{"id":821,"date":"2007-10-13T00:00:00","date_gmt":"2007-10-13T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espai-marx.net\/?p=821"},"modified":"2020-02-26T09:47:59","modified_gmt":"2020-02-26T08:47:59","slug":"o-pensador-hegemonico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espai-marx.net\/?p=821","title":{"rendered":"O pensador hegem\u00f4nico"},"content":{"rendered":"<p>1999<\/p>\n<p>O material publicado pela Folha de S. Paulo, reproduzido abaixo, compreende a entrevista de Carlos Nelson Coutinho, realizada por Maur\u00edcio Santana Dias; depoimentos de expressivos intelectuais brasileiros; e tr\u00eas artigos especiais, assinados por Michael L\u00f6wy, Guido Liguori e S\u00e9rgio Paulo Rouanet<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<br \/>\n<b>1. ENTREVISTA &#8211; Carlos Nelson Coutinho<\/b><br \/>\n&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>No dia 8 de novembro de 1926, o deputado e secret\u00e1rio-geral do PCI (Partido Comunista Italiano), <u><a href=\"http:\/\/www.acessa.com\/gramsci\/?page=visualizar&amp;id=123\">Antonio Gramsci (1891-1937)<\/a><\/u>, foi preso pelas for\u00e7as de Mussolini. Dois anos mais tarde, em seu julgamento, o promotor teria afirmado: \u00ab\u00c9 preciso impedir que esse c\u00e9rebro funcione por 20 anos\u00bb. Gramsci foi ent\u00e3o condenado a uma pena pouco maior que essa, da qual cumpriu mais de dez anos. No c\u00e1rcere, entre 29 e 35, produziu uma das mais importantes obras de reflex\u00e3o pol\u00edtica do s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Foi numa carta de 19 de mar\u00e7o de 27 que Gramsci manifestou pela primeira vez o desejo de escrever um estudo de f\u00f4lego. Algo que transcendesse os artigos que publicava nos jornais de esquerda e o ajudasse a superar a mis\u00e9ria da vida carcer\u00e1ria. Nele, Gramsci buscou sobretudo reelaborar e ampliar as concep\u00e7\u00f5es marxistas sobre a sociedade, a cultura e o Estado modernos, propondo uma via democr\u00e1tica ao comunismo.<\/p>\n<p>Entretanto Gramsci teve de esperar at\u00e9 fevereiro de 29, quando o diretor do pres\u00eddio de Turi, na regi\u00e3o de Bari (It\u00e1lia), finalmente lhe permitiu estudar e escrever na cadeia. Com uma grafia leg\u00edvel, mi\u00fada e sem emendas, ele preencheu durante seis anos seguidos \u2014 at\u00e9 abril de 35, quando <u><a href=\"http:\/\/www.acessa.com\/gramsci\/?page=visualizar&amp;id=126\">sua sa\u00fade se agravou<\/a><\/u> \u2014 32 cadernos de capa dura, tr\u00eas deles dedicados exclusivamente a exerc\u00edcios de tradu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o esses <i>Cadernos do C\u00e1rcere<\/i> que come\u00e7am a chegar \u00e0s livrarias do pa\u00eds a partir de dezembro, quando a Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira lan\u00e7ar\u00e1 o primeiro dos seis volumes. Al\u00e9m disso, est\u00e3o previstos outros cinco volumes: dois reunindo os escritos pr\u00e9-carcer\u00e1rios e tr\u00eas com as cartas do c\u00e1rcere [Estas Cartas foram integralmente publicadas em dois volumes, em 2005]. A edi\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o das obras completas ficaram a cargo do professor titular de teoria pol\u00edtica da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Carlos Nelson Coutinho, tradutor de Gramsci nos anos 60, e dos co-editores Luiz S\u00e9rgio Henriques e Marco Aur\u00e9lio Nogueira. Gramsci \u00e9 tema tamb\u00e9m do livro de <u><a href=\"http:\/\/www.acessa.com\/gramsci\/?page=visualizar&amp;id=117\">Norberto Bobbio<\/a><\/u>, <i>Ensaios sobre Gramsci e o Conceito de Sociedade Civil<\/i>, agora publicado pela Paz e Terra.