{"id":380,"date":"2006-04-10T00:00:00","date_gmt":"2006-04-10T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espai-marx.net\/?p=380"},"modified":"2020-02-14T11:08:08","modified_gmt":"2020-02-14T10:08:08","slug":"a-revolucao-de-1383-85","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espai-marx.net\/?p=380","title":{"rendered":"A Revolu\u00e7\u00e3o de 1383-85"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/espai-marx.net\/wp-content\/uploads\/2006\/04\/maria-da-fonte.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-3825 alignleft\" src=\"https:\/\/espai-marx.net\/wp-content\/uploads\/2006\/04\/maria-da-fonte-300x220.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/espai-marx.net\/wp-content\/uploads\/2006\/04\/maria-da-fonte-300x220.jpg 300w, https:\/\/espai-marx.net\/wp-content\/uploads\/2006\/04\/maria-da-fonte.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<p>A guerra entre Portugal e Castela nos fins do S\u00e9c. XIV n\u00e3o \u00e9 apenas uma guerra entre dois Estados, ou mais uma guerra entre dois Estados.<\/p>\n<p>Da parte dos portugueses \u00e9 uma guerra nacional e popular, uma guerra que mergulha as suas ra\u00edzes nas lutas sociais, nas lutas de classes que se vinham desenvolvendo e intensificando ao longo do S\u00e9c. XIV.<\/p>\n<p>Estava-se processando o decl\u00ednio do sistema feudal causado, fundamentalmente, pela liquida\u00e7\u00e3o da servid\u00e3o da gleba nos S\u00e9culos XIII e XIV e pelo surgimento da pequena produ\u00e7\u00e3o baseada no trabalho do propriet\u00e1rio dos meios de produ\u00e7\u00e3o e da produ\u00e7\u00e3o baseada no trabalho assalariado.<\/p>\n<p>A expans\u00e3o dos concelhos est\u00e1 ligada ao desenvolvimento desta produ\u00e7\u00e3o: \u00e9 sua consequ\u00eancia e \u00e9 seu est\u00edmulo, na medida, por exemplo, em que favorecia a liberta\u00e7\u00e3o dos servos da gleba.<\/p>\n<p>Os servos da gleba d\u00e3o lugar aos pequenos produtores formando-se, depois, por um lado, uma classe de camponeses ricos, a burguesia rural, e, por outro, uma classe de camponeses sem terra que fornecem trabalho assalariado.<\/p>\n<p>Com a produ\u00e7\u00e3o mercantil simples, com a pequena produ\u00e7\u00e3o baseada no trabalho assalariado aumenta a produ\u00e7\u00e3o em geral, desenvolvendo-se o com\u00e9rcio interior. Surge uma classe de comerciantes que cresce em n\u00famero e em poder econ\u00f3mico.<\/p>\n<p>Por outro lado, o desenvolvimento do com\u00e9rcio externo (que j\u00e1 existia quando da forma\u00e7\u00e3o de Portugal) conduz ao aparecimento de uma classe de ricos mercadores.<\/p>\n<p>Sendo o com\u00e9rcio externo quase todo feito por mar desenvolve-se a Marinha Mercante e, a constru\u00e7\u00e3o naval. Nos centros urbanos do litoral forma-se uma burguesia rica, que se organiza na defesa dos seus interesses, e que v\u00e3o influenciando cada vez mais a pol\u00edtica portuguesa. Os portos, em particular Lisboa e Porto, tornam-se centros de poder da burguesia comercial-mar\u00edtima.<\/p>\n<p>Paralelamente a este progresso, na produ\u00e7\u00e3o e na troca de produtos, desenvolve-se a produ\u00e7\u00e3o artesanal, cresce a classe dos mesteirais, cujo papel na Revolu\u00e7\u00e3o de 1383-85 vir\u00e1, em certos momentos, a ser decisivo.<\/p>\n<p>Com o desenvolvimento da produ\u00e7\u00e3o mercantil e do com\u00e9rcio os burgueses concentram na sua m\u00e3o grande riqueza. Com o seu crescente poder econ\u00f3mico a burguesia ligada ao com\u00e9rcio mar\u00edtimo torna-se o principal inimigo da classe senhorial e vem a estar em condi\u00e7\u00f5es de, em unidade com as outras classes n\u00e3o senhoriais, disputar o poder pol\u00edtico \u00e0 nobreza latifundi\u00e1ria.<\/p>\n<p>O surgimento das novas classes e camadas sociais, o crescente poder econ\u00f3mico da burguesia, cujos interesses se op\u00f5em aos da classe senhorial, exercem press\u00e3o sobre o poder real e obrigam a que os privil\u00e9gios da nobreza e do clero v\u00e3o sendo reduzidos ao longo dos S\u00e9culos XIII e XIV.<\/p>\n<p>Contudo, a natureza do Estado n\u00e3o muda com as conquistas que a burguesia vai alcan\u00e7ando. A nobreza latifundi\u00e1ria e militar, de que o rei \u00e9 o primeiro senhor, continua a ser a classe dominante, continua a dispor da direc\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Estado.<\/p>\n<p>D. Fernando \u00e9 obrigado a promulgar leis de protec\u00e7\u00e3o ao com\u00e9rcio e \u00e0 navega\u00e7\u00e3o, \u00e9 obrigado a promulgar, nomeadamente, a Lei das Sesmarias, o que tem o significado de grandes conquistas da burguesia urbana e rural.<\/p>\n<p>Amadurecem as condi\u00e7\u00f5es para a disputa do poder pol\u00edtico \u00e0 nobreza por parte da burguesia.<\/p>\n<p>Apercebendo-se do perigo que corria e sentindo que n\u00e3o possu\u00eda forcas para, por si s\u00f3, dominar a contesta\u00e7\u00e3o aos seus privil\u00e9gios e ao seu poder, a nobreza portuguesa vinha procurando o apoio da nobreza castelhana \u00e0 qual se unia (sem atender aos riscos que essa uni\u00e3o implicaria para a independ\u00eancia nacional) com. o fim de salvaguardar e manter os seus privil\u00e9gios, de refor\u00e7ar o seu poder e de contrabater a burguesia ascendente. Foi com este objectivo que se celebrou em 1383 o casamento da infanta D. Beatriz, filha \u00fanica de D. Fernando e de D. Leonor Teles, com o rei de Castela.<\/p>\n<p>Antes, em 1376 e 1380, o casamento da infanta com pr\u00edncipes castelhanos estivera para ser realizado, prevendo-se j\u00e1 ent\u00e3o a sucess\u00e3o de um rei castelhano no trono de Portugal.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio casamento de D. Fernando com D. Leonor Teles fora preparado pela nobreza portuguesa em alian\u00e7a com a de Castela com vista a influenciar mais directamente as decis\u00f5es do rei no sentido favor\u00e1vel aos interesses da nobreza portuguesa. E de tal modo assim foi que os burgueses e artes\u00e3os se revoltaram em v\u00e1rios pontos do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>O alfaiate Fern\u00e3o Vasques e os seus companheiros, \u00e0 frente de tr\u00eas mil mesteirais, besteiros e homens de p\u00e9, em 1371, corajosamente, afirmaram o seu protesto ao rei pelo seu casamento com D. Leonor Teles; eles haviam compreendido o significado pol\u00edtico desse matrim\u00f3nio preparado pela nobreza portuguesa em coniv\u00eancia com a de Castela.<\/p>\n<p>Essa revolta dos mesteirais, exprimindo a oposi\u00e7\u00e3o de interesses entre as classes populares e a nobreza feudal representou uma tal amea\u00e7a ao poder feudal que o rei mandou degolar Fern\u00e3o Vasques e muitos dos seus companheiros.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito do casamento de D. Fernando, Fern\u00e3o Lopes diz que os populares se juntavam criticando acerbamente os privados do rei e os grandes da terra que lho consentiam.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses da vida de D. Fernando acentuou-se junto do rei a influ\u00eancia da nobreza mais reaccion\u00e1ria o que fez crescer a tens\u00e3o social e contribuiu para criar as condi\u00e7\u00f5es para a insurrei\u00e7\u00e3o de Lisboa, poucos dias depois da morte do rei.<\/p>\n<p>A morte do rei precipitou os acontecimentos ao colocar o problema da sucess\u00e3o.<\/p>\n<p>A causa imediata da revolu\u00e7\u00e3o burguesa \u00e9 a tentativa por parte da nobreza de entregar o Governo de Portugal \u00e0 monarquia castelhana. A revolu\u00e7\u00e3o toma desde logo um car\u00e1cter nacional, social e popular. A insurrei\u00e7\u00e3o de Lisboa \u00e9 secundada por revoltas populares por todo o Pa\u00eds (sobretudo a Sul do Tejo) da burguesia rural, dos camponeses, dos assalariados rurais, dos \u00abventres ao sol\u00bb.<\/p>\n<p>A luta pela independ\u00eancia nacional funde-se com a luta contra os privil\u00e9gios da nobreza e pelo poder pol\u00edtico, pois a classe dominante \u00e0 qual era disputado este poder pol\u00edtico era a mesma que, para conservar as suas posi\u00e7\u00f5es, havia provocado a interven\u00e7\u00e3o da nobreza de Castela contra os interesses populares e estava disposta a entregar o Governo de Portugal \u00e0 monarquia castelhana.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o burguesa identifica-se, assim, com a luta pela independ\u00eancia nacional.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o tem um n\u00edtido car\u00e1cter de classe. Dois campos se afrontam: o da nobreza territorial latifundi\u00e1ria e o das classes n\u00e3o senhoriais: a burguesia urbana e rural, os mesteirais, os pequenos propriet\u00e1rios camponeses, os camponeses sem terra, nesse momento unidos contra o mesmo inimigo, a nobreza portuguesa e castelhana, ultrapassando assim as pr\u00f3prias e naturais contradi\u00e7\u00f5es de interesses que havia entre essas classes sociais n\u00e3o senhoriais. Foram estas for\u00e7as que se defrontaram em Aljubarrota.<\/p>\n<p>O facto de, do lado portugu\u00eas, sempre ter havido nobres ao lado das classes populares n\u00e3o altera o car\u00e1cter do afrontamento de classes.<\/p>\n<p>Em todas as revolu\u00e7\u00f5es houve sempre elementos da classe dominante que tomaram o partido das classes em ascens\u00e3o, progressistas, que se op\u00f5em ao poder dessas mesmas classes dominantes.<\/p>\n<p>Era restrito o n\u00famero de nobres que estava com Portugal. E pertenciam aos estratos inferiores da nobreza. Eram dos menos abastados.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos, pois, afirmar que do lado portugu\u00eas, em Aljubarrota, se encontravam todas as classes sociais defendendo a independ\u00eancia nacional.<\/p>\n<p>O facto de, depois da Revolu\u00e7\u00e3o de 1383-85, a nova nobreza ter ficado na posse de vastos dom\u00ednios, dom\u00ednios cuja extens\u00e3o total era t\u00e3o grande como a que antes de 1383 possu\u00eda a antiga nobreza latifundi\u00e1ria, n\u00e3o invalida a afirma\u00e7\u00e3o de que em Aljubarrota a nobreza, como classe, n\u00e3o estava do lado de Portugal.<\/p>\n<p>Estava, sim, um reduzido n\u00famero de nobres que eram chefes militares das tropas populares. Os comandos militares, os quadros superiores eram, regra geral, nobres que, como se sabe, naquele tempo, eram militares profissionais.<\/p>\n<p>O que aconteceu foi que esses poucos nobres, em consequ\u00eancia dos \u00eaxitos na guerra e em virtude da posi\u00e7\u00e3o que ocupavam no ex\u00e9rcito, ascenderam \u00e0 grande propriedade territorial, no lugar daqueles que se puseram ao lado de Castela.<\/p>\n<p>Com efeito, foi com esses nobres leais a Portugal que, dadas as condi\u00e7\u00f5es objectivas e subjectivas da \u00e9poca, foi reconstitu\u00edda a grande parte dos dom\u00ednios senhoriais. O caso mais t\u00edpico \u00e9 o de Nuno Alvares Pereira que ascendeu ao primeiro plano da classe senhorial e de tal modo que os seus dom\u00ednios atingiram uma extens\u00e3o igual \u00e0 dos dom\u00ednios que anteriormente possu\u00edam muitos dos grandes nobres tomados em conjunto.<\/p>\n<p>\u00c9 Fern\u00e3o Lopes que nos diz que em resultado da grande crise surgiu uma \u00abs\u00e9tima idade em que se levantou um mundo novo e nova gera\u00e7\u00e3o de gentes, aparecendo fidalgos de origem plebeia e erguendo&#8211;se pequenos aristocratas \u00e0 primeira linha da nobreza\u00bb. Repare-se que, para Fern\u00e3o Lopes, o aparecimento de um mundo novo n\u00e3o estava ligado, como para n\u00f3s, hoje, a uma profunda transforma\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o entre as diferentes classes sociais.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es objectivas da vida da sociedade portuguesa em fins do s\u00e9c. XIV n\u00e3o eram de molde a poder colocar \u00e0 consci\u00eancia da burguesia e das classes populares a necessidade de uma modifica\u00e7\u00e3o radical das estruturas socioecon\u00f3micas, que liquidasse o poder da classe senhorial. S\u00f3 s\u00e9culos mais tarde essa quest\u00e3o ser\u00e1 posta pelas burguesias dos diferentes pa\u00edses e com grandes intervalos de tempo entre si.<\/p>\n<p>Com efeito, podemos verificar que nos finais do s\u00e9c. XIV a Revolu\u00e7\u00e3o de 1383-85 respeita as estruturas da sociedade feudal. Em 1383-85, do ponto de vista socioecon\u00f3mico, o objectivo fundamental comum \u00e0 burguesia e \u00e0s classes populares era o de limitar os privil\u00e9gios senhoriais, devendo, contudo, ter-se presente que eram diferentes entre si os objectivos concretos da burguesia e das demais classes populares.<\/p>\n<p>Em Aljubarrota, na realidade, encontravam-se muito poucos fidalgos do lado de Portugal. A principal nobreza portuguesa estava do fado castelhano, quer ali, em Aljubarrota, nas hostes de Castela, quer na chefia de povoa\u00e7\u00f5es e castelos que se mantinham como ilhas ao servi\u00e7o do inimigo, quer mesmo em Castela.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, quando da primeira invas\u00e3o castelhana, em princ\u00edpios de 1384, o rei de Castela entrou praticamente sozinho em Portugal, antes do seu ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Tal era o apoio que o rei de Castela tinha entre a nobreza portuguesa que o rei chegou \u00e0 Guarda com a esposa e um pequeno s\u00e9quito de umas trinta pessoas, sendo recebido processionalmente pelo bispo e clero e acorrendo depois numerosos fidalgos ao pa\u00e7o episcopal onde se hospedou.<\/p>\n<p>Em Aljubarrota, al\u00e9m de D. Jo\u00e3o I, Nuno \u00c1lvares e de mais uma dezena de grandes senhores haveria cerca de uma centena de nobres de modesta hierarquia.