{"id":815,"date":"2007-10-13T00:00:00","date_gmt":"2007-10-13T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espai-marx.net\/?p=815"},"modified":"2020-02-26T09:54:50","modified_gmt":"2020-02-26T08:54:50","slug":"gramsci-e-a-sociedade-civil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espai-marx.net\/?p=815","title":{"rendered":"Gramsci e a sociedade civil"},"content":{"rendered":"<p>2000<\/p>\n<p>(Rese\u00f1a del libro de <a href=\"mailto:semeraro@urbi.com.br\">Giovanni Semeraro<\/a>. <em>Gramsci e a sociedade civil<\/em>. Petr\u00f3polis, Vozes, 1999.)<\/p>\n<p>Curioso destino teve o conceito de &#8216;sociedade civil&#8217; no Brasil. Seu uso entre n\u00f3s, tanto na Universidade quanto no jornalismo pol\u00edtico, data da segunda metade dos anos 70, quando se acentuam os processos de corros\u00e3o da ditadura militar, causados em grande parte pela irrup\u00e7\u00e3o de novos movimentos sociais, entre os quais se destaca o novo sindicalismo do ABC. N\u00e3o \u00e9 casual que tenha sido nesse mesmo momento que Antonio Gramsci se transformou num dos mais importantes interlocutores do pensamento social brasileiro. Compreende-se assim que o termo &#8216;sociedade civil&#8217;, que ent\u00e3o entrava em moda, terminasse por ser identificado &#8211; em muitos casos equivocadamente &#8211; com o conceito an\u00e1logo de Gramsci, conceito que ocupa uma posi\u00e7\u00e3o central na filosofia pol\u00edtica do pensador marxista italiano.<\/p>\n<p>No contexto da luta contra a ditadura, &#8216;sociedade civil&#8217; tornou-se sin\u00f4nimo de tudo aquilo que se contrapunha ao Estado ditatorial, o que era facilitado pelo fato de &#8216;civil&#8217; significar tamb\u00e9m, no Brasil, o contr\u00e1rio de &#8216;militar&#8217;. Disso resultou uma primeira leitura problem\u00e1tica do conceito: o par conceitual sociedade civil \/ Estado, que forma em Gramsci uma unidade na diversidade, assumiu os tra\u00e7os de uma dicotomia radical, marcada ademais por uma \u00eanfase manique\u00edsta. Nessa nova leitura, ao contr\u00e1rio do que \u00e9 dito por Gramsci, tudo o que provinha da &#8216;sociedade civil&#8217; era visto de modo positivo, enquanto tudo o que dizia respeito ao Estado aparecia marcado com sinal fortemente negativo.<\/p>\n<p>Esse deslizamento conceitual, muitas vezes apresentado como a verdadeira teoria gramsciana, n\u00e3o provocou, no momento da transi\u00e7\u00e3o, maiores estragos, embora tenha contribu\u00eddo para obscurecer o car\u00e1ter contradit\u00f3rio das for\u00e7as sociais que formavam a sociedade civil brasileira, as quais, apesar dessa contraditoriedade, convergiam objetivamente na comum oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura; esse obscurecimento, decerto, facilitou a hegemonia das for\u00e7as liberais no processo de transi\u00e7\u00e3o, que Florestan Fernandes n\u00e3o hesitou em chamar de &#8216;transa\u00e7\u00e3o conservadora&#8217;. Mas as coisas se complicaram decisivamente quando, a partir de final dos anos 80, a ideologia neoliberal em ascens\u00e3o apropriou-se daquela dicotomia manique\u00edsta para demonizar de vez tudo o que prov\u00e9m do Estado (mesmo que se trate agora de um Estado de direito) e para fazer a apologia acr\u00edtica de uma &#8216;sociedade civil&#8217; despolitizada, ou seja, convertida num m\u00edtico &#8216;terceiro setor&#8217; falsamente situado para al\u00e9m do Estado e do mercado.