da entrada total e sem matizes no capitalismo, e isto a sociedade galega viviu-no de forma acelerad\u00edssima. Isso deixa-nos o pa\u00eds que temos agora, desestruturado em muitos n\u00edveis. Como esquerda, estamos a viver a decad\u00eancia do movimento obreiro. O movimento obreiro foi a grande cria\u00e7om, eu chamaria-o a cria\u00e7om dum povo de esquerdas: o povo cria-se a si mesmo como povo de esquerdas, isso \u00e9 o que aconteceu. Todo isso esfarela-se, esse relato, essa eticidade. Desapareceu a eticidade do mundo labrego, logo a eticidade do mundo obreiro, e ficamos \u00e0 intemp\u00e9rie. Eu mesmo chego a questionar desde a esquerda se hoje h\u00e1 povo, povo como ente aut\u00f3nomo. Nom falo dum povo de arc\u00e1dia, dum povo perfeito, id\u00edlico, nom, falo de povo aut\u00f3nomo, com as suas defensas. Eu acho que isso desapareceu, nom h\u00e1 corta-lumes. Para construir, o primeiro \u00e9 tomar consci\u00eancia do ermo no que estamos. Nom cumpre dramatizar, por\u00e9m. Desde <b>Thompson<\/b>, na sua hist\u00f3ria da classe obreira inglesa, sabemos que a classe parte dum processo de auto-constru\u00e7om, nom vem dada. Isto se cadra \u00e9 provocador, pessimista demais, mas eu estou certo de que voltamos a estar a\u00ed: nas pequenas redes, nos pequenos grupinhos. Eu nascim numha fam\u00edlia trabalhadora, sindicada, lembro a meu pai ir ao 1\u00ba de Maio, e nom era um homem de extrema esquerda: era um trabalhador, com os seus valores, os seus c\u00f3digos. E agora pergunto-me se isso se transmitiu \u00e0s novas gera\u00e7ons. Bom, na realidade sei que nom. Porque eu trabalhei em Citro\u00ebn com gente nova e sei o que pensam, qual \u00e9 o seu tipo de vida, a que aspiram\u2026 e o que vim \u00e9 desolador. Por isso me parece tam importante que haja gente disposta a ensinar, a transmitir conhecimento e valores. Temos um problema no nacionalismo, que \u00e9 o de dar muitos conhecimentos por supostos. Mas resulta que tais conhecimentos nom est\u00e1m tam socializados como realmente pensamos. As novas gera\u00e7ons sabem pouco, e os tempos exigem-nos estar dispostos a umha reformula\u00e7om constante. Pensa por exemplo: os livros fundamentais do nacionalismo galego, que reedi\u00e7ons tenhem? H\u00e1 edi\u00e7ons cr\u00edticas, prologadas, de novo revisadas? \u00c9 umha cousa abraiante.<\/p>\n<p><b>Nos \u00faltimos tempos, parte da classe m\u00e9dia em descomposi\u00e7om e a intelectualidade prec\u00e1ria ocupou muitos espa\u00e7os na esquerda institucional. Como valoras o fen\u00f3meno?<\/b><\/p>\n<p>O precariado apareceu com a crise do movimento obreiro e representa muito bem os valores dumha sociedade atomizada, confusa. Tem essa experi\u00eancia vital individualista que leva consigo aos movimentos e aos partidos. E todo o que houvo de mais negativo na chamada \u2018nova pol\u00edtica\u2019 \u00e9 a consequ\u00eancia l\u00f3gica desse processo que leva a milhares de pessoas de classe m\u00e9dia e alta a enfrentar condi\u00e7ons de vida que nom se correspondem com as suas expectativas. A carreira profissional gorada no seu \u00e1mbito reconvertem-na na carreira institucional, porque a perspectiva de voltarem \u00e0 realidade prec\u00e1ria nem se concebe. \u00c9 um sector social amb\u00edguo, porque \u00e9 certo que som objectivamente gente explorada, mas a um tempo procedem dum globo cultural que fornece expectativas dif\u00edceis de cumprir. H\u00e1 grande forma\u00e7om cultural, acesso ao conhecimento, acompanhadas de perspectivas sociais em debalo. E esta disson\u00e1ncia cria monstros.<\/p>\n<p><b>Frente o discurso t\u00edmido e amb\u00edguo da esquerda institucional, chama a aten\u00e7om o sucesso da mensagem contundente e beligerante da nova extrema direita, da Europa a Am\u00e9rica. A que se deve este contraste de tons e de resultados?