<\/p>\n<p>Ora, o n\u00famero de membros da nobreza portuguesa \u00e9 estimado, nos fins do s\u00e9c. XIV, em 4000 a 5000 pessoas, n\u00e3o incluindo os membros da fam\u00edlia real que seriam algumas centenas (Armando Castro, \u00abHist\u00f3ria Econ\u00f3mica de Portugal\u00bb, II vol.).<\/p>\n<p>A nobreza que combatia contra os Portugueses em Aljubarrota tinha bem a no\u00e7\u00e3o do car\u00e1cter de classe da guerra que fazia. Fern\u00e3o Lopes d\u00e1-nos v\u00e1rios testemunhos:<\/p>\n<p>\u2014 Por meados de 1384 quando o nobre Gon\u00e7alo Mendes de Vasconcelos, senhor do castelo de Coimbra, entreviu por uma seteira do seu castelo, o ex\u00e9rcito de Nuno \u00c1lvares, que partia para Tomar, comentou para os seus privados o g\u00e9nero de combatentes que compunham essa hoste, espantado que tais homens pudessem defender o reino contra um grande senhor como o rei de Castela, \u00absalvo se Deus fosse seu capit\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>\u2014 Quando o rei de Castela reuniu o conselho para decidir se devia dar batalha ou n\u00e3o, poucas horas antes do in\u00edcio desta, houve entre os seus conselheiros quem fosse de opini\u00e3o que n\u00e3o se desse batalha pois se o rei de Castela fosse vencido teria sido derrotado \u00abpor um pouco n\u00famero de pobre gente\u00bb.<\/p>\n<p>\u2014 A covilheira do rei de Castela defumava os fidalgos com algumas defumaduras \u00abpara perderdes os maus cheiros destes chamorros, das casas onde vivem e aldeias onde moram\u00bb.<\/p>\n<p>\u2014 Ap\u00f3s a derrota de Aljubarrota, o rei de Castela, em fuga, ao chegar a Santar\u00e9m lamenta-se de ter sido derrotado pelos \u00abchamorros\u00bb.<\/p>\n<p>\u00abE se v\u00f3s dizeis que outro tal e tanto aconteceu a meu pai verdade \u00e9 que assim foi. Mas (&#8230;) de que gentes foi meu padre vencido? Foi-o de ingleses que s\u00e3o o frol da cavalaria do mundo, em tanto que, vencido por eles, n\u00e3o deixava de ficar honrado (&#8230;) E de que gentes fui eu vencido? Fui-o de chamorros que ainda que me Deus tanta merc\u00ea fizesse que a todos tivesse atados em cordas e os degolasse por minha m\u00e3o, minha desonra n\u00e3o seria vingada\u00bb.<\/p>\n<p>&#8211; x &#8211;<\/p>\n<p>Como dissemos atr\u00e1s, a Revolu\u00e7\u00e3o de 1383-85 tomou, desde a sua eclos\u00e3o, um car\u00e1cter nacional, de luta peta independ\u00eancia, posta em perigo pela alian\u00e7a da nobreza portuguesa com a de Castela. D. Leonor Teles manda al\u00e7ar pend\u00e3o por D. Beatriz, rainha de Portugal e de Castela. A rainha vi\u00fava pede a interven\u00e7\u00e3o de Castela, a cujo rei entrega, em Santar\u00e9m, a reg\u00eancia do reino, em Janeiro de 1384, com o apoio da alta nobreza portuguesa.<\/p>\n<p>Tem havido quem procure justificar o comportamento antipatri\u00f3tico da aristocracia portuguesa afirmando que nessa \u00e9poca o sentimento nacional e patri\u00f3tico seria inexistente.<\/p>\n<p>Mas a verdade \u00e9 que esse sentimento j\u00e1 existia nessa \u00e9poca em Portugal e j\u00e1 existia de longa data. N\u00e3o se ter\u00e1 esse sentimento de independ\u00eancia come\u00e7ado a definir partir da auto-proclama\u00e7\u00e3o de Afonso Henriques como rei de Portugal?<\/p>\n<p>O que se verificou \u00e9 que n\u00e3o era essa nobreza feudal, como classe, a portador desse sentimento patri\u00f3tico.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria mostra que n\u00e3o pode formar-se uma na\u00e7\u00e3o como uma comunidade de indiv\u00edduos que vivem no mesmo territ\u00f3rio e que, para al\u00e9m de rela\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas est\u00e1veis, est\u00e3o ligados por uma l\u00edngua comum e pelas particularidades da mentalidade, da cultura, do modo de vida, fixadas nos seus usos, costumes e tradi\u00e7\u00f5es, sem que, na sua raiz, estejam classes produtivas directas e as demais classes populares.<\/p>\n<p>Os interesses destas classes, nos graves momentos de crise nacional, identificam-se com os interesses da P\u00e1tria.<\/p>\n<p>O mesmo n\u00e3o acontece quanto as classes privilegiadas: em determinadas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, para defenderem os seus interesses e as suas posi\u00e7\u00f5es frente \u00e0 ac\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria das massas populares, elas sacrificam o sentimento patri\u00f3tico, s\u00e3o capazes de comprometer a independ\u00eancia do seu pa\u00eds em troca do aux\u00edlio estrangeiro, para se manterem no poder.<\/p>\n<p>Na t\u00e3o grave situa\u00e7\u00e3o de 1383-85, o sentimento nacional, a solidariedade activa entre as mais largas camadas de portugueses foi refor\u00e7ada, mas este facto foi devido \u00e0 luta das classes, n\u00e3o privilegiadas contra a nobreza feudal.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria solidariedade activa entre a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o atesta que j\u00e1 havia nessa \u00e9poca um arreigado sentimento p\u00e1trio. S\u00e3o muitas as refer\u00eancias de Fern\u00e3o Lopes a esse sentimento p\u00e1trio:<\/p>\n<p>\u00abo povo me\u00fado\u00bb quando a aristocracia, ap\u00f3s a morte de D. Fernando, erguia o pend\u00e3o por D. Beatriz, mulher do rei de Castela, respondia com \u00abArraial, arraial, por Portugal\u00bb.<\/p>\n<p>Alguns exemplos:<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 Os representantes do concelho de Alenquer dirigem-se ao Mestre de Avis afirmando o seu patriotismo, \u00absomos portugueses e todos naturais destes reinos\u00bb.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 Quando o Mestre de Avis se despede, em Coina, de Nuno \u00c1lvares Pereira, que marcha para o Alentejo como fronteiro d\u00e1-lhe o apoio de algumas dezenas de escudeiros, dizendo-lhe serem \u00abverdadeiros portugueses\u00bb.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 Os homens bons de Cerveira, Caminha e Mon\u00e7\u00e3o enviam mensagens a Nuno Alvares Pereira: declaram-se \u00abverdadeiros portugueses\u00bb e entregam-lhe voluntariamente essas povoa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 Os partid\u00e1rios do Mestre de Avis contra a candidatura ao trono de Portugal do infante D. Jo\u00e3o, filho de D. Pedro e D. In\u00eas de Castro, argumentavam que o infante D. Jo\u00e3o fizera guerra contra Portugal ao lado de Castela.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 Domingues Peres das Eiras afirma a determina\u00e7\u00e3o dos moradores do Porto em defenderem a sua terra \u00abpara nunca sermos em poder dos castelhanos\u00bb.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 A designa\u00e7\u00e3o que o \u00abpovo me\u00fado\u00bb dava aos aristocratas portugueses que combatiam ao lado de Castela era a de \u00abtraidores\u00bb.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 Na descri\u00e7\u00e3o da batalha de Aljubarrota, Fern\u00e3o Lopes refere-se aos \u00abmaus portugueses que vinham na vanguarda dos castelhanos\u00bb.<\/p>\n<p>A acusa\u00e7\u00e3o de traidores e maus portugueses n\u00e3o foi criada por Fern\u00e3o Lopes: encontra-se em dezenas de documentos da \u00e9poca em que esses ep\u00edtetos s\u00e3o dados sistematicamente aos aristocratas que se colocaram ao lado de Castela.<\/p>\n<p>\u00abPara o comprovar basta percorrer, por exemplo, o tomo 2\u00ba dos Documentos do Arquivo Hist\u00f3rico da C\u00e2mara Municipal de Lisboa\u00bb. (A. Castro, EEP s\u00e9c. XII a XV, vol. 11.-, p\u00e1g. 300.)<\/p>\n<p>A consci\u00eancia, entre portugueses, de que pertenciam a uma na\u00e7\u00e3o aut\u00f3noma \u00e9 j\u00e1 assinalada nos dizeres inscritos na parede ao lado da ep\u00edstola que pertencia \u00e0 capela institu\u00edda na S\u00e9 de Lisboa por Bartolomeu Joanes que viveu nos tempos de D. Afonso III e D. Diniz. Instituiu cinquenta libras para cada capel\u00e3o (\u00abque em esta capela sempre cantem dezasseis capel\u00f5es por dia\u00bb) e ainda dois soldos cada s\u00e1bado por of\u00edcios religiosos nesses dias acrescentando que \u00abos capel\u00f5es h\u00e3o-de ser portugueses bons e leg\u00edtimos se os acharem, sen\u00e3o tomem outros\u00bb (ver J\u00falio de Castilho, Lisboa Antiga, 1885, vol. III p\u00e1gs. 329-331, citado por A. Castro, em EEP s\u00e9c. XII a XV, vol. 11\u00ba, p\u00e1g. 425).<\/p>\n<p>&#8211; x &#8211;<\/p>\n<p>Pelo seu car\u00e1cter nacional e social a guerra de Portugal contra Castela foi uma guerra justa. Ela foi uma guerra conduzida pelo povo em defesa da liberdade e do progresso social (a opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o senhoriais entravavam o desenvolvimento econ\u00f3mico e social), em defesa da independ\u00eancia nacional contra o dom\u00ednio estrangeiro. Este era o conte\u00fado pol\u00edtico da guerra. Ele resultava do car\u00e1cter de classe da guerra, das raz\u00f5es pelas quais eclodiu, das classes que a faziam e das condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e hist\u00f3rico-econ\u00f3micas que a provocaram.<\/p>\n<p>O conte\u00fado pol\u00edtico da guerra determina o seu papel hist\u00f3rico na vida da sociedade.<\/p>\n<p>O papel hist\u00f3rico da guerra contra Castela e contra a nobreza feudal de Portugal foi progressista.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria da burguesia permitiu:<\/p>\n<p>\u2014 o fortalecimento do poder pol\u00edtico do pa\u00eds;<\/p>\n<p>\u2014 o fortalecimento do poder pol\u00edtico e econ\u00f3mico da burguesia que conduzir\u00e1 ao desenvolvimento da navega\u00e7\u00e3o e do com\u00e9rcio mar\u00edtimo e \u00e0 gesta dos Descobrimentos.<\/p>\n<p>A natureza de classe da guerra exprime-se tamb\u00e9m na sua caracter\u00edstica moral.<\/p>\n<p>S\u00e3o os fins almejados p\u00ealos beligerantes, fins progressistas ou reaccion\u00e1rios, fins de liberta\u00e7\u00e3o ou de conquista que distinguem as guerras justas das guerras injustas.<\/p>\n<p>O poderoso conte\u00fado moral das guerras justas exerce uma influ\u00eancia decisiva na consci\u00eancia, no ardor combativo, na coragem, na valentia, no esp\u00edrito de sacrif\u00edcio, na solidariedade e na unidade dos combatentes. E, deste modo, o car\u00e1cter justo da guerra exerce uma influ\u00eancia determinante na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre os beligerantes.<\/p>\n<p>Em Fern\u00e3o Lopes podemos verificar como, para as classes n\u00e3o senhoriais (e para o reduzido n\u00famero de nobres que junto com eles combatem e de que Nuno Alvares \u00e9 o maior exemplo) a guerra era profundamente justa e, portanto, sentida como sua.<\/p>\n<p>Veja-se, por exemplo, a narrativa dos assaltos populares aos castelos de Portalegre e de Estremoz ou dos levantamentos de Lisboa, de Beja, de \u00c9vora, do Porto: \u00abDesta guisa que haveis ouvido, se levantaram os povos em outros lugares, sendo grande cisma e divis\u00e3o entre os grandes e os pequenos\u00bb.<\/p>\n<p>\u00abO qual ajuntamento dos pequenos povos, que ent\u00e3o assim se juntaram, chamavam naquele tempo, arraia mi\u00fada. Os grandes, \u00e0 primeira, escarnecendo dos pequenos, chamavam-lhe povo do Messias e Lisboa, que cuidavam que os havia de remir da sujei\u00e7\u00e3o de el-rei de Castela.\u00bb<\/p>\n<p>\u00abEra maravilha de ver que tanto esfor\u00e7o dava neles (na arraia mi\u00fada) e tanta cobardice nos outros, que os castelos que os antigos reis por longos tempos jazendo sobre eles com for\u00e7a de armas n\u00e3o podiam tomar, os povos mi\u00fados, mal armados e sem capit\u00e3o, com os ventres ao sol, antes de meio-dia os filhavam por sua for\u00e7a.\u00bb<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o rural da regi\u00e3o de Alcoba\u00e7a matou mais castelhanos, em fuga ap\u00f3s a batalha de Aljubarrota, do que aqueles que perderam a vida na batalha:<\/p>\n<p>\u00abum r\u00fastico alde\u00e3o prendia e matava sete castelhanos e oito e dez e n\u00e3o tinham poder de lhe contradizer, tanto homens de pequena condi\u00e7\u00e3o como pessoas de boa conta\u00bb quer fossem castelhanos, quer fossem portugueses que com eles vinham na hoste de Castela.<\/p>\n<p>Foram os camponeses, os mesteirais, os elementos das classes produtivas que sofreram o maior peso da guerra. Quer sozinhos, quer sob o comando dos poucos nobres que aderiram \u00e0 causa nacional ou dos cavaleiros-burgueses, quer ainda com o aux\u00edlio de pequenas for\u00e7as militares eles assaltaram castelos, levantaram povoa\u00e7\u00f5es e sofreram a pilhagem e a viol\u00eancia do ex\u00e9rcito de Castela, por onde quer que este se deslocasse.<\/p>\n<p>As vit\u00f3rias dos portugueses em territ\u00f3rio nacional foram sempre alcan\u00e7adas em grande inferioridade quanto a efectivos, armamento e equipamento.<\/p>\n<p>Nas v\u00e9speras da batalha de Aljubarrota, Nuno \u00c1lvares procura que as suas tropas n\u00e3o tenham conhecimento da enorme superioridade do inimigo.<\/p>\n<p>A arrogante nobreza castelhana chama aos portugueses \u00abdesesperados que n\u00e3o receiam a morte\u00bb, \u00abum pouco n\u00famero de pobre gente\u00bb.<\/p>\n<p>&#8211; x &#8211;<\/p>\n<p>As vit\u00f3rias dos portugueses n\u00e3o podem ser explicadas, simplesmente, pela arte militar.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria t\u00e1ctica inovadora estava intimamente relacionada com a composi\u00e7\u00e3o social e o n\u00famero de efectivos de que dispunha Nuno \u00c1lvares. S\u00f3 homens altamente moralizados, sentindo de todo o seu ser a justeza e a raz\u00e3o moral da guerra em que estavam empenhados poderiam obter tais vit\u00f3rias, sendo t\u00e3o poucos.