<\/p>\n<p>Embora o belo livro que o leitor tem em m\u00e3os n\u00e3o assuma essa problem\u00e1tica como tema central, ela constitui certamente o pano de fundo e o motivo inspirador da instigante pesquisa que nele desenvolve. O objetivo central deste livro consiste precisamente no resgate do verdadeiro conceito gramsciano de &#8216;sociedade civil&#8217;, revelado aqui em toda a sua densidade pol\u00edtica. Com efeito, na vis\u00e3o de Gramsci, &#8216;sociedade civil&#8217; \u00e9 uma arena privilegiada da luta de classe, uma esfera do ser social onde se d\u00e1 uma intensa luta pela hegemonia; e, precisamente por isso, ela n\u00e3o \u00e9 o &#8216;outro&#8217; do Estado, mas &#8211; juntamente com a &#8216;sociedade pol\u00edtica&#8217; ou o &#8216;Estado-coer\u00e7\u00e3o&#8217; &#8211; um dos seus inelimin\u00e1veis momentos constitutivos. Para Gramsci, como Semeraro nos mostra muito bem, nem tudo o que faz parte da sociedade civil \u00e9 &#8216;bom&#8217; (ela pode, por exemplo, ser hegemonizada pela direita) e nem tudo o que prov\u00e9m do Estado \u00e9 &#8216;mau&#8217; (ele pode expressar demandas universalistas que se originam nas lutas das classes subalternas). Somente uma concreta an\u00e1lise hist\u00f3rica da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as presente em cada momento pode definir, do \u00e2ngulo das classes subalternas, a fun\u00e7\u00e3o e as potencialidades positivas ou negativas tanto da sociedade civil como do Estado.<\/p>\n<p>Para promover esse resgate do verdadeiro conceito gramsciano de &#8216;sociedade civil&#8217;, Semeraro empreende n\u00e3o apenas uma leitura atenta e cuidadosa dos Cadernos do c\u00e1rcere, atrav\u00e9s da qual reconstr\u00f3i com rigor filol\u00f3gico e acuidade te\u00f3rica a rica e complexa trama categorial elaborada pelo pensador italiano, mas busca tamb\u00e9m investigar a obra de dois important\u00edssimos interlocutores de Gramsci, Hegel e Croce. Semeraro nos mostra, por exemplo, que, sem levar em conta esse di\u00e1logo com Croce e, sobretudo, com Hegel, n\u00e3o se pode compreender adequadamente o espec\u00edfico conceito gramsciano de &#8216;sociedade civil&#8217;; mas nos mostra tamb\u00e9m, ao mesmo tempo, que Gramsci \u00e9 Gramsci precisamente porque supera dialeticamente os conceitos de seus interlocutores e constr\u00f3i uma original\u00edssima no\u00e7\u00e3o de &#8216;sociedade civil&#8217;, que aparece como eixo articulador de uma nova teoria pol\u00edtica marxista. Por outro lado, para demonstrar como essa originalidade nem sempre foi devidamente percebida pelos int\u00e9rpretes, mesmo quando tais int\u00e9rpretes s\u00e3o brilhantes e honestos pensadores, Semeraro nos prop\u00f5e ainda uma an\u00e1lise da interlocu\u00e7\u00e3o de Norberto Bobbio com Gramsci, tanto mais importante quando se sabe que, no Brasil, Bobbio foi e continua a ser uma das principais vias de acesso \u00e0 leitura do autor dos Cadernos do c\u00e1rcere.<\/p>\n<p>Portanto, Gramsci e a sociedade civil n\u00e3o \u00e9 apenas uma brilhante tese acad\u00eamica sobre o pensamento de um dos autores mais lidos e discutidos hoje no \u00e2mbito das ci\u00eancias sociais. Trata-se tamb\u00e9m de uma interven\u00e7\u00e3o pol\u00eamica num dos mais importantes debates pol\u00edticos da atualidade, aquele que envolve a correta defini\u00e7\u00e3o do estatuto te\u00f3rico-pr\u00e1tico da sociedade civil e do Estado. Resgatando o conceito gramsciano de &#8216;sociedade civil&#8217; em sua dimens\u00e3o nitidamente pol\u00edtica, mostrando a sua articula\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica com a luta pela hegemonia e pela conquista do poder pol\u00edtico por parte das classes subalternas, o livro de Giovanni Semeraro constitui doravante uma imprescind\u00edvel contribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 ao estudo da obra de Gramsci, mas tamb\u00e9m \u00e0 luta pela desconstru\u00e7\u00e3o de uma das mais insidiosas vertentes da ideologia neoliberal, precisamente aquela que \u2013 valendo-se de uma terminologia supostamente &#8216;de esquerda&#8217;, herdada dos combates contra a ditadura \u2013 tem como base um conceito apol\u00edtico e ass\u00e9ptico de &#8216;sociedade civil&#8217;. Um conceito que, como Semeraro nos demonstra convincentemente, nada tem a ver com o pensamento revolucion\u00e1rio de Antonio Gramsci.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>2000<\/p>\n<p>(Rese\u00f1a del libro de Giovanni Semeraro. Gramsci e a sociedade civil. Petr\u00f3polis, Vozes, 1999.)