<\/p>\n<p>Movido pelo \u00abpessimismo da intelig\u00eancia e o otimismo da vontade\u00bb \u2014 o \u00abmote\u00bb dos <i>Cadernos<\/i> \u2014, esse intelectual nascido na Sardenha, de origem prolet\u00e1ria, medindo pouco mais de 1,50 m, deixou uma obra que, na opini\u00e3o das personalidades ouvidas pela <i>Folha<\/i> (leia abaixo), n\u00e3o perdeu o vigor e a atualidade \u2014 ao contr\u00e1rio do que ocorreu com outras vertentes do pensamento marxista.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ter reformulado as bases do pensamento pol\u00edtico de esquerda, Gramsci foi um criativo analista da imprensa, da literatura, do teatro, das institui\u00e7\u00f5es de ensino, dos intelectuais \u2014 aos quais atribuiu um papel fundamental na transforma\u00e7\u00e3o da sociedade. Um pensador que, da pris\u00e3o, preocupou-se com a totalidade dos fen\u00f4menos que cercavam o homem do seu tempo, como afirma Coutinho na entrevista abaixo.<\/p>\n<p><b>Folha<\/b><strong> &#8211; A d\u00e9cada de 90 assistiu ao colapso do \u00absocialismo real\u00bb e, tamb\u00e9m, a uma retra\u00e7\u00e3o do pensamento marxista. Agora come\u00e7a a ser lan\u00e7ada no Brasil a edi\u00e7\u00e3o completa dos <\/strong><b>Cadernos do c\u00e1rcere<\/b><strong>. Qual o sentido dessa publica\u00e7\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Carlos Nelson Coutinho<\/strong> &#8211; N\u00e3o \u00e9 justo dizer que o pensamento marxista sofreu uma retra\u00e7\u00e3o. O fim do chamado \u00absocialismo real\u00bb representou a crise terminal de uma espec\u00edfica leitura de Marx, o chamado \u00abmarxismo-leninismo\u00bb, h\u00e1bil pseud\u00f4nimo de stalinismo. Essa leitura serviu de ideologia de Estado para aqueles regimes ditos \u00abcomunistas\u00bb, os quais, a meu ver, nada mais tinham a ver com o marxismo. Mas o fato \u00e9 que alguns autores marxistas at\u00e9 come\u00e7aram a ser lidos com mais aten\u00e7\u00e3o depois do colapso do \u00absocialismo real\u00bb. Entre eles, eu destacaria os integrantes da Escola de Frankfurt (em particular Walter Benjamin), mas, sobretudo, Antonio Gramsci. Embora sejam muito diferentes entre si, Benjamin e Gramsci nada t\u00eam a ver com o \u00abmarxismo-leninismo\u00bb. Republicar Gramsci tornou-se, assim, uma demanda real. Quando ele foi publicado aqui, parcialmente, em meados dos anos 60, chegamos a dispor em portugu\u00eas de uma massa de textos que, com exce\u00e7\u00e3o do italiano e do espanhol, n\u00e3o estava dispon\u00edvel ainda em nenhuma outra l\u00edngua. Gramsci foi lido, reeditado, utilizado dentro e fora da universidade, em v\u00e1rios campos, da teoria pol\u00edtica \u00e0 antropologia, da cr\u00edtica liter\u00e1ria \u00e0 pedagogia e ao servi\u00e7o social. Penso que o sentido dessa nova edi\u00e7\u00e3o \u00e9 torn\u00e1-lo mais bem conhecido no Brasil e, desse modo, propor um novo debate sobre suas id\u00e9ias. E isso precisamente no momento em que parece estar come\u00e7ando a ruir a hegemonia do \u00abpensamento \u00fanico\u00bb, neoliberal.<\/p>\n<p><b>Folha<\/b><strong> &#8211; O sr. foi um dos respons\u00e1veis pela divulga\u00e7\u00e3o de Gramsci no Brasil, a partir dos anos 60. Considerando as grandes transforma\u00e7\u00f5es que ocorreram de l\u00e1 para c\u00e1, n\u00e3o s\u00f3 no pa\u00eds, quais as suas expectativas quanto \u00e0 recep\u00e7\u00e3o dessa obra? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Coutinho<\/strong> &#8211; Gramsci \u00e9 hoje uma refer\u00eancia essencial para boa parte da esquerda e centro-esquerda brasileiras, do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado) ao PPS (Partido Popular Socialista), passando pelas v\u00e1rias correntes do PT (Partido dos Trabalhadores). N\u00e3o s\u00f3: at\u00e9 mesmo <u><a href=\"http:\/\/www.acessa.com\/gramsci\/?page=visualizar&amp;id=291\">o presidente Cardoso<\/a><\/u>, numa entrevista \u00e0 Veja, usou Gramsci para justificar suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas neoliberais. Embora os Cadernos do c\u00e1rcere possuam uma articula\u00e7\u00e3o interna sistem\u00e1tica, a sua forma de apresenta\u00e7\u00e3o \u00e9 claramente fragment\u00e1ria: isso parece permitir interpreta\u00e7\u00f5es ilimitadas, como se a obra de Gramsci fosse uma \u00abobra aberta\u00bb.<\/p>\n<p>N\u00e3o creio que o seja: Gramsci era um comunista, refletiu sobre as condi\u00e7\u00f5es da revolu\u00e7\u00e3o socialista no que ele chamou de \u00abOcidente\u00bb, propondo uma estrat\u00e9gia diversa daquela dos bolcheviques na R\u00fassia de 1917. Mas o fato de que sua interpreta\u00e7\u00e3o provoque acesos debates, que tanto o PSTU quanto o presidente Cardoso possam cit\u00e1-lo com aprova\u00e7\u00e3o, parece-me uma prova de que \u00e9 preciso rel\u00ea-lo com aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Folha<\/b><strong> &#8211; Em que condi\u00e7\u00f5es Gramsci escreveu os cadernos? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Coutinho<\/strong> &#8211; Em condi\u00e7\u00f5es muito dif\u00edceis. Preso pelo fascismo em 1926, s\u00f3 em 1929 ele teve autoriza\u00e7\u00e3o para escrever em sua cela. A partir de ent\u00e3o, e at\u00e9 1935, quando suas condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade o impediram definitivamente de trabalhar, preencheu 32 cadernos escolares, que ocupam cerca de 3.000 p\u00e1ginas impressas. Tr\u00eas deles eram formados por exerc\u00edcios de tradu\u00e7\u00e3o, sobretudo do russo e do alem\u00e3o. Os outros 29 cont\u00eam apontamentos de sua autoria. O pr\u00f3prio Gramsci os dividiu em \u00abcadernos miscel\u00e2neos\u00bb e \u00abcadernos especiais\u00bb. Nos \u00abmiscel\u00e2neos\u00bb, juntou notas sobre variad\u00edssimos temas; nos \u00abespeciais\u00bb, em geral mais tardios, tentou agrupar essas notas segundo temas espec\u00edficos, como \u00abIntrodu\u00e7\u00e3o ao Estudo da Filosofia\u00bb, \u00abPara uma Hist\u00f3ria dos Intelectuais\u00bb, \u00abAmericanismo e Fordismo\u00bb etc.<\/p>\n<p><b>Folha<\/b><strong> &#8211; Nos anos 60, os marxistas mais influentes eram Louis Althusser e Herbert Marcuse <\/strong>\u2014<strong> al\u00e9m do marxismo-leninismo, orientado pelo PC sovi\u00e9tico. Como o pensamento de Gramsci se inseriu nesse contexto? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Coutinho &#8211; <\/strong>Com muita dificuldade. Antes que ocorresse a influ\u00eancia de Althusser e de Marcuse, alguns intelectuais comunistas \u2014 entre os quais me incluo \u2014 tentaram renovar a cultura te\u00f3rica do PCB, que naquele momento j\u00e1 competia com outras correntes progressistas, como os crist\u00e3os de esquerda. Fomos apoiados nessa iniciativa por \u00canio Silveira, que ent\u00e3o dirigia a Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira. Gramsci, juntamente com <u><a href=\"http:\/\/www.acessa.com\/gramsci\/?page=visualizar&amp;id=128\">Luk\u00e1cs<\/a><\/u> e <u><a href=\"http:\/\/www.acessa.com\/gramsci\/?page=visualizar&amp;id=412\">Sartre<\/a><\/u>, representou na \u00e9poca uma renova\u00e7\u00e3o do marxismo nos campos da filosofia e da cr\u00edtica liter\u00e1ria. Deixamos de lado o fato de que Gramsci era o maior te\u00f3rico pol\u00edtico marxista do s\u00e9culo 20. N\u00e3o o fizemos intencionalmente, mas criamos assim uma t\u00e1cita \u00abdivis\u00e3o do trabalho\u00bb: a dire\u00e7\u00e3o do PCB decidia sobre a linha pol\u00edtica, enquanto n\u00f3s tent\u00e1vamos definir a linha cultural. Isso n\