<\/p>\n<p>O car\u00e1cter de luta popular e nacional \u00e9 numerosas vezes assinalado em Fern\u00e3o Lopes:<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 A burguesia rural, os camponeses engrossam espontaneamente as hostes de Nuno \u00c1lvares Pereira e de D. Jo\u00e3o I durante os deslocamentos destas em territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 Quando em Fevereiro de 1385 o Mestre de Avis levanta o cerco de Torres Vedras para seguir para as Cortes de Coimbra acorre muito povo da regi\u00e3o implorando que o deixasse partir juntamente a fim de n\u00e3o ficar \u00e0 merc\u00ea dos malfeitores dos inimigos. O Mestre acede, saindo com os pobres moradores da regi\u00e3o, suas mulheres e filhos.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 Em Outubro de 1384, Nuno \u00c1lvares Pereira com o apoio da popula\u00e7\u00e3o local toma o castelo de Portel.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 Em Coimbra, o Mestre \u00e9 acolhido por grande recep\u00e7\u00e3o popular, muitos \u00abcachopos\u00bb \u00absem que ningu\u00e9m os mandasse\u00bb aclamaram o Mestre como rei.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 Os concelhos representados em Coimbra decidem fazer um pedido de 400 mil libras para pagamento dos soldos dos combatentes.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 Em Abril de 1385 Nuno Alvares Pereira antes de partir para o Porto dirige-se aos seus soldados recomendando-lhes que na sua marcha n\u00e3o deviam ferir, matar ou roubar os lavradores, pois eles n\u00e3o eram senhores das vilas e dos castelos ao servi\u00e7o do inimigo e que se mais n\u00e3o faziam pela causa de Portugal era porque n\u00e3o podiam.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 A batalha de Trancoso, em Junho de 1385, \u00e9 ganha por uma pequena hoste portuguesa, com poucos de \u00abcria\u00e7\u00e3o\u00bb, ou seja, fidalgos, mas \u00abcom muitos dos concelhos da regi\u00e3o e lavradores da comarca\u00bb.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 Em Agosto de 1385 as hostes de Castela, tendo invadido Portugal pela Beira Alta, praticam ao longo do seu itiner\u00e1rio as maiores viol\u00eancias e pilhagens, mutilam, decepam, matam lavradores e camponeses, e incendeiam igrejas (o rei de Castela era pelo Papa de Avinh\u00e3o enquanto o rei de Portugal era pelo de Roma).<\/p>\n<p>&#8211; x &#8211;<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 ainda um outro aspecto a salientar acerca do conte\u00fado pol\u00edtico da guerra, do seu car\u00e1cter justo e popular.<\/p>\n<p>A guerra de Portugal contra Castela foi, at\u00e9 \u00e0 vit\u00f3ria de Aljubarrota, uma guerra defensiva, para os portugueses, n\u00e3o obstante as opera\u00e7\u00f5es ofensivas empreendidas pelas nossas tropas. At\u00e9 esse momento a guerra foi travada no territ\u00f3rio portugu\u00eas. Era uma guerra nacional e popular. Mas a partir do ano de 1385 a influ\u00eancia crescente dos dirigentes militares das for\u00e7as portuguesas que eram aristocratas (havia tamb\u00e9m chefes militares burgueses), possuidores de uma consci\u00eancia social moldada nos quadros da ideologia medieval, cavaleiresca, leva a que a continua\u00e7\u00e3o da guerra seja feita, em grande parte, nos antigos moldes, pr\u00f3prios dessa nobreza: incurs\u00f5es em terras de Castela, ass\u00e9dios a castelos inimigos, desafios entre cavaleiros, tomadas de despojos, alian\u00e7a com o duque de Lencastre, de Inglaterra, para apoiar as pretens\u00f5es deste ao trono de Castela, etc.<\/p>\n<p>A guerra perde o seu car\u00e1cter social e de defesa da independ\u00eancia nacional. Deixa de ser uma guerra justa e popular. Os nossos combatentes, fora da sua P\u00e1tria, n\u00e3o sentiam a guerra como sua.<\/p>\n<p>Por outro lado, agora para o povo de Castela, a guerra passava a ser justa. Foi o que se verificou, por exemplo, quando do cerco de C\u00f3ria, em Castela, em 1386: ao fim de tr\u00eas semanas de in\u00fatil cerco, D. Jo\u00e3o I e Nuno \u00c1lvares Pereira retiram para Portugal \u00e0 frente do maior ex\u00e9rcito de que at\u00e9 a\u00ed dispuseram, 22 mil homens entre cavaleiros, besteiros e pe\u00f5es, todos bem armados e equipados, gra\u00e7as aos despojos colhidos nas campanhas anteriores.<\/p>\n<p>&#8211; x &#8211;<\/p>\n<p>Procur\u00e1mos atr\u00e1s apontar, embora de um modo sum\u00e1rio e simplificado, (o que n\u00e3o quer dizer falta de rigor hist\u00f3rico), as linhas de fundo, as principais condicionantes e determinantes pol\u00edticas, socioecon\u00f3micas e morais, sem cujo conhecimento n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compreender o que se passou em Aljubarrota nem a vit\u00f3ria dos portugueses.<\/p>\n<p>Vamos a seguir referir-nos, tamb\u00e9m de um modo sum\u00e1rio e simplificado, aos principais aspectos militares da batalha de Aljubarrota, sem perder de vista as suas rela\u00e7\u00f5es com os elementos pol\u00edticos, socioecon\u00f3micos e morais que condicionam e determinam a guerra.<\/p>\n<p>&#8211; x &#8211;<\/p>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito portugu\u00eas e a t\u00e1ctica adoptada est\u00e3o directamente relacionados com o car\u00e1cter social da luta que se travou em 1383-85.<\/p>\n<p>O ex\u00e9rcito era formado, quase todo, por elementos das classes n\u00e3o privilegiadas. O grosso das lan\u00e7as de Portugal era formado por cavaleiros-vil\u00e3os (propriet\u00e1rios rurais e urbanos de maior abastan\u00e7a). Alguns deles foram grandes chefes militares como Gil Fernandes de Elvas e Ant\u00e3o Vasques (her\u00f3i de Aljubarrota).<\/p>\n<p>Em pequeno n\u00famero eram os nobres que estavam com Portugal. Al\u00e9m de D. Jo\u00e3o I, Nuno \u00c1lvares e uma dezena de grandes senhores, seriam uma centena em Aljubarrota. Eles eram os chefes militares do ex\u00e9rcito portugu\u00eas, juntamente com cavaleiros burgueses.<\/p>\n<p>A cavalaria era mal armada. O seu equipamento era ligeiro, o que se explica pelos extractos sociais de que era constitu\u00edda.<\/p>\n<p>Os besteiros (do conto) foram criados como mil\u00edcia municipal no reinado de D. Diniz. Combatiam com a besta que disparava virot\u00f5es a cerca de 70 m, que podiam trespassar as cotas de malha dos cavaleiros inimigos.<\/p>\n<p>Eram \u00abdo conto\u00bb por serem em n\u00famero certo recenseado em cada concelho.<\/p>\n<p>Do ponto de vista social os besteiros eram formados por pequenos lavradores e sobretudo por mesteirais, homens de of\u00edcio, cada vez mais numerosos pelo progresso que tinha a produ\u00e7\u00e3o artesanal. Tinham de possuir alguns bens para a aquisi\u00e7\u00e3o e a manuten\u00e7\u00e3o da besta. Alguns, poucos, possu\u00edam at\u00e9 cavalo, no qual se deslocavam durante as marchas (os besteiros do rei, por exemplo). A cria\u00e7\u00e3o dos besteiros no reinado de D. Diniz atesta a crescente import\u00e2ncia dos artes\u00e3os.<\/p>\n<p>Os mesteirais, na Revolu\u00e7\u00e3o de 1383-85 tiveram papel decisivo, em momentos cr\u00edticos, em que salvaram a Revolu\u00e7\u00e3o. Foi, por exemplo, no dia 16 de Dezembro de 1383 na assembleia do Mosteiro de S\u00e3o Domingos em Lisboa, em que obrigaram o Mestre de Avis a tomar o cargo de Regedor e Defensor do Reino. \u00c9 Afonso Eanes Penedo que, no dia seguinte, imp\u00f5e decis\u00f5es revolucion\u00e1rias aos burgueses ricos, que estavam hesitantes, dizendo: \u00abQuereis ou n\u00e3o outorgar o que vos dizem? Se dizeis que n\u00e3o, eu vos digo que em tudo isto n\u00e3o aventuro mais que esta garganta e quem n\u00e3o for conosco, pag\u00e1-lo-\u00e1 com a sua antes que daqui parta\u00bb. Este facto faz-nos compreender a import\u00e2ncia que tinham os besteiros-mesteirais na hoste portuguesa.<\/p>\n<p>Os pe\u00f5es eram pequenos camponeses, art\u00edfices de menores recursos econ\u00f3micos que os besteiros, pequenos comerciantes, trabalhadores assalariados. O seu armamento e equipamento variava consoante os bens que possu\u00edam: lan\u00e7a, cutelo, adaga, machado curto, espaldeira, gorgeira, escudo. Mas, muitas vezes, era armamento de ocasi\u00e3o: chu\u00e7os, machado, etc. Era raro possu\u00edrem armamento completo, dispunham apenas de pe\u00e7as isoladas. Em Aljubarrota, por exemplo, os pe\u00f5es estavam fracamente armados\u00bb muitos deles descal\u00e7os:<\/p>\n<p>\u00abpobremente e mal armados, porque o que tinha cota n\u00e3o tinha coudel e o que tinha panceira n\u00e3o tinha bracelotes, e muitos deles bacinetes sem caras, assim que todas as suas armas, sendo repartidas como cumpria, n\u00e3o armariam o ter\u00e7o da gente, em tanto que dizem aqueles que os viram que n\u00e3o pareciam os nossos acerca deles sen\u00e3o um pouco de esc\u00e1neo de ver\u00bb.<\/p>\n<p>O que caracteriza a composi\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito portugu\u00eas n\u00e3o \u00e9 o facto de os chefes militares serem nobres (cujo sentimento patri\u00f3tico os levara a ficar do lado de Portugal). \u00c9 a sua composi\u00e7\u00e3o de classe n\u00e3o privilegiada, popular.<\/p>\n<p>&#8211; x &#8211;<\/p>\n<p>A t\u00e1ctica que caracterizou a actua\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito portugu\u00eas na Revolu\u00e7\u00e3o de 1383-85, foi a de \u00abp\u00e9 terra\u00bb ou \u00abp\u00e9 em terra\u00bb.<\/p>\n<p>Na t\u00e1ctica de \u00abp\u00e9 terra\u00bb empregada pela primeira vez na batalha dos Atoleiros, em 6 de Abril de 1384, os combatentes apeados ofereciam \u00e0 cavalaria inimiga os ferros das lan\u00e7as bem fincados na \u00abterra\u00bb. As lan\u00e7as suportavam o embate da cavalaria inimiga. Os cavalos espetavam-se nelas e eram derrubados com os cavaleiros que, de pesadas armaduras, n\u00e3o t\u00eam mobilidade frente aos combatentes inimigos apeados e, em consequ\u00eancia, s\u00e3o por estes desbaratados, esmagados, aniquilados.<\/p>\n<p>A disposi\u00e7\u00e3o dos combatentes era em quadrado: o dispositivo t\u00e1ctico pretendia anular todo o \u00edmpeto da cavalaria inimiga.<\/p>\n<p>Os lados do quadrado eram guarnecidos \u00e0 frente pela vanguarda, atr\u00e1s pela retaguarda e carriagem ou curral, e aos lados pelas alas.<\/p>\n<p>Nuno Alvares mandava apear a maior parte da sua cavalaria. Esta guarnecia a vanguarda, as alas e a retaguarda. A cavalaria portuguesa combatia como a peonagem.<\/p>\n<p>Pelas alas e pela retaguarda eram distribu\u00eddos os besteiros e os archeiros que, umas vezes \u00e0 frente, outras vezes por detr\u00e1s dos homens de armas, (cavaleiros apeados) lan\u00e7avam os seus virot\u00f5es e frechas.<\/p>\n<p>Os pe\u00f5es eram distribu\u00eddos pelos quatro lados do quadrado.<\/p>\n<p>A vanguarda, se a frente era rompida pela pot\u00eancia do choque da cavalaria pesada inimiga, procurava recompor-se, rapidamente, fechando-se sobre as tropas inimigas que tivessem penetrado no quadrado, a fim de separar estas do resto da vanguarda inimiga.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o as alas e a retaguarda ca\u00edam sobre o inimigo que estava dentro do quadrado.<\/p>\n<p>Para melhor utiliza\u00e7\u00e3o do tiro dos besteiros e archeiros sobre a vanguarda inimiga, as alas podiam estar salientes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s linhas da frente ocupada pela vanguarda do lado amigo. Assim, os besteiros e archeiros podiam cruzar o tiro, ou seja, as frechas e os virot\u00f5es, sobre a vanguarda inimiga que avan\u00e7ava contra o quadrado.<\/p>\n<p>O quadrado defendia-se tamb\u00e9m em todo o seu contorno contra ataques do inimigo, quer pelos flancos quer pela retaguarda (ataques da cavalaria ligeira).<\/p>\n<p>Empregando esta t\u00e1ctica, a batalha que as for\u00e7as portuguesas impunham ao inimigo era muito diferente das grandes batalhas da Idade M\u00e9dia, caracterizadas pelo formid\u00e1vel choque dos cavaleiros, logo divididos em duelos e recontros parciais de cujas vit\u00f3rias individuais dependia a vit\u00f3ria comum.<\/p>\n<p>A nova t\u00e1ctica era profundamente revolucion\u00e1ria, era fruto da mobiliza\u00e7\u00e3o armada das classes populares, das classes sociais ascendentes contra o poder feudal.<\/p>\n<p>A nova t\u00e1ctica exigia a subordina\u00e7\u00e3o a um comando \u00fanico. (N\u00e3o podemos, aqui, deixar de fazer o paralelo entre o fortalecimento do poder do rei, apoiado pela burguesia ascendente e o comando \u00fanico em campanha, O poder feudal era um poder descentralizado, mais ou menos dividido entre os senhores. Os ex\u00e9rcitos feudais eram hostes de diferentes senhores; as batalhas da cavalaria feudal rapidamente se transformavam num somat\u00f3rio de recontros.)<\/p>\n<p>A nova t\u00e1ctica exigia a disciplina das marchas e dos acampamentos, a escolha cuidada do terreno e do dispositivo e o h\u00e1bil emprego das tropas.<\/p>\n<p>Era o progresso t\u00e1ctico da peonagem (infantaria) e das armas de arremesso e a decad\u00eancia da cavalaria medieval.<\/p>\n<p>Mas estas profundas mudan\u00e7as da t\u00e1ctica militar n\u00e3o foram pura consequ\u00eancia de um progresso interno, aut\u00f3nomo, da arte militar, com base no aparecimento de novos materiais de guerra, por exemplo. Elas foram um produto do surgimento de novas classes sociais, desenvolvimento da burguesia, da produ\u00e7\u00e3o artesanal, da luta de classe entre a nobreza territorial, latifundi\u00e1ria e as classes n\u00e3o privilegiadas, da luta armada que estas classes tiveram de travar contra as for\u00e7as do Estado feudal.