<\/p>\n<p>Curioso destino teve o conceito de &#8216;sociedade civil&#8217; no Brasil. Seu uso entre n\u00f3s, tanto na Universidade quanto no jornalismo pol\u00edtico, data da segunda metade dos anos 70, quando se acentuam os processos de corros\u00e3o da ditadura militar, causados em grande parte pela irrup\u00e7\u00e3o de novos movimentos sociais, entre os quais se destaca o novo sindicalismo do ABC. N\u00e3o \u00e9 casual que tenha sido nesse mesmo momento que Antonio Gramsci se transformou num dos mais importantes interlocutores do pensamento social brasileiro. Compreende-se assim que o termo &#8216;sociedade civil&#8217;, que ent\u00e3o entrava em moda, terminasse por ser identificado &#8211; em muitos casos equivocadamente &#8211; com o conceito an\u00e1logo de Gramsci, conceito que ocupa uma posi\u00e7\u00e3o central na filosofia pol\u00edtica do pensador marxista italiano.<\/p>\n<p>No contexto da luta contra a ditadura, &#8216;sociedade civil&#8217; tornou-se sin\u00f4nimo de tudo aquilo que se contrapunha ao Estado ditatorial, o que era facilitado pelo fato de &#8216;civil&#8217; significar tamb\u00e9m, no Brasil, o contr\u00e1rio de &#8216;militar&#8217;. Disso resultou uma primeira leitura problem\u00e1tica do conceito: o par conceitual sociedade civil \/ Estado, que forma em Gramsci uma unidade na diversidade, assumiu os tra\u00e7os de uma dicotomia radical, marcada ademais por uma \u00eanfase manique\u00edsta. Nessa nova leitura, ao contr\u00e1rio do que \u00e9 dito por Gramsci, tudo o que provinha da &#8216;sociedade civil&#8217; era visto de modo positivo, enquanto tudo o que dizia respeito ao Estado aparecia marcado com sinal fortemente negativo.<\/p>\n<p>Esse deslizamento conceitual, muitas vezes apresentado como a verdadeira teoria gramsciana, n\u00e3o provocou, no momento da transi\u00e7\u00e3o, maiores estragos, embora tenha contribu\u00eddo para obscurecer o car\u00e1ter contradit\u00f3rio das for\u00e7as sociais que formavam a sociedade civil brasileira, as quais, apesar dessa contraditoriedade, convergiam objetivamente na comum oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura; esse obscurecimento, decerto, facilitou a hegemonia das for\u00e7as liberais no processo de transi\u00e7\u00e3o, que Florestan Fernandes n\u00e3o hesitou em chamar de &#8216;transa\u00e7\u00e3o conservadora&#8217;. Mas as coisas se complicaram decisivamente quando, a partir de final dos anos 80, a ideologia neoliberal em ascens\u00e3o apropriou-se daquela dicotomia manique\u00edsta para demonizar de vez tudo o que prov\u00e9m do Estado (mesmo que se trate agora de um Estado de direito) e para fazer a apologia acr\u00edtica de uma &#8216;sociedade civil&#8217; despolitizada, ou seja, convertida num m\u00edtico &#8216;terceiro setor&#8217; falsamente situado para al\u00e9m do Estado e do mercado.<\/p>\n<p>Embora o belo livro que o leitor tem em m\u00e3os n\u00e3o assuma essa problem\u00e1tica como tema central, ela constitui certamente o pano de fundo e o motivo inspirador da instigante pesquisa que nele desenvolve. O objetivo central deste livro consiste precisamente no resgate do verdadeiro conceito gramsciano de &#8216;sociedade civil&#8217;, revelado aqui em toda a sua densidade pol\u00edtica. Com efeito, na vis\u00e3o de Gramsci, &#8216;sociedade civil&#8217; \u00e9 uma arena privilegiada da luta de classe, uma esfera do ser social onde se d\u00e1 uma intensa luta pela hegemonia; e, precisamente por isso, ela n\u00e3o \u00e9 o &#8216;outro&#8217; do Estado, mas &#8211; juntamente com a &#8216;sociedade pol\u00edtica&#8217; ou o &#8216;Estado-coer\u00e7\u00e3o&#8217; &#8211; um dos seus inelimin\u00e1veis momentos constitutivos. Para Gramsci, como Semeraro nos mostra muito bem, nem tudo o que faz parte da sociedade civil \u00e9 &#8216;bom&#8217; (ela pode, por exemplo, ser hegemonizada pela direita) e nem tudo o que prov\u00e9m do Estado \u00e9 &#8216;mau&#8217; (ele pode expressar demandas universalistas que se originam nas lutas das classes subalternas). 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