<\/b><\/p>\n<p>Estamos na transi\u00e7om do neoliberalismo progressista cara o neoliberalismo autorit\u00e1rio. O culturalismo \u2018progre\u2019, que sempre foi acompanhado de medidas econ\u00f3micas contra as classes populares, perde funcionalidade, e d\u00e1 passo a umha versom mais agressiva. Isto leva a um neoliberalismo mais tosco, mais violento, e que tamb\u00e9m se aproveita do oco deixado pola esquerda na sua separa\u00e7om da gente comum. Esta nova direita o que nos diz \u00e9 que o universit\u00e1rio marxista com as suas teorias e o yuppie que viaja de aviom som culturalmente bastante semelhantes; e \u00e9 verdade! Som, na sua forma de vida, equivalentes. Porque hoje h\u00e1 umha esp\u00e9cie de dicotomia entre os que nom podem mover-se do seu s\u00edtio, e os que se movem muito. H\u00e1 umha elite cosmopolita a esquerda e a direita, que \u00e9 clar\u00edssima na \u2018nova pol\u00edtica\u2019 e no que eu chamo \u2018esquerda erasmus\u2019, e umha massa de trabalhadores e trabalhadoras alheios ao nomadismo, fixadas ao seu territ\u00f3rio, por outras jornadas laborais e outras circunst\u00e1ncias mais exigentes.<\/p>\n<p><b>O processo de espanholiza\u00e7om ocupa certo espa\u00e7o no teu livro. Afirmas que decorre em dous \u00e1mbitos paralelos, o da direita aut\u00f3ctone, e o das classes populares. Poderias precisar em que consiste?<\/b><\/p>\n<p>Os dous \u00e1mbitos som influ\u00eddos por umha transforma\u00e7om global. No caso da direita, o processo \u00e9 evidente: a passagem de Fraga a Feijoo revela que cada vez precisam menos recorrer \u00e0 ret\u00f3rica regionalista para ter poder. Isso quer dizer que as bases mud\u00e1rom tamb\u00e9m, que precisam menos filtros para se imporem. O discurso chega directamente j\u00e1. Por isso digo que Feijoo \u00e9 um \u2018homem de negro\u2019; igual que est\u00e1 aqui pode estar num outro lugar; Fraga nom era um homem de negro, tinha razons para estar aqui, e um estilo particular de agir. As mudan\u00e7as percebem-se tamb\u00e9m no n\u00edvel popular. Ating\u00edrom primeiro as cidades e logo empapam o resto do pa\u00eds. Existe umha mocidade \u00e0 que a pr\u00f3pria ideia da Galiza lhe sona cada vez mais longe, nom topam canles para chegar a ela.<\/p>\n<p><b>E sem embargo, essa dist\u00e1ncia nom significa hostilidade.<\/b><\/p>\n<p>Nom significa, \u00e9 certo. E penso que a leitura que fijo o BNG do 15M foi um erro. Entendo o que se dizia do movimento, eu via o mesmo: tratava-se dum revoltalho do que poderia ter sa\u00eddo qualquer cousa, at\u00e9 mesmo um movimento de extrema direita. Mas cumpria estar a\u00ed, porque essa realidade \u00e9 parte da Galiza. O BNG, ao tomar essa dist\u00e1ncia um pouco desprezativa, interpretou que havia hostilidade com a ideia da Galiza. Mas o que acontecia \u00e9 que o nacionalismo nom chegava a todo esse segmento. Temos a realidade medi\u00e1tica que temos, a vida dessa gente transcorre em castelhano, os seus h\u00e1bitos sociais, froito das mudan\u00e7as que mencionamos, som equipar\u00e1veis aos de qualquer ponto da Europa ocidental\u2026 e se por riba o aparelho de Estado vai potenciar que as esquerdas cheguem aqui atrav\u00e9s de Madrid, j\u00e1 temos os ingredientes postos. Como ti nom estejas a\u00ed onde podes trabalhar, que \u00e9 na proximidade, toda essa gente escapa-se-che.<\/p>\n<p><b>Tamb\u00e9m abordas o papel do mundo da cultura nesta Galiza em mudan\u00e7a, e particularmente o que chamas \u2018fen\u00f3meno Gal\u00e1xia\u2019. Algo que sobarda \u00e0 pr\u00f3pria editorial e explica o comportamento das elites intelectuais do pa\u00eds em corenta anos de autonomia.<\/b><\/p>\n<p>Tentei estabelecer um paralelismo entre o que antes comentava, as teses de Hanna Arendt, e <b>Ramom Pinheiro<\/b> e o grupo Gal\u00e1xia. Penso que se pode estabelecer umha ponte entre estes dous elitismos. Um \u00e9 o aristocr\u00e1tico da revolu\u00e7om conservadora, e outro o tecn\u00f3crata. A Gal\u00e1xia, o discurso europe\u00edsta tanto lhe vale para dar umha certa ideia ancestral e essencializada, como para oferecer o projecto tecnocr\u00e1tico da II posguerra mundial. Encaix\u00e1rom perfeitamente na Transi\u00e7om e na autonomia, porque esse era mesmamente o esp\u00edrito: o da moderniza\u00e7om orientada pola Europa, combinado com a ret\u00f3rica da velha cultura agr\u00e1ria, envolveita numha concep\u00e7om m\u00edstica que era tamb\u00e9m perfeita para a direita. Cumpriam-se assi duas fun\u00e7ons a um tempo, inserir a Galiza no modelo tecnocr\u00e1tico, e dar \u00e0s velhas elites um pouso de legitimidade galeguista. Ora, \u00e0 margem das diferen\u00e7as pol\u00edticas, tenho que reconhecer certo m\u00e9rito em Gal\u00e1xia. Eles abandon\u00e1rom a pol\u00edtica pola cultura, mas quando menos assum\u00edrom o risco de editarem cultura em galego em pleno franquismo, a sufragarem eles mesmos os custes. Eram gente que tinha capacidade econ\u00f3mica e tamb\u00e9m suficiente generosidade para dedicarem capital privado a um bem p\u00fablico. Hoje em dia, gente de igual n\u00edvel econ\u00f3mico semelha confiar demasiado no trabalho das institui\u00e7ons, quando estas, ao estarem controladas quase todas elas polo PP, tenhem cada vez menos capacidade para dedicarem or\u00e7amentos \u00e0 cultura, nem digamos \u00e0 cultura cr\u00edtica.