<\/p>\n<p>Se a t\u00e1ctica de \u00abp\u00e9 terra\u00bb surge, antes, na Inglaterra n\u00e3o \u00e9 por acaso. Ela corresponde ao ascenso das camadas burguesas da sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O facto da pr\u00f3pria cavalaria portuguesa combater apeada na batalha de \u00abp\u00e9 em terra\u00bb n\u00e3o nos deve induzir em erro sobre a perman\u00eancia da cavalaria medieval. A nossa cavalaria era empregada como infantaria, n\u00e3o usava lan\u00e7as de 4 metros nem pesadas armaduras. Era uma cavalaria de cavaleiros-vil\u00f5es, cavaleiros-burgueses. A pr\u00f3pria cavalaria inimiga, nas batalhas de Trancoso e Aljubarrota, por exemplo, viu-se obrigada a apear-se. Os cavaleiros entregavam os cavalos aos seus pajens e cortavam as lan\u00e7as para combater as tropas portuguesas. Mostravam, assim, que receavam atacar a cavalo (o que caracterizava, precisamente, o poder da cavalaria feudal) e ser derrubado pelos pe\u00f5es, pela tropa apeada. Os cavaleiros feudais eram, deste modo, obrigados a aceitar as condi\u00e7\u00f5es de combate impostas pelo ex\u00e9rcito burgu\u00eas e popular, mas em condi\u00e7\u00f5es desvantajosas, pois a cavalaria feudal combatia a p\u00e9, com lan\u00e7as improvisadas, pesadas armaduras e reduzida mobilidade.<\/p>\n<p>A cavalaria a p\u00e9 significa o predom\u00ednio da infantaria, das armas e armaduras ligeiras, das armas de tiro, fruto dos progressos do trabalho artesanal, manobradas pelos homens das mil\u00edcias municipais (antepassados das tropas do contingente dos ex\u00e9rcitos de conscri\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>A cavalaria a p\u00e9 era a cavalaria transformada em infantaria.<\/p>\n<p>Nuno Alvares foi o primeiro chefe militar que entre n\u00f3s fez batalha de \u00abp\u00e9 terra\u00bb e venceu (Fern\u00e3o Lopes).<\/p>\n<p>A t\u00e1ctica do \u00abp\u00e9 terra\u00bb surgiu do pr\u00f3prio car\u00e1cter social, de classe, da Revolu\u00e7\u00e3o de 1383-85: as classes n\u00e3o privilegiadas n\u00e3o dispunham de cavalaria para opor aos nobres.<\/p>\n<p>Depois da insurrei\u00e7\u00e3o de 1383 as classes populares, por todo o Portugal, combatiam os nobres, espontaneamente, de \u00abp\u00e9 terra\u00bb: Quando o conde de Viana saiu com quarenta de cavalo do castelo de Penela \u00abpara tomar mantimentos contra a vontade dos seus donos\u00bb, \u00abjuntaram-se contra ele os das aldeias e comarcas de redor para lhes defender todos p\u00e9 terra\u00bb.<\/p>\n<p>\u00abEmborilando-se eles com eles remessaram-lhe o cavalo e caiu com ele em terra; e foi um vil\u00e3o rijamente que chamavam de alcunha Caspirre e cortou-lhe a cabe\u00e7a e assim morreu. E os seus, como o viram morto, fugiram todos e os da vila tomaram logo voz por Portugal\u00bb.<\/p>\n<p>Esta descri\u00e7\u00e3o d\u00e1-nos uma imagem correcta do que era a t\u00e1ctica de \u00abp\u00e9 em terra\u00bb empregada pelos portugueses, em Atoleiros, Trancoso, Aljubarrota. \u00c9 de admitir que Nuno Alvares Pereira (e alguns dos seus companheiros) tenha tido conhecimento da t\u00e1ctica de \u00abp\u00e9 em terra\u00bb, do emprego da infantaria, antes de 1383. Com efeito, j\u00e1 h\u00e1 dezenas de anos que os ingleses empregavam a infantaria e os archeiros contra a cavalaria feudal. A Guerra dos Cem Anos deu aos ingleses grande prest\u00edgio na arte militar. Tropas inglesas estiveram em Portugal no reinado de D. Fernando. Nuno Alvares Pereira disporia, assim, de uma base de conhecimentos te\u00f3ricos que lhe teria permitido tirar o maior aproveitamento do modo espont\u00e2neo como os camponeses combatiam os cavaleiros feudais, os senhores dos castelos.<\/p>\n<p>O modo de combater a cavalaria feudal de \u00abp\u00e9 em terra\u00bb surgiu espontaneamente entre os nossos camponeses como ter\u00e1 surgido em Inglaterra, em condi\u00e7\u00f5es de luta social que teriam as suas semelhan\u00e7as.<\/p>\n<p>Nuno Alvares Pereira n\u00e3o tinha outra alternativa eficaz para o emprego das tropas e dos poucos meios de que dispunha. (Quando falamos de Nuno Alvares Pereira, grande capit\u00e3o, n\u00e3o devemos esquecer os chefes militares seus companheiros e entre estes, os chefes militares burgueses.)<\/p>\n<p>Nuno Alvares Pereira soube ligar a t\u00e1ctica de \u00abp\u00e9 em terra\u00bb, ao estudo cuidado do terreno e ao seu h\u00e1bil aproveitamento, obrigando o inimigo a adoptar um dispositivo de ataque que n\u00e3o lhe permitisse aproveitar toda a sua superioridade, como por exemplo, estreitando a frente de combate, como o fez em Aljubarrota.<\/p>\n<p>Os combates que Nuno \u00c1lvares Pereira travou foram, em geral, contra um inimigo muito superior em n\u00famero e armamento. Essas circunst\u00e2ncias adversas exigiam a nova t\u00e1ctica, adequada aos meios de que as for\u00e7as populares dispunham, e um elevado moral dos combatentes. Desse elevado moral deram os portugueses sobejas provas.<\/p>\n<p>Ele alicer\u00e7ava-se na justi\u00e7a da sua causa.<\/p>\n<p>Nuno Alvares empregou uma t\u00e1ctica revolucion\u00e1ria numa guerra que, para a burguesia e para as classes populares, era uma verdadeira guerra revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>&#8211; x &#8211;<\/p>\n<p>Mas para Nuno Alvares, membro destacado da classe nobre, a guerra pela independ\u00eancia nacional n\u00e3o era simultaneamente uma guerra revolucion\u00e1ria. Nuno Alvares Pereira foi o maior chefe militar da Revolu\u00e7\u00e3o de 1383-85. De uma coragem ind\u00f3mita ele arriscou constantemente a vida nas batalhas da Revolu\u00e7\u00e3o. Mas os objectivos da sua luta, para al\u00e9m da defesa da independ\u00eancia nacional, n\u00e3o eram muitas vezes os mesmos, que os da burguesia.<\/p>\n<p>Em 1395 Nuno Alvares pretende constituir seus vassalos alguns seus companheiros de armas e amigos, ao que se op\u00f5em D. Jo\u00e3o I e os grandes burgueses, cujos representantes faziam parte do governo do rei. Trata-se de um verdadeiro afrontamento de classe entre o condest\u00e1vel, de um lado, e o rei e a burguesia, do outro. Para Nuno Alvares a guerra n\u00e3o podia, pois, ter um car\u00e1cter social revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; x &#8211;<\/p>\n<p>Em estreita liga\u00e7\u00e3o com a t\u00e1ctica de p\u00e9 em terra e com o emprego de armas de arremesso o ex\u00e9rcito portugu\u00eas organizava defensivamente o terreno, criando obst\u00e1culos (fossos, trincheiras, abate de \u00e1rvores, pali\u00e7adas) \u00e0 penetra\u00e7\u00e3o do inimigo com o fim de lhe retardar os movimentos, quer da cavalaria, quer das tropas apeadas, e ainda para o fixar debaixo do tiro dos besteiros e archeiros.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o do terreno, ou seja, escavar trincheiras e fossos, abater \u00e1rvores, construir pali\u00e7adas, \u00e9 um trabalho humilde que s\u00f3 poderia ser feito por homens pertencentes \u00e0s classes populares. De novo se evidencia o car\u00e1cter popular do ex\u00e9rcito portugu\u00eas.<\/p>\n<p>A BATALHA<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a invas\u00e3o de Portugal pela Beira Alta, a 8 de Julho, e conhecida a 13 em Abrantes, os movimentos estrat\u00e9gicos das forcas portuguesas (as hostes de D. Jo\u00e3o I e de Nuno \u00c1lvares Pereira) s\u00e3o feitos com o objectivo de, conhecida com seguran\u00e7a a linha de penetra\u00e7\u00e3o do inimigo, a interceptarem, obrigando-o ao combate. A batalha foi imposta pelos portugueses.<\/p>\n<p>O combate foi travado duas l\u00e9guas a norte da aldeia de Aljubarrota.<\/p>\n<p>No dia 12 de Agosto os castelhanos estavam provavelmente em Leiria e os portugueses em Porto de M\u00f3s. Nestes pontos estacionaram os ex\u00e9rcitos.<\/p>\n<p>Nuno \u00c1lvares, a 13 de Agosto saiu em reconhecimento do inimigo e deve ter escolhido nesse reconhecimento a posi\u00e7\u00e3o que no dia 14 viria a ocupar para cortar a marcha dos castelhanos. A posi\u00e7\u00e3o era situada num pequeno planalto a sul da ribeira de Calvaria, que podia ser atravessada a vau sem grande dificuldade. Ladeavam a posi\u00e7\u00e3o os ribeiros do vale de Madeiros e do vale da Mata, respectivamente \u00e0 esquerda e \u00e0 direita de quem est\u00e1 voltado para norte.<\/p>\n<p>O ex\u00e9rcito portugu\u00eas ocupou o lado norte do pequeno planalto o qual apresenta muitos espor\u00f5es praticamente inacess\u00edveis. Entre dois deles passava a estrada por onde os castelhanos haviam de vir. De forma geral, s\u00f3 se pode subir da v\u00e1rzea pantanosa da ribeira da Calvaria para esse pequeno planalto pelos vales que o ladeiam.<\/p>\n<p>Estas condi\u00e7\u00f5es do terreno limitavam muito a frente em que o inimigo podia lan\u00e7ar o ataque e ainda permitiam que ele fosse batido de flanco, por tiros cruzados de atiradores (besteiros e archeiros) postados nos espor\u00f5es e colocados nas alas esquerda e direita.<\/p>\n<p>As encostas dos flancos eram impr\u00f3prias para o emprego da cavalaria pesada de Castela.<\/p>\n<p>\u00c0s dez horas (solares) da manh\u00e3 do dia 14, os portugueses estavam instalados na posi\u00e7\u00e3o sobre a ribeira de Calvaria. Ao meio-dia, a testa da coluna castelhana \u00abchega acerca dos portugueses\u00bb a 1250 metros na crista da encosta fronteira.<\/p>\n<p>Reconhecendo a for\u00e7a da posi\u00e7\u00e3o portuguesa, o ex\u00e9rcito castelhano decide lade\u00e1-la pelo oeste e \u00e0s 13 horas estaciona onde hoje existe a povoa\u00e7\u00e3o de Calvaria, que era vis\u00edvel da posi\u00e7\u00e3o portuguesa.<\/p>\n<p>Em face do movimento do inimigo, o ex\u00e9rcito portugu\u00eas come\u00e7a a abandonar a primeira posi\u00e7\u00e3o. Inverte a frente e desloca-se para o sul o suficiente para assegurar o espa\u00e7o de manobra \u00e0 retaguarda e \u00e0 carriagem, indo ocupar uma nova posi\u00e7\u00e3o mais a sul.<\/p>\n<p>\u00abPassou a vanguarda pela retaguarda\u00bb relata Fern\u00e3o Lopes. Quer dizer, a retaguarda abriu para dar passagem \u00e0 vanguarda, mas as alas n\u00e3o cruzaram, ficaram dos lados em que estavam na 1\u00aa posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Andados 2100 metros foi encontrada uma boa posi\u00e7\u00e3o: o flanco esquerdo coberto por bons obst\u00e1culos; o flanco direito apoiado num \u00e1spero declive.<\/p>\n<p>\u00c0s 12 e 45 come\u00e7a a instala\u00e7\u00e3o da frente. Duas horas depois a nova posi\u00e7\u00e3o estava ocupada.<\/p>\n<p>\u00c0s 15, o trem estava em posi\u00e7\u00e3o, 1500 metros a sul da primeira posi\u00e7\u00e3o que ocupara. A frente do ex\u00e9rcito portugu\u00eas estava, agora, virada ao sul.<\/p>\n<p>Alcide de Oliveira, no seu livro \u00abAljubarrota Dissecada\u00bb, 1979, prop\u00f5e a seguinte fita de tempo para os movimentos dos dois ex\u00e9rcitos, no dia 14 de Agosto, at\u00e9 ao in\u00edcio da batalha:<\/p>\n<p>EX\u00c9RCITO DE PORTUGAL<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td>Partida de Porto M\u00f3s<\/td>\n<td>05:15<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Chegada \u00e0 1\u00aa posi\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td>06:45<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Fim da instala\u00e7\u00e3o, come\u00e7o de armar cavaleiros, alocu\u00e7\u00f5es \u00e0s tropas<\/td>\n<td>10:00<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Aparecimento dos castelhanos no horizonte<\/td>\n<td>11:45<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Paragem da testa da coluna castelhana em Jardoeira (a norte da rib. de Calvaria)<\/td>\n<td>12:00<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Recome\u00e7o da marcha da col. castelhana, inflectindo para oeste<\/td>\n<td>12:15<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Come\u00e7o do abandono da 1\u00aa posi\u00e7\u00e3o pela tropa portuguesa<\/td>\n<td>12:30<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Come\u00e7o da ocupa\u00e7\u00e3o da 2\u00aa posi\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td>12:45<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Fim da instala\u00e7\u00e3o na 2\u00aa posi\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td>14:45<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Chegada do refor\u00e7o dos cavaleiros da Beira<\/td>\n<td>15:00<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Di\u00e1logo com os parlamentares do rei de Castela<\/td>\n<td>16:30<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Recep\u00e7\u00e3o da espada mandada pelo conde D. Jo\u00e3o Afonso Teles, que vinha na hoste de Castela, a Nuno Alvares<\/td>\n<td>17:00<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Deser\u00e7\u00e3o de um grupo da seguran\u00e7a do trem<\/td>\n<td>18:15<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>EX\u00c9RCITO DE CASTELA<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td>Chegada da testa \u00e0 Jardoeira<\/td>\n<td>12:00<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Chegada da testa \u00e0 Calvaria e paragem<\/td>\n<td>13:00<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Prosseguimento da marcha ap\u00f3s reconhecimento da base de ataque<\/td>\n<td>14:00<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Come\u00e7o da ocupa\u00e7\u00e3o da base de ataque<\/td>\n<td>14:30<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>O rei chega a Ch\u00e3o de Feira (a sul de Calvaria)<\/td>\n<td>15:45<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Sa\u00edda dos parlamentares<\/td>\n<td>16:00<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Regresso e in\u00edcio do Conselho<\/td>\n<td>17:00<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Chegada da testa do trem (trons)<\/td>\n<td>17:15<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Apear e recolher das montadas<\/td>\n<td>17:30<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Fim da reuni\u00e3o do Conselho<\/td>\n<td>17:45<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Fim da instala\u00e7\u00e3o a p\u00e9 na zona de partida da 1\u00aa batalha (1\u00b0 escal\u00e3o de ataque)<\/td>\n<td>18:45<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Recolha das montadas da 2\u00aa batalha (2\u00ba escal\u00e3o de ataque), chegada da testa da coluna de besteiros e lanceiros (tropa apeada do 1\u00ba escal\u00e3o de marcha) ao escurecer depois das 19:15 (n\u00e3o chegam a tempo do combate)<\/td>\n<td>ap\u00f3s<br \/>\n19:15<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&#8211; x &#8211;<\/p>\n<p>As tropas que se iriam defrontar eram muito diferentes em efectivos. Os dados dispon\u00edveis correspondem a avalia\u00e7\u00f5es prov\u00e1veis:<\/p>\n<p>A hoste portuguesa ter\u00e1 a seguinte composi\u00e7\u00e3o aproximada:<\/p>\n<p>MONTADOS<\/p>\n<table style=\"font-family: inherit; font-size: inherit; font-weight: inherit;\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>Cavaleiros portugueses (lan\u00e7as)<\/td>\n<td>1 100<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Cavaleiros ingleses e gasc\u00f5es<\/td>\n<td>100<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Besteiros (escolta do rei)<\/td>\n<td>100<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Archeiros ingleses<\/td>\n<td>100<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>APEADOS<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td>Homens de armas (lan\u00e7as \u00abn\u00e3o bem corrigidas\u00bb)<\/td>\n<td>500<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Besteiros<\/td>\n<td>700<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Pe\u00f5es<\/td>\n<td>3 900<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>SOMA DOS COMBATENTES<\/td>\n<td>6 500<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>N\u00e3o combatentes (cerca de 1\/3 dos combatentes)<\/td>\n<td>2 500<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>TOTAL<\/td>\n<td>9 000<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>O estandarte indicava a localiza\u00e7\u00e3o do chefe que devia ser visto pelos combatentes. Capturar ou matar o chefe era um objectivo de primeira prioridade do inimigo. Por isso o chefe devia ser bem protegido. Tinha a sua escolta (do rei, do condest\u00e1vel) que era uma pequena for\u00e7a militar montada. A escolta de D. Jo\u00e3o I era constitu\u00edda por 100 besteiros a cavalo. Os n\u00e3o combatentes n\u00e3o estavam desarmados, e quando a situa\u00e7\u00e3o o impunha combatiam.<\/p>\n<p>Os efectivos nacionais seriam acompanhados de 200 carros, 1300 az\u00eamolas de carga e tiro e cerca de 1500 sol\u00edpedes de sela.<\/p>\n<p>Os valores propostos para os efectivos de pessoal s\u00e3o aproximados, com um erro de 500 a 1000.<\/p>\n<p>Do estudo do dispositivo prov\u00e1vel e do terreno conclui-se que admitir efectivos superiores conduziria a uma aglomera\u00e7\u00e3o de pessoal incompat\u00edvel com as dimens\u00f5es da posi\u00e7\u00e3o e a densidade de ocupa\u00e7\u00e3o incoerente com as habituais na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que diversos autores admitem, o n\u00famero de estrangeiros n\u00e3o seria superior a 200 (de acordo com Fern\u00e3o Lopes).<\/p>\n<p>\u00abNos portugueses a protec\u00e7\u00e3o consistia apenas numa esp\u00e9cie de elmo que lhes cobria a cabe\u00e7a e o pesco\u00e7o \u2014 os bacinetes de camal, e uma indument\u00e1ria de couro ou de pano acolchoado para defesa do tronco, chamado solha ou laudel.<\/p>\n<p>\u00abOs privilegiados possu\u00edam cotas de malha de ferro \u2014 as panceiras, e frald\u00f5es para proteger, respectivamente, o ventre e o corpo da cintura para baixo.<\/p>\n<p>\u00abArmaduras de chapa de ferro n\u00e3o foram utilizadas pelos portugueses pelo que nada distinguia os cavaleiros dos outros combatentes.<\/p>\n<p>\u00abPor armamento fundamental tinham a lan\u00e7a, a facha de ferro e a espada.<\/p>\n<p>\u00abA peonagem trazia chu\u00e7os, machados, dardos, fundas, etc\u00bb (Alcide de Oliveira, ob. cit.)<\/p>\n<p>Do lado de Castela seriam:<\/p>\n<p>MONTADOS<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td>Cavaleiros (lan\u00e7as)<\/td>\n<td>5 300<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Cavaleiros franceses (lan\u00e7as)<\/td>\n<td>800<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Besteiros (escolta do rei, do condest\u00e1vel, etc.)<\/td>\n<td>500<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Ginetes (cavalaria ligeira)<\/td>\n<td>1 900<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>APEADOS<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td>Besteiros<\/td>\n<td>7 500<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Pe\u00f5es<\/td>\n<td>15 000<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>SOMA DOS COMBATENTES<\/td>\n<td>31 000<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>N\u00e3o combatentes (1\/3 dos combatentes)<\/td>\n<td>11 000<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>TOTAL<\/td>\n<td>42 000<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Das guarni\u00e7\u00f5es e pra\u00e7as portuguesas que estavam por Castela deveriam vir 500 lan\u00e7as, 300 besteiros e 1000 pe\u00f5es.<\/p>\n<p>O n\u00famero de castelhanos era tal que n\u00e3o se deslocavam numa s\u00f3 coluna de marcha, mas em duas, uma coluna montada e outra apeada.<\/p>\n<p>A coluna montada compreendia 17 400 combatentes e 6000 n\u00e3o combatentes. A coluna apeada 13 600 combatentes e 5000 n\u00e3o combatentes.<\/p>\n<p>A coluna de marcha do ex\u00e9rcito portugu\u00eas necessitava de 3 \u00bd a 4 horas para se desenvolver de modo a ocupar a posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cada uma das colunas dos castelhanos de cinco horas e meia.<\/p>\n<p>Quando a batalha teve in\u00edcio, ao cair da tarde, as tropas castelhanas ainda estavam a chegar \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o. A 2\u00aa coluna de marcha, ainda na Azoia, a norte do local da batalha, quando soube da derrota, retomou o caminho de Castela.<\/p>\n<p>DISPOSITIVOS<\/p>\n<p>Do lado portugu\u00eas a frente teria 350 a 400 metros, do lado castelhano 750 metros, porque o terreno, o pequeno planalto se espraiava para sul da actual capela de S. Jorge (mandada construir por Nuno \u00c1lvares Pereira no local onde estivera a sua bandeira durante a batalha). O perfil longitudinal do terreno descia do sul para norte. \u00c0 frente da posi\u00e7\u00e3o portuguesa foram criados obst\u00e1culos: \u2014 uma linha de abatises diante das faces (alas) que flanqueavam a vanguarda para garantir uma boa actua\u00e7\u00e3o (e defesa) dos besteiros e archeiros e evitar que sobre a press\u00e3o do inimigo aqueles fossem atirados para as encostas dos vales que ladeavam a posi\u00e7\u00e3o; \u2014 uma vala frontal ou fosso de uns 300 a 400 metros para contrariar a progress\u00e3o inimiga e o obrigar a combater debaixo do tiro dos besteiros e archeiros das alas. H\u00e1 ainda not\u00edcia de que a posi\u00e7\u00e3o portuguesa seria protegida por uma pali\u00e7ada de madeira, o arraial de tavoado da Cumieira de Aljubarrota doado em 15 de Agosto de 1385 por D. Jo\u00e3o I.<\/p>\n<p>Quanto ao que se julgou ser \u00abcovas de lobo\u00bb encontradas em escava\u00e7\u00f5es feitas no fim da d\u00e9cada de 50, as suas dimens\u00f5es e disposi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 frente de combate, bem como o tempo e pessoal que havia dispon\u00edvel para as abrir, levaram Alcide de Oliveira a uma investiga\u00e7\u00e3o no local, da qual concluiu: \u00abN\u00e3o se trata, repetimos, e obras de organiza\u00e7\u00e3o do terreno mas sim covas feitas pelos oleiros ou telheiros da \u00e9poca para colheita de barro, e que o Condest\u00e1vel aproveitou para apoiar a asa oriental da sua ala esquerda, condenada a instalar-se na aba do espor\u00e3o de S\u00e3o Jorge cujo terreno possu\u00eda um valor militar manifestamente mais fraco.<\/p>\n<p>\u00abEra um obst\u00e1culo ocasional, inteligentemente aproveitado e que bastaria dissimular&#8230; As covas foram, pois, uma determinante da escolha da posi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o uma sua consequ\u00eancia.\u00bb<\/p>\n<p>Os obst\u00e1culos criados ou aproveitados diminu\u00edam a frente de ataque do ex\u00e9rcito castelhano.<\/p>\n<p>O dispositivo portugu\u00eas [Figura 1] constitu\u00eda (aproximadamente) um quadrado, tendo a frente e a retaguarda cerca de 350 metros de extens\u00e3o e os lados cerca de 400 metros. \u00c0 frente, a vanguarda, sob o comando de Nuno \u00c1lvares Pereira era formada por 600 lan\u00e7as (cavalaria apeada) dispostas em tr\u00eas linhas, mais 50 pe\u00f5es da escolta do Condest\u00e1vel. De cada um dos extremos da vanguarda estava formada uma ala, imediatamente cont\u00edgua \u00e0 vanguarda, formando com ela um corpo \u00fanico, a chamada 1\u00aa batalha, porque era a que estava \u00e0 frente.<\/p>\n<p>As alas tinham a forma de um V com o v\u00e9rtice voltado para o inimigo e os lados do V guarnecidos por tropas. Eram como que dois \u00abbaluartes\u00bb (em linguagem da fortifica\u00e7\u00e3o permanente), salientes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 linha da vanguarda. Os salientes teriam uma extens\u00e3o de 100 a 130 metros. Estes salientes permitiam que, pelo lado de dentro, os besteiros e archeiros fizessem tiro cruzado sobre o inimigo \u00e0 frente da vanguarda do ex\u00e9rcito portugu\u00eas quando aquele assaltasse a posi\u00e7\u00e3o portuguesa. Do lado de fora, o saliente permitia a defesa contra os ataques de flanco sobre a vanguarda do ex\u00e9rcito portugu\u00eas.<\/p>\n<p>A ala direita, do lado ocidental, era constitu\u00edda por 200 lan\u00e7as (das quais 100 estrangeiras) 100 archeiros ingleses, 100 besteiros e 750 pe\u00f5es.<\/p>\n<p>A ala esquerda, a ala dos Namorados, do lado oriental, era formada por 200 lan\u00e7as, 200 besteiros e 650 pe\u00f5es,<\/p>\n<p>As alas eram formadas em quatro linhas: besteiros na 1\u00aa, pe\u00f5es nas 2\u00aa e 3\u00aa e cavaleiros (apeados) na 4\u00aa. Os besteiros atiram, quer colocando-se \u00e0 frente (e recolhendo-se ao quadrado no momento porventura necess\u00e1rio), quer pelos intervalos entre as lan\u00e7as.<\/p>\n<p>Atr\u00e1s da vanguarda e suas duas alas (a 1\u00aa batalha), a cerca de 200 metros, no interior do quadrado, formava a retaguarda, cujo alinhamento era paralelo ao da vanguarda. Ocupando os lados do quadrado, duas guardas de flanco no lado oeste, duas guardas de flanco no lado este.<\/p>\n<p>A retaguarda e as guardas de flanco, laterais, constitu\u00edam a 2\u00aa batalha. Era comandada pelo rei D. Jo\u00e3o I.<\/p>\n<p>A 2\u00aa batalha era formada por 700 lan\u00e7as (apeada), 300 besteiros (dos quais 100 da escolta do rei) e 1050 pe\u00f5es.<\/p>\n<p>A retaguarda era formada por tr\u00eas linhas sendo a 1\u00aa de pe\u00f5es, 250, e as 2\u00aa e 3\u00aa de lan\u00e7as, 500. As guardas de flanco eram formadas pelos restantes combatentes da 2\u00aa batalha, dispostos em tr\u00eas linhas, sendo a linha interior e a linha exterior (em rela\u00e7\u00e3o ao quadrado) ocupadas pelos pe\u00f5es. Em cada flanco 100 lan\u00e7as, 100 besteiros e 400 pe\u00f5es.<\/p>\n<p>A miss\u00e3o das guardas de flanco era n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o permitir ao inimigo que entrasse no quadrado pelos lados perpendiculares \u00e0 frente, isto \u00e9, pelos flancos do dispositivo defensivo, como tamb\u00e9m fechar o cerco ao inimigo e cair sobre ele, caso este tivesse penetrado no quadrado rompendo a frente, a vanguarda.<\/p>\n<p>Atr\u00e1s da retaguarda, a uns 150 metros, a carriagem ou o \u00abcurral\u00bb fecham o quadrado. Compreendia o trem de acompanhamento. Era guarnecida por 200 besteiros e 1400 pe\u00f5es. Os carros estacionados, uns junto dos outros, com os animais desatrelados, os pr\u00f3prios cavalos e muares de reserva constitu\u00edam um obst\u00e1culo \u00e0 penetra\u00e7\u00e3o do inimigo por detr\u00e1s do dispositivo.<\/p>\n<p>No total as nossas tropas combatentes estavam todas instaladas na posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A miss\u00e3o da vanguarda era a de suportar o choque principal do assalto inimigo. Nela formavam os melhores combatentes.<\/p>\n<p>A miss\u00e3o principal das alas e das guardas de flanco foi referida atr\u00e1s.<\/p>\n<p>A miss\u00e3o da retaguarda era a de refor\u00e7ar a vanguarda, colmatar as brechas feitas pelo inimigo na frente e, se poss\u00edvel, o contra-ataque.<\/p>\n<p>Alguns cavaleiros inimigos, apresentando-se como parlament\u00e1rios, tentaram reconhecer a posi\u00e7\u00e3o portuguesa antes do combate. Nuno Alvares Pereira repeliu-os. Mas devem ter verificado que a posi\u00e7\u00e3o portuguesa era muito forte. Quando o rei de Castela reuniu o conselho para decidir sobre dar ou n\u00e3o dar batalha, as opini\u00f5es dividem-se em tr\u00eas correntes:<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 n\u00e3o dar batalha mas conservar-se no terreno aguardando a defec\u00e7\u00e3o dos portugueses, desmoralizados perante o grande n\u00famero de inimigos e esgotados pela marcha de aproxima\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o e por nela aguardarem h\u00e1 tantas horas, debaixo de sol escaldante o ataque do inimigo;<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 n\u00e3o dar batalha e prosseguir a marcha sobre Lisboa, objectivo que, conquistado, significaria a conquista do reino;<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 dar batalha imediatamente.