<\/p>\n<p><b>Al\u00e9m da ideologia, nom coincide quase toda a intelectualidade galega no feito de ser funcionarial, de comportamento conservador, e praticamente incapaz de traspassar certos limites postos polo poder?<\/b><\/p>\n<p>Eu acho que existe umha diferen\u00e7a entre o chamado \u2018pinheirismo\u2019 e o nom pinheirismo, ainda que tal diferen\u00e7a vai-se esvaecendo. Explico-me: desde o nascimento da autonomia e at\u00e9 h\u00e1 pouco, o chamado pinheirismo tinha certa prerrogativa com os poderes pol\u00edticos regionais; mas com o senhor de negro, tal trato privilegiado desaparece, porque ele nom tem interesse nenhum nos pinheiristas, nem em geral na cultura galega. Isto situa-os no desamparo, obriga-os a fazer a pergunta: como encaixamos aqui agora? Ora, al\u00e9m desta divis\u00f3ria espec\u00edfica, \u00e9 certo que predomina um tipo de intelectual de esquerdas, ou progressista, fundamente acad\u00e9mico, e neste ponto nom h\u00e1 diferen\u00e7a de nenhum tipo entre uns e outros. Som pensadores que vam chegar at\u00e9 um limite, nunca al\u00e9m disso, porque vivem num mundo endog\u00e1mico, pequeno, dependente dos recursos p\u00fablicos\u2026 na intelectualidade h\u00e1 muit\u00edssimo medo.<\/p>\n<p><b>Suprendeu-me que em todo o livro nom se mencionara o independentismo, que foi o movimento que defendeu, com muitos anos de anteced\u00eancia, posi\u00e7ons das que falas (a cr\u00edtica o modelo econ\u00f3mico turistificador, e \u00e0 excepcionalidade judicial e penal contra a dissid\u00eancia\u2026).<\/b><\/p>\n<p>Eu som devedor do meu entorno, som consciente. Tivem muito pouca rela\u00e7om com o independentismo, e \u00e0 pol\u00edtica partid\u00e1ria, como dixem, chego tarde. Logo, eu tenciono lan\u00e7ar um debate que ponha em questom as grandes for\u00e7as, os grandes actores. Sei que h\u00e1 outras, mas eu quero apelar a estas. Nom quero dizer com isto que o subterr\u00e1neo, o que se move por baixo, nom tenha import\u00e1ncia, nem muito menos. Acho que \u00e9 fulcral para o futuro.<\/p>\n<p><i><b>Publicado en:<\/b><\/i> <a href=\"https:\/\/adiante.gal\/como-sociedade-estamos-sem-cortafogos-e-a-luita-das-classes-populares-parte-praticamente-de-zero\/\">https:\/\/adiante.gal\/como-sociedade-estamos-sem-cortafogos-e-a-luita-das-classes-populares-parte-praticamente-de-zero\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><p class='MsoNormal' style='margin-bottom: 18.0pt; text-align: justify; line-height: 150%;'>N\u2019O canastro sen tornarratos, o autor atreve-se a um ambicioso relato da hist\u00f3ria contempor\u00e1nea que des\u00e1gua na Galiza da actualidade, nesse panorama de liquida\u00e7om de conquistas e liberdades amea\u00e7adas que vivemos acotio. David Rodr\u00edguez debulha devagar este ciclo in\u00e9dito com o intuito de promover a controv\u00e9rsia e o debate.<\/p><\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":3503,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14,13],"tags":[1005,920,946],"class_list":["post-3502","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-democracia-republica","category-la-izquierda-a-debate","tag-david-rodriguez","tag-entrevista-a-autor","tag-o-canastro-sen-tornarratos"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3502","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3502"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3502\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3503"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3502"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3502"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3502"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}