<\/p>\n<p>Os cavaleiros mais experientes, que tinham estado noutras batalhas, eram de opini\u00e3o que n\u00e3o se travasse combate, por v\u00e1rias raz\u00f5es:<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 a posi\u00e7\u00e3o portuguesa era muito forte;<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 as alas tinham dificuldade em tomar parte no combate porque a frente da posi\u00e7\u00e3o era estreita e eles eram obrigados a desdobrar-se sobre as encostas que ladeavam a posi\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 era o cair da tarde e eram necess\u00e1rias ainda horas para que as tropas se pudessem ordenar sobre a posi\u00e7\u00e3o e estavam cansadas da marcha de aproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas os cavaleiros mais inexperientes e arrogantes, entre os quais se encontravam os nobres portugueses, menosprezando o valor e a posi\u00e7\u00e3o defensiva do inimigo, bem como as condi\u00e7\u00f5es do terreno, defenderam que se devia dar batalha, pois era manifesta a inferioridade portuguesa. H\u00e1 um documento escrito pelo rei de Castela, poucos dias ap\u00f3s a batalha, em que ele afirma ter dado ordens para que n\u00e3o se ferisse o combate. Mas os cavaleiros da vanguarda (entre os quais se destacava o conde Jo\u00e3o Afonso Telo, irm\u00e3o de D. Leonor Teles) iniciaram o ataque pouco depois das seis horas da tarde. H\u00e1 aqui que apontar a falta de unidade de comando do lado de Castela o que, para al\u00e9m das fracas qualidades pessoais do rei, n\u00e3o \u00e9 de estranhar num ex\u00e9rcito de tipo senhorial, constitu\u00eddo por hostes do rei, dos grandes senhores e das ordens militares.<\/p>\n<p>Que os castelhanos atacassem era o que pretendia o comando portugu\u00eas. Os movimentos estrat\u00e9gicos e t\u00e1cticos da tropa portuguesa haviam tido o objectivo de cortar o caminho ao inimigo, provocando a batalha.<\/p>\n<p>D. Jo\u00e3o I e Nuno Alvares apresentavam a sua hoste ao invasor, provocando-o.<\/p>\n<p>A manobra de contorno, por oeste, da 1\u00aa posi\u00e7\u00e3o portuguesa amea\u00e7ou deitar por terra o ambicioso plano do comando portugu\u00eas. Mas este insistiu, fez inverter a frente do seu ex\u00e9rcito e de novo se apresentou aos castelhanos com o objectivo de lhe cortar a penetra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nuno Alvares Pereira tinha consci\u00eancia da despropor\u00e7\u00e3o dos efectivos e dos seus efeitos sobre a moral das tropas: nos dias que precederam a batalha procurou evitar que os seus homens conhecessem a enorme superioridade do inimigo, para que n\u00e3o desmoralizassem. No dia 14 de Agosto, D. Jo\u00e3o I e Nuno Alvares Pereira andavam constantemente entre os seus homens, moralizando-os. De facto, o moral dos portugueses, de t\u00e3o grande import\u00e2ncia no desfecho da batalha, era grande: quando as tropas viram o inimigo contornar a 1\u00aa posi\u00e7\u00e3o, furtando-se ao combate, os portugueses exclamaram: \u00abo pesar do demo, j\u00e1 se v\u00e3o e n\u00e3o querem pelejar\u00bb.<\/p>\n<p>&#8211; x &#8211;<\/p>\n<p>Enquanto o dispositivo portugu\u00eas era defensivo, o castelhano era atacante. A frente de ataque tinha cerca de 750 metros. \u00c0 frente da vanguarda, 16 trons, com 50 bombardeiros (artilharia primitiva) e uma linha de 200 besteiros, para uma ac\u00e7\u00e3o de fogo e tiro das bestas, precedendo o ataque da cavalaria.<\/p>\n<p>A 1\u00aa linha de batalha era formada por 1600 lan\u00e7as na vanguarda e 700 em cada uma das alas. As. alas estavam alinhadas com a vanguarda. A 1\u00aa linha estava dividida em 2 escal\u00f5es. O escal\u00e3o de reserva tinha uma profundidade de 120 metros e postava-se 150 metros atr\u00e1s da vanguarda. 100 metros atr\u00e1s da reserva a 2\u00aa linha formava a massa de manobra. Era constitu\u00edda por 3000 lan\u00e7as (cavalaria pesada) e 2000 ginetes (cavalaria ligeira). O rei doente e a sua escolta de 150 homens a cavalo n\u00e3o se integraram no dispositivo. O total era de 8250 combatentes. O comando do ex\u00e9rcito castelhano, ao verificar que o inimigo combatia a p\u00e9 e de que era pequena a frente de que dispunha, ordenou que a cavalaria pesada apeasse e combatesse a p\u00e9.<\/p>\n<p>Os ginetes, massa de manobra, n\u00e3o apeavam, Avan\u00e7avam a galope, lan\u00e7avam dois, tr\u00eas dardos sobre o inimigo, espadeiravam e, se estes n\u00e3o cediam, retiravam.<\/p>\n<p>Se compararmos o n\u00famero de combatentes do dispositivo defensivo portugu\u00eas e do dispositivo atacante castelhano, ou seja, 6500 contra 8250, verificamos que Nuno \u00c1lvares Pereira, pela escolha da posi\u00e7\u00e3o e pelo tempo de manobra para ocupar o dispositivo conjugado com o adiantado do dia, reduziu muito a despropor\u00e7\u00e3o dos efectivos combatentes e a superioridade estrat\u00e9gica do ex\u00e9rcito castelhano.<\/p>\n<p>&#8211; x &#8211;<\/p>\n<p>O ataque foi iniciado a p\u00e9, o que representava uma grande desvantagem para a cavalaria atacante cujas lan\u00e7as (de 4 metros) haviam sido cortadas e cujas pesadas armaduras lhe reduziam a mobilidade.<\/p>\n<p>Os trons deram o sinal de partida (e fizeram apenas tr\u00eas mortos entre a hoste portuguesa), mas rapidamente ficaram inoperativos, rebentaram.<\/p>\n<p>A 300 metros da linha portuguesa a cavalaria castelhana acelera o passo.<\/p>\n<p>A vanguarda portuguesa, bem alinhada, inicia um movimento lento, de avan\u00e7o, sobre uma dezena de metros. Por raz\u00f5es de ordem psicol\u00f3gica a vanguarda na defensiva e no combate apeado n\u00e3o aguardava o inimigo a p\u00e9 firme. No \u00faltimo momento avan\u00e7ava \u00abpasso a passo\u00bb. A cavalaria castelhana depara com o fosso \u00e0 sua frente. Progride a custo sob o tiro dos besteiros e archeiros do ex\u00e9rcito portugu\u00eas. Os homens das filas do interior da massa atacante progrediam sob a protec\u00e7\u00e3o f\u00edsica dos que junto com eles avan\u00e7avam na periferia dessa massa. A massa atacante perde os seus alinhamentos e dist\u00e2ncias. Torna-se compacta, informe e afunila.<\/p>\n<p>A vanguarda portuguesa avan\u00e7a. Choque. O combate \u00e9 um corpo a corpo \u00e0 lan\u00e7ada e espadeirada.<\/p>\n<p>Os dois blocos de combatentes sofrem press\u00f5es desiguais das suas respectivas retaguardas. A frente portuguesa cede entre o centro e a esquerda, no sector onde se encontra Nuno Alvares Pereira, provavelmente por ter sido em direc\u00e7\u00e3o ao estandarte do Condest\u00e1vel que maior esfor\u00e7o fizeram os castelhanos, pois capturar ou aniquilar o comandante inimigo era um objectivo priorit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Metade das for\u00e7as atacantes entra de rold\u00e3o no quadrado portugu\u00eas, progride em direc\u00e7\u00e3o ao rei. Ent\u00e3o as alas portuguesas dobram-se sobre o inimigo e ficam entre a vanguarda e a retaguarda portuguesas. O rei D. Jo\u00e3o I lan\u00e7a-se sobre o inimigo. As guardas de flanco da 2\u00aa linha portuguesa completam o cerco. Besteiros, archeiros e pe\u00f5es das alas mant\u00eam as suas posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A 2\u00aa linha castelhana, em organiza\u00e7\u00e3o, ao longe, avan\u00e7a.<\/p>\n<p>A vanguarda portuguesa consegue restabelecer a frente. O inimigo que penetrara no quadrado portugu\u00eas \u00e9 cercado, submerge ante a enorme superioridade do n\u00famero de lan\u00e7as, besteiros e pe\u00f5es que o envolvem e \u00e9 esmagado.<\/p>\n<p>Quinhentos castelhanos conseguem escapar ao envolvimento, v\u00eam ao encontro da reserva do seu ex\u00e9rcito ainda n\u00e3o completamente organizada.<\/p>\n<p>Contra-ataque de Nuno Alvares Pereira com o que resta da 1\u00aa linha portuguesa, 2300 homens. Explora\u00e7\u00e3o do sucesso at\u00e9 ao trem do inimigo. A persegui\u00e7\u00e3o \u00e9 feita a cavalo.<\/p>\n<p>Os ginetes de Castela tentam um ataque sobre a retaguarda do quadrado portugu\u00eas mas s\u00e3o repelidos.<\/p>\n<p>O p\u00e2nico gera-se entre os castelhanos: de um lado entre os cavaleiros apeados da 1\u00aa linha, que recuam; do outro, no seio das unidades mais atrasadas na coluna de marcha e que s\u00f3 agora se aproximavam da frente. O dispositivo castelhano n\u00e3o foi restabelecido. Os castelhanos fogem desordenadamente em todas as direc\u00e7\u00f5es, a cavalo e a p\u00e9.<\/p>\n<p>O rei de Castela foge a caminho de Santar\u00e9m.<\/p>\n<p>Os ginetes aguardam a noite para, a coberto dela, retirarem em seguran\u00e7a. Juntam-se-lhe mais de 1000 homens a cavalo.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o rural da regi\u00e3o cai sobre os fugitivos, como sucede sempre que uma guerra \u00e9 nacional e popular. Mata grande n\u00famero deles, sendo de admitir que foram mais os que morreram \u00e0s m\u00e3os dos camponeses (5500) que durante o combate.<\/p>\n<p>Ter\u00e3o sido mortos na batalha cerca de 2500 cavaleiros do ex\u00e9rcito do rei de Castela entre os quais dezenas de grandes fidalgos e, destes, alguns eram portugueses.<\/p>\n<p>A fita do tempo (da batalha) desde a partida para o ataque ter\u00e1 sido aproximadamente a seguinte (A. Oliveira, <i>Aljubarrota Dissecada <\/i>):<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td>Salva de trons e partida do escal\u00e3o de ataque<\/td>\n<td>18:15<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Abordagem da posi\u00e7\u00e3o portuguesa<\/td>\n<td>18:25<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Rotura da frente e come\u00e7o do envolvimento da bolsa<\/td>\n<td>18:30<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Reconstitui\u00e7\u00e3o da vanguarda portuguesa e contra-ataque<\/td>\n<td>18:40<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Debandada da reserva castelhana e fuga do rei<\/td>\n<td>18:45<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\u00daltimo ataque dos ginetes ao curral<\/td>\n<td>18:50<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Fim do aniquilamento na bolsa<\/td>\n<td>18:55<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Explora\u00e7\u00e3o do sucesso e saque do trem castelhano<\/td>\n<td>18:55<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Reagrupamento dos ginetes depois de repelidos (escurecer)<\/td>\n<td>19:10<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Identifica\u00e7\u00e3o dos mortos pelo rei de Portugal at\u00e9 \u00e0s<\/td>\n<td>20:00<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Partida dos ginetes (noite cerrada)<\/td>\n<td>20:25<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Chegada de D. Jo\u00e3o de Castela a Santar\u00e9m<\/td>\n<td>24:00<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Chegada dos ginetes a Santar\u00e9m (15 Agosto)<\/td>\n<td>08:00<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Partida de D. Jo\u00e3o I para Alcoba\u00e7a<\/td>\n<td>16\/Agosto,<br \/>\nmanh\u00e3<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0 h\u00e1bil escolha e organiza\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o portuguesa apenas a vanguarda castelhana p\u00f4de ser empenhada na ac\u00e7\u00e3o principal do combate enquanto do lado portugu\u00eas todos os efectivos foram empenhados. Assim a inferioridade estrat\u00e9gica do ex\u00e9rcito portugu\u00eas foi transformada em superioridade t\u00e1ctica.<\/p>\n<p>A cavalaria portuguesa n\u00e3o se distinguia, praticamente, da infantaria. Estava ligeiramente armada e equipada.<\/p>\n<p>A peonagem da retaguarda sob o comando de D. Jo\u00e3o I (que combateu a p\u00e9) teve papel decisivo no aniquilamento da vanguarda castelhana que havia penetrado no quadrado portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Embora tenha sido poss\u00edvel que os oficiais ingleses presentes em Aljubarrota tenham aconselhado a execu\u00e7\u00e3o da fortifica\u00e7\u00e3o de campanha, o certo \u00e9 que j\u00e1 em 1384 o Condest\u00e1vel, acampado junto a Estremoz, mandara \u00ababrir trincheiras e construir defesas \u00e0 volta do arraial\u00bb. Deve, portanto, considerar-se que a conjuga\u00e7\u00e3o do dispositivo das tropas com as obras de fortifica\u00e7\u00e3o de campanha era j\u00e1 uma aquisi\u00e7\u00e3o da arte militar portuguesa antes de Aljubarrota.<\/p>\n<p>Depois de Aljubarrota, as pra\u00e7as fortes e povoa\u00e7\u00f5es ocupadas por partid\u00e1rios do rei de Castela entregaram-se quase todas.<\/p>\n<p>A esquadra castelhana que pairava diante de Lisboa, aguardando a chegada do ex\u00e9rcito, parte, levando v\u00e1rios fidalgos portugueses, entre os quais alguns que desempenhavam os cargos de Alcaides de castelos ao servi\u00e7o do inimigo.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria de Aljubarrota representou uma viragem decisiva na guerra contra Castela, que se prolongou, entremeada de combates e de tr\u00e9guas, at\u00e9 1411.<\/p>\n<p>CONSIDERA\u00c7\u00d5ES FINAIS<\/p>\n<p>A batalha de Aljubarrota foi uma express\u00e3o concentrada das caracter\u00edsticas pol\u00edticas, socioecon\u00f3micas, militares, morais, da Revolu\u00e7\u00e3o de 1383-85.<\/p>\n<p>Em Aljubarrota esteve bem patente a luta pela independ\u00eancia nacional empreendida pela burguesia, pelas classes populares e por alguns nobres patriotas.<\/p>\n<p>Esteve patente a trai\u00e7\u00e3o a Portugal pela classe dominante de ent\u00e3o, a nobreza territorial e latifundi\u00e1ria, que n\u00e3o hesita, para defender as suas posi\u00e7\u00f5es privilegiadas, a sua riqueza, em pedir o aux\u00edlio da nobreza castelhana, do estrangeiro, comprometendo de modo decisivo a independ\u00eancia da sua P\u00e1tria.<\/p>\n<p>No ex\u00e9rcito castelhano vinham, \u00e0 frente, os maiores senhores da nobreza portuguesa. E foram precisamente estes que, com o maior desprezo pelo ex\u00e9rcito portugu\u00eas, mais incitaram o rei de Castela a dar batalha.<\/p>\n<p>Em Aljubarrota esteve, tamb\u00e9m, patente a luta contra a opress\u00e3o feudal: os humildes componentes do ex\u00e9rcito portugu\u00eas viam, diante de si, nos nobres traidores que estavam com o rei de Castela, os mesmos que os oprimiam, exploravam e violentavam, havia gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A batalha de Aljubarrota \u00e9 o momento mais alto da arte militar de Nuno \u00c1lvares Pereira e dos seus companheiros, dos chefes militares da Revolu\u00e7\u00e3o de 1383-85, uns deles pequenos nobres, outros de origem plebeia (burgueses do campo e da cidade).<\/p>\n<p>Uma arte militar que tinha uma grande inspira\u00e7\u00e3o das lutas populares, que por todo o Portugal eclodiram a partir de Dezembro de 1383, uma arte militar que, fundamentalmente, era a maneira de fazer a guerra das classes sociais ascendentes contra o poder feudal em decad\u00eancia.<\/p>\n<p>Aljubarrota \u00e9 o confronto entre a infantaria portuguesa, de pobre gente, dos ventres ao sol e a aristocr\u00e1tica cavalaria feudal. Aljubarrota imp\u00f4s definitivamente, entre n\u00f3s, o triunfo da infantaria sobre a cavalaria medieval (por esta raz\u00e3o o dia 14 de Agosto foi consagrado como o dia da Infantaria Portuguesa).<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia da consci\u00eancia da justi\u00e7a da guerra est\u00e1 bem patente no moral das tropas portuguesas, no seu esp\u00edrito de sacrif\u00edcio, na serenidade de que deram provas diante de t\u00e3o grande n\u00famero de inimigos, bem montados e armados.<\/p>\n<p>A justi\u00e7a da guerra que os portugueses faziam, alicerce da unidade entre o povo e o ex\u00e9rcito est\u00e1 patente ainda na determina\u00e7\u00e3o de que as popula\u00e7\u00f5es rurais deram provas ao perseguirem e aniquilarem os fugitivos do ex\u00e9rcito castelhano, incluindo os traidores portugueses que com ele tinham vindo a Aljubarrota.<\/p>\n<p>Deve tamb\u00e9m salientar-se a unidade e coes\u00e3o entre os combatentes portugueses. Esta coes\u00e3o e unidade tinham por base objectivos nacionais e sociais comuns; independ\u00eancia da P\u00e1tria, a defesa dos bens e haveres, a limita\u00e7\u00e3o dos privil\u00e9gios dos nobres, a luta contra a opress\u00e3o feudal.<\/p>\n<p>A justi\u00e7a desses objectivos comuns era tamb\u00e9m a base da unidade entre o comando e as tropas. A batalha de Aljubarrota \u00e9 por todas as raz\u00f5es apontadas atr\u00e1s, um marco dos maiores da Hist\u00f3ria de Portugal.<\/p>\n<p>Ela cont\u00e9m, como express\u00e3o concentrada que \u00e9 da Revolu\u00e7\u00e3o de 1383-85, li\u00e7\u00f5es de grande actualidade acerca da luta pela independ\u00eancia nacional, acerca da luta de classes e da guerra.<\/p>\n<p>&#8211; x &#8211;<\/p>\n<p>De todas estas li\u00e7\u00f5es uma das mais pertinentes, neste momento, \u00e9, sem d\u00favida, a da posi\u00e7\u00e3o das classes dominantes face \u00e0 defesa dos seus privil\u00e9gios e \u00e0 independ\u00eancia nacional.<\/p>\n<p>Em 1383-85 a nobreza portuguesa procurou a interven\u00e7\u00e3o da nobreza de Castela na pol\u00edtica portuguesa, oferecendo ao rei castelhano o trono de Portugal e combatendo ao lado das for\u00e7as invasoras.<\/p>\n<p>&#8211; x &#8211;<\/p>\n<p>A classe dominante de hoje, a burguesia monopolista e latifundi\u00e1ria foi profundamente abalada, no seu poder econ\u00f3mico e pol\u00edtico, depois do 25 de Abril pelas conquistas democr\u00e1ticas alcan\u00e7adas pelo Povo portugu\u00eas.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de restaura\u00e7\u00e3o capitalista, de restaura\u00e7\u00e3o dos privil\u00e9gios da grande burguesia, conduzida pelos sucessivos governos constitucionais, tem sido uma pol\u00edtica de subordina\u00e7\u00e3o, dia a dia mais grave, da pol\u00edtica e da economia portuguesas ao grande capital internacional, \u00e0 banca internacional privada, \u00e0s empresas transnacionais, \u00e0 CEE, \u00e0 pol\u00edtica diplom\u00e1tica e militar dos EUA e da NATO, etc.<\/p>\n<p>Que significado tem esta pol\u00edtica?<\/p>\n<p>A grande burguesia procura no estrangeiro o apoio de que necessita para se manter no Poder, para restabelecer os seus antigos privil\u00e9gios. Mas o apoio que procura e obt\u00e9m junto dos meios imperialistas e da grande burguesia internacional faz correr graves riscos \u00e0 capacidade de os portugueses decidirem da sua pr\u00f3pria vida, do seu pr\u00f3prio presente e futuro.<\/p>\n<p>Como a nobreza portuguesa em 1383-85, a grande burguesia monopolista dos nossos dias n\u00e3o hesita em comprometer a independ\u00eancia nacional \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o, conserva\u00e7\u00e3o e refor\u00e7o dos seus interesses de classe, que s\u00e3o o seu enriquecimento e o seu dom\u00ednio da sociedade portuguesa, tendo por base a opress\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o das mais amplas camadas do nosso povo, ou seja, das camadas n\u00e3o monopolistas.<\/p>\n<p>Hoje, s\u00e3o a classe oper\u00e1ria, os trabalhadores, as camadas n\u00e3o monopolistas da nossa popula\u00e7\u00e3o os leg\u00edtimos herdeiros da tradi\u00e7\u00e3o patri\u00f3tica dos burgueses, dos mesteirais, dos camponeses sem terra, dos assalariados que lutaram pela independ\u00eancia da nossa P\u00e1tria contra a classe dominante do seu tempo, a nobreza de Portugal e de Castela, e venceram.<\/p>\n<p>(*) El General Vasco Gon\u00e7alves ,<\/p>\n<p>Bibliografia<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 Cr\u00f3nica de D. Jo\u00e3o I, Ferr\u00e3o Lopes.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 Hist\u00f3ria do Ex\u00e9rcito Portugu\u00eas, Ferreira Martins.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 Portugal Militar, Carlos Selvagem.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 Dicion\u00e1rio de Hist\u00f3ria de Portugal, dirigido por Joel Serr\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 A Revolu\u00e7\u00e3o de 1383, Ant\u00f3nio Borges Coelho.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 As lutas de classes em Portugal nos fins da Idade M\u00e9dia, \u00c1lvaro Cunhal.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 De Estremoz a Aljubarrota, Augusto Botelho da Costa Veiga.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 Aljubarrota, A. B. Costa Veiga, G. Mello de Matos e Afonso do Pa\u00e7o.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 A Evolu\u00e7\u00e3o Econ\u00f3mica de Portugal, S\u00e9culos -XII a XV, vol. XI, Armando de Castro.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 Hist\u00f3ria Econ\u00f3mica de Portugal, II vol., Armando de Castro.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 Aljubarrota Dissecada, Frederico Alcide de Oliveira.<\/p>\n<p>\u00b7\u00a0 Os esquemas dos dispositivos s\u00e3o os propostos por A. de Oliveira em \u00abAljubarrota Dissecada\u00bb.<\/p>\n<p>Este ensaio encontra-se em <a href=\"http:\/\/resistir.info\">http:\/\/resistir.info<\/a> .<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>27\/Jul\/04<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A guerra entre Portugal   e Castela nos fins do S\u00e9c. XIV n\u00e3o \u00e9 apenas uma guerra entre dois Estados, ou   mais uma guerra entre dois Estados.       Da parte dos portugueses \u00e9 uma guerra nacional e popular,   uma guerra que mergulha as suas ra\u00edzes nas lutas sociais, nas lutas de   classes que se vinham desenvolvendo e intensificando ao longo do S\u00e9c. XIV.       Estava-se processando o decl\u00ednio do sistema feudal   causado, fundamentalmente, pela liquida\u00e7\u00e3o da servid\u00e3o da gleba nos S\u00e9culos   XIII e XIV e pelo surgimento da pequena produ\u00e7\u00e3o baseada no trabalho do   propriet\u00e1rio dos meios de produ\u00e7\u00e3o e da produ\u00e7\u00e3o baseada no trabalho   assalariado.       A expans\u00e3o dos concelhos est\u00e1 ligada ao desenvolvimento   desta produ\u00e7\u00e3o: \u00e9 sua consequ\u00eancia e \u00e9 seu est\u00edmulo, na medida, por exemplo,   em que favorecia a liberta\u00e7\u00e3o dos servos da gleba.       Os servos da gleba d\u00e3o lugar aos pequenos produtores   formando-se, depois, por um lado, uma classe de camponeses ricos, a burguesia   rural, e, por outro, uma classe de camponeses sem terra que fornecem trabalho   assalariado.       Com a produ\u00e7\u00e3o mercantil simples, com a pequena produ\u00e7\u00e3o   baseada no trabalho assalariado aumenta a produ\u00e7\u00e3o em geral, desenvolvendo-se   o com\u00e9rcio interior. Surge uma classe de comerciantes que cresce em n\u00famero e   em poder econ\u00f3mico.       Por outro lado, o desenvolvimento do com\u00e9rcio externo   (que j\u00e1 existia quando da forma\u00e7\u00e3o de Portugal) conduz ao aparecimento de uma   classe de ricos mercadores.       Sendo o com\u00e9rcio externo quase todo feito por mar   desenvolve-se a Marinha Mercante e, a constru\u00e7\u00e3o naval. Nos centros urbanos   do litoral forma-se uma burguesia rica, que se organiza na defesa dos seus   interesses, e que v\u00e3o influenciando cada vez mais a pol\u00edtica portuguesa. Os   portos, em particular Lisboa e Porto, tornam-se centros de poder da burguesia   comercial-mar\u00edtima.       Paralelamente a este progresso, na produ\u00e7\u00e3o e na troca de   produtos, desenvolve-se a produ\u00e7\u00e3o artesanal, cresce a classe dos mesteirais,   cujo papel na Revolu\u00e7\u00e3o de 1383-85 vir\u00e1, em certos momentos, a ser decisivo.       Com o desenvolvimento da produ\u00e7\u00e3o mercantil e do com\u00e9rcio   os burgueses concentram na sua m\u00e3o grande riqueza. Com o seu crescente poder   econ\u00f3mico a burguesia ligada ao com\u00e9rcio mar\u00edtimo torna-se o principal   inimigo da classe senhorial e vem a estar em condi\u00e7\u00f5es de, em unidade com as   outras classes n\u00e3o senhoriais, disputar o poder pol\u00edtico \u00e0 nobreza   latifundi\u00e1ria.       O surgimento das novas classes e camadas sociais, o   crescente poder econ\u00f3mico da burguesia, cujos interesses se op\u00f5em aos da   classe senhorial, exercem press\u00e3o sobre o poder real e obrigam a que os   privil\u00e9gios da nobreza e do clero v\u00e3o sendo reduzidos ao longo dos S\u00e9culos   XIII e XIV.       Contudo, a natureza do Estado n\u00e3o muda com as conquistas   que a burguesia vai alcan\u00e7ando. A nobreza latifundi\u00e1ria e militar, de que o   rei \u00e9 o primeiro senhor, continua a ser a classe dominante, continua a dispor   da direc\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Estado.       D. Fernando \u00e9 obrigado a promulgar leis de protec\u00e7\u00e3o ao   com\u00e9rcio e \u00e0 navega\u00e7\u00e3o, \u00e9 obrigado a promulgar, nomeadamente, a Lei das   Sesmarias, o que tem o significado de grandes conquistas da burguesia urbana   e rural.       Amadurecem as condi\u00e7\u00f5es para a disputa do poder pol\u00edtico   \u00e0 nobreza por parte da burguesia.       Apercebendo-se do perigo que corria e sentindo que n\u00e3o   possu\u00eda forcas para, por si s\u00f3, dominar a contesta\u00e7\u00e3o aos seus privil\u00e9gios e   ao seu poder, a nobreza portuguesa vinha procurando o apoio da nobreza   castelhana \u00e0 qual se unia (sem atender aos riscos que essa uni\u00e3o implicaria   para a independ\u00eancia nacional) com. o fim de salvaguardar e manter os seus   privil\u00e9gios, de refor\u00e7ar o seu poder e de contrabater a burguesia ascendente.   Foi com este objectivo que se celebrou em 1383 o casamento da infanta D.   Beatriz, filha \u00fanica de D. Fernando e de D. Leonor Teles, com o rei de   Castela.       Antes, em 1376 e 1380, o casamento da infanta com   pr\u00edncipes castelhanos estivera para ser realizado, prevendo-se j\u00e1 ent\u00e3o a   sucess\u00e3o de um rei castelhano no trono de Portugal.       O pr\u00f3prio casamento de D. Fernando com D. Leonor Teles   fora preparado pela nobreza portuguesa em alian\u00e7a com a de Castela com vista   a influenciar mais directamente as decis\u00f5es do rei no sentido favor\u00e1vel aos   interesses da nobreza portuguesa. E de tal modo assim foi que os burgueses e   artes\u00e3os se revoltaram em v\u00e1rios pontos do Pa\u00eds.       O alfaiate Fern\u00e3o Vasques e os seus companheiros, \u00e0   frente de tr\u00eas mil mesteirais, besteiros e homens de p\u00e9, em 1371,   corajosamente, afirmaram o seu protesto ao rei pelo seu casamento com D.   Leonor Teles; eles haviam compreendido o significado pol\u00edtico desse   matrim\u00f3nio preparado pela nobreza portuguesa em coniv\u00eancia com a de Castela.       Essa revolta dos mesteirais, exprimindo a oposi\u00e7\u00e3o de   interesses entre as classes populares e a nobreza feudal representou uma tal   amea\u00e7a ao poder feudal que o rei mandou degolar Fern\u00e3o Vasques e muitos dos   seus companheiros.       A prop\u00f3sito do casamento de D. Fernando, Fern\u00e3o Lopes diz   que os populares se juntavam criticando acerbamente os privados do rei e os   grandes da terra que lho consentiam.       Nos \u00faltimos meses da vida de D. Fernando acentuou-se   junto do rei a influ\u00eancia da nobreza mais reaccion\u00e1ria o que fez crescer a   tens\u00e3o social e contribuiu para criar as condi\u00e7\u00f5es para a insurrei\u00e7\u00e3o de   Lisboa, poucos dias depois da morte do rei.       A morte do rei precipitou os acontecimentos ao colocar o problema   da sucess\u00e3o.       A causa imediata da revolu\u00e7\u00e3o burguesa \u00e9 a tentativa por   parte da nobreza de entregar o Governo de Portugal \u00e0 monarquia castelhana. A   revolu\u00e7\u00e3o toma desde logo um car\u00e1cter nacional, social e popular. A   insurrei\u00e7\u00e3o de Lisboa \u00e9 secundada por revoltas populares por todo o Pa\u00eds   (sobretudo a Sul do Tejo) da burguesia rural, dos camponeses, dos   assalariados rurais, dos \u00abventres ao sol\u00bb.       A luta pela independ\u00eancia nacional funde-se com a luta   contra os privil\u00e9gios da nobreza e pelo poder pol\u00edtico, pois a classe   dominante \u00e0 qual era disputado este poder pol\u00edtico era a mesma que, para   conservar as suas posi\u00e7\u00f5es, havia provocado a interven\u00e7\u00e3o da nobreza de   Castela contra os interesses populares e estava disposta a entregar o Governo   de Portugal \u00e0 monarquia castelhana.       A revolu\u00e7\u00e3o burguesa identifica-se, assim, com a luta   pela independ\u00eancia nacional.       A revolu\u00e7\u00e3o tem um n\u00edtido car\u00e1cter de classe. Dois campos   se afrontam: o da nobreza territorial latifundi\u00e1ria e o das classes n\u00e3o   senhoriais: a burguesia urbana e rural, os mesteirais, os pequenos   propriet\u00e1rios camponeses, os camponeses sem terra, nesse momento unidos   contra o mesmo inimigo, a nobreza portuguesa e castelhana, ultrapassando   assim as pr\u00f3prias e naturais contradi\u00e7\u00f5es de interesses que havia entre essas   classes sociais n\u00e3o senhoriais. Foram estas for\u00e7as que se defrontaram em   Aljubarrota.       O facto de, do lado portugu\u00eas, sempre ter havido nobres   ao lado das classes populares n\u00e3o altera o car\u00e1cter do afrontamento de   classes.       Em todas as revolu\u00e7\u00f5es houve sempre elementos da classe   dominante que tomaram o partido das classes em ascens\u00e3o, progressistas, que   se op\u00f5em ao poder dessas mesmas classes dominantes.       Era restrito o n\u00famero de nobres que estava com Portugal.   E pertenciam aos estratos inferiores da nobreza. Eram dos menos abastados.       N\u00e3o podemos, pois, afirmar que do lado portugu\u00eas, em   Aljubarrota, se encontravam todas as classes sociais defendendo a   independ\u00eancia nacional.       O facto de, depois da Revolu\u00e7\u00e3o de 1383-85, a nova nobreza   ter ficado na posse de vastos dom\u00ednios, dom\u00ednios cuja extens\u00e3o total era t\u00e3o   grande como a que antes de 1383 possu\u00eda a antiga nobreza latifundi\u00e1ria, n\u00e3o   invalida a afirma\u00e7\u00e3o de que em Aljubarrota a nobreza, como classe, n\u00e3o estava   do lado de Portugal.       Estava, sim, um reduzido n\u00famero de nobres que eram chefes   militares das tropas populares. Os comandos militares, os quadros superiores   eram, regra geral, nobres que, como se sabe, naquele tempo, eram militares   profissionais.       O que aconteceu foi que esses poucos nobres, em   consequ\u00eancia dos \u00eaxitos na guerra e em virtude da posi\u00e7\u00e3o que ocupavam no   ex\u00e9rcito, ascenderam \u00e0 grande propriedade territorial, no lugar daqueles que   se puseram ao lado de Castela.                                                                                                     Com efeito, foi com esses nobres   leais a Portugal que, dadas as condi\u00e7\u00f5es objectivas e subjectivas da \u00e9poca,   foi reconstitu\u00edda a grande parte dos dom\u00ednios senhoriais. O caso mais t\u00edpico   \u00e9 o de Nuno Alvares Pereira que ascendeu ao primeiro plano da classe   senhorial e de tal modo que os seus dom\u00ednios atingiram uma extens\u00e3o igual \u00e0   dos dom\u00ednios que anteriormente possu\u00edam muitos dos grandes nobres tomados em   conjunto.       \u00c9 Fern\u00e3o Lopes que nos diz que em resultado da grande   crise surgiu uma \u00abs\u00e9tima idade em que se levantou um mundo novo e nova   gera\u00e7\u00e3o de gentes, aparecendo fidalgos de origem plebeia e erguendo&#8211;se   pequenos aristocratas \u00e0 primeira linha da nobreza\u00bb. Repare-se que, para   Fern\u00e3o Lopes, o aparecimento de um mundo novo n\u00e3o estava ligado, como para   n\u00f3s, hoje, a uma profunda transforma\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e   distribui\u00e7\u00e3o entre as diferentes classes sociais.       As condi\u00e7\u00f5es objectivas da vida da sociedade portuguesa   em fins do s\u00e9c. XIV n\u00e3o eram de molde a poder colocar \u00e0 consci\u00eancia da   burguesia e das classes populares a necessidade de uma modifica\u00e7\u00e3o radical   das estruturas socioecon\u00f3micas, que liquidasse o poder da classe senhorial.   S\u00f3 s\u00e9culos mais tarde essa quest\u00e3o ser\u00e1 posta pelas burguesias dos diferentes   pa\u00edses e com grandes intervalos de tempo entre si.       Com efeito, podemos verificar que nos finais do s\u00e9c. XIV   a Revolu\u00e7\u00e3o de 1383-85 respeita as estruturas da sociedade feudal. Em   1383-85, do ponto de vista socioecon\u00f3mico, o objectivo fundamental comum \u00e0   burguesia e \u00e0s classes populares era o de limitar os privil\u00e9gios senhoriais,   devendo, contudo, ter-se presente que eram diferentes entre si os objectivos   concretos da burguesia e das demais classes populares.       Em Aljubarrota, na realidade, encontravam-se muito poucos   fidalgos do lado de Portugal. A principal nobreza portuguesa estava do fado   castelhano, quer ali, em Aljubarrota, nas hostes de Castela, quer na chefia   de povoa\u00e7\u00f5es e castelos que se mantinham como ilhas ao servi\u00e7o do inimigo,   quer mesmo em Castela.       Ali\u00e1s, quando da primeira invas\u00e3o castelhana, em princ\u00edpios   de 1384, o rei de Castela entrou praticamente sozinho em Portugal, antes do   seu ex\u00e9rcito.       Tal era o apoio que o rei de Castela tinha entre a   nobreza portuguesa que o rei chegou \u00e0 Guarda com a esposa e um pequeno   s\u00e9quito de umas trinta pessoas, sendo recebido processionalmente pelo bispo e   clero e acorrendo depois numerosos fidalgos ao pa\u00e7o episcopal onde se   hospedou.                  Em Aljubarrota, al\u00e9m de D. Jo\u00e3o   I, Nuno \u00c1lvares e de mais uma dezena de grandes senhores haveria cerca de uma   centena de nobres de modesta hierarquia.       Ora, o n\u00famero de membros da nobreza portuguesa \u00e9   estimado, nos fins do s\u00e9c. XIV, em 4000 a 5000 pessoas, n\u00e3o incluindo os   membros da fam\u00edlia real que seriam algumas centenas (Armando Castro,   \u00abHist\u00f3ria Econ\u00f3mica de Portugal\u00bb, II vol.).       A nobreza que combatia contra os Portugueses em   Aljubarrota tinha bem a no\u00e7\u00e3o do car\u00e1cter de classe da guerra que fazia.   Fern\u00e3o Lopes d\u00e1-nos v\u00e1rios testemunhos:       &#8212; Por meados de 1384 quando o nobre Gon\u00e7alo Mendes de   Vasconcelos, senhor do castelo de Coimbra, entreviu por uma seteira do seu   castelo, o ex\u00e9rcito de Nuno \u00c1lvares, que partia para Tomar, comentou para os   seus privados o g\u00e9nero de combatentes que compunham essa hoste, espantado que   tais homens pudessem defender o reino contra um grande senhor como o rei de   Castela, \u00absalvo se Deus fosse seu capit\u00e3o\u00bb.       &#8212; Quando o rei de Castela reuniu o conselho para decidir   se devia dar batalha ou n\u00e3o, poucas horas antes do in\u00edcio desta, houve entre   os seus conselheiros quem fosse de opini\u00e3o que n\u00e3o se desse batalha pois se o   rei de Castela fosse vencido teria sido derrotado \u00abpor um pouco n\u00famero de   pobre gente\u00bb.       &#8212; A covilheira do rei de Castela defumava os fidalgos com   algumas defumaduras \u00abpara perderdes os maus cheiros destes chamorros, das   casas onde vivem e aldeias onde moram\u00bb.       &#8212; Ap\u00f3s a derrota de Aljubarrota, o rei de Castela, em   fuga, ao chegar a Santar\u00e9m lamenta-se de ter sido derrotado pelos   \u00abchamorros\u00bb.       \u00abE se v\u00f3s dizeis que outro tal e tanto aconteceu a meu   pai verdade \u00e9 que assim foi. Mas (&#8230;) de que gentes foi meu padre vencido?   Foi-o de ingleses que s\u00e3o o frol da cavalaria do mundo, em tanto que, vencido   por eles, n\u00e3o deixava de ficar honrado (&#8230;) E de que gentes fui eu vencido?   Fui-o de chamorros que ainda que me Deus tanta merc\u00ea fizesse que a todos   tivesse atados em cordas e os degolasse por minha m\u00e3o, minha desonra n\u00e3o   seria vingada\u00bb. <\/p>\n<p>&#8211; x &#8211; <\/p>\n<p>Como dissemos atr\u00e1s, a   Revolu\u00e7\u00e3o de 1383-85 tomou, desde a sua eclos\u00e3o, um car\u00e1cter nacional, de   luta peta independ\u00eancia, posta em perigo pela alian\u00e7a da nobreza portuguesa   com a de Castela. D. Leonor Teles manda al\u00e7ar pend\u00e3o por D. Beatriz, rainha   de Portugal e de Castela. A rainha vi\u00fava pede a interven\u00e7\u00e3o de Castela, a   cujo rei entrega, em Santar\u00e9m, a reg\u00eancia do reino, em Janeiro de 1384, com o   apoio da alta nobreza portuguesa.       Tem havido quem procure justificar o comportamento antipatri\u00f3tico da   aristocracia portuguesa afirmando que nessa \u00e9poca o sentimento nacional e   patri\u00f3tico seria inexistente.       Mas a verdade \u00e9 que esse sentimento j\u00e1 existia nessa \u00e9poca em Portugal e j\u00e1   existia de longa data. N\u00e3o se ter\u00e1 esse sentimento de independ\u00eancia come\u00e7ado   a definir partir da auto-proclama\u00e7\u00e3o de Afonso Henriques como rei de   Portugal?       O que se verificou \u00e9 que n\u00e3o era essa nobreza feudal, como classe, a portador   desse sentimento patri\u00f3tico.       A hist\u00f3ria mostra que n\u00e3o pode formar-se uma na\u00e7\u00e3o como uma comunidade de   indiv\u00edduos que vivem no mesmo territ\u00f3rio e que, para al\u00e9m de rela\u00e7\u00f5es   econ\u00f3micas est\u00e1veis, est\u00e3o ligados por uma l\u00edngua comum e pelas   particularidades da mentalidade, da cultura, do modo de vida, fixadas nos   seus usos, costumes e tradi\u00e7\u00f5es, sem que, na sua raiz, estejam classes   produtivas directas e as demais classes populares.       Os interesses destas classes, nos graves momentos de crise nacional, identificam-se   com os interesses da P\u00e1tria.       O mesmo n\u00e3o acontece quanto as classes privilegiadas: em determinadas   condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, para defenderem os seus interesses e as suas posi\u00e7\u00f5es   frente \u00e0 ac\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria das massas populares, elas sacrificam o   sentimento patri\u00f3tico, s\u00e3o capazes de comprometer a independ\u00eancia do seu pa\u00eds   em troca do aux\u00edlio estrangeiro, para se manterem no poder.       Na t\u00e3o grave situa\u00e7\u00e3o de 1383-85, o sentimento nacional, a solidariedade   activa entre as mais largas camadas de portugueses foi refor\u00e7ada, mas este   facto foi devido \u00e0 luta das classes, n\u00e3o privilegiadas contra a nobreza   feudal.       A pr\u00f3pria solidariedade activa entre a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o atesta que   j\u00e1 havia nessa \u00e9poca um arreigado sentimento p\u00e1trio. S\u00e3o muitas as   refer\u00eancias de Fern\u00e3o Lopes a esse sentimento p\u00e1trio:       \u00abo povo me\u00fado\u00bb quando a aristocracia, ap\u00f3s a morte de D. Fernando, erguia o   pend\u00e3o por D. Beatriz, mulher do rei de Castela, respondia com \u00abArraial,   arraial, por Portugal\u00bb.       Alguns exemplos: <\/p>\n<p>\u00b7  Os representantes   do concelho de Alenquer dirigem-se ao Mestre de Avis afirmando o seu   patriotismo, \u00absomos portugueses e todos naturais destes reinos\u00bb. <\/p>\n<p>\u00b7  Quando o Mestre de   Avis se despede, em Coina, de Nuno \u00c1lvares Pereira, que marcha para o   Alentejo como fronteiro d\u00e1-lhe o apoio de algumas dezenas de escudeiros,   dizendo-lhe serem \u00abverdadeiros portugueses\u00bb. <\/p>\n<p>\u00b7  Os homens bons de   Cerveira, Caminha e Mon\u00e7\u00e3o enviam mensagens a Nuno Alvares Pereira:   declaram-se \u00abverdadeiros portugueses\u00bb e entregam-lhe voluntariamente essas   povoa\u00e7\u00f5es. <\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":3825,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[],"class_list":["post-380","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-europa-europa"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/380","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=380"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/380\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3825"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=380"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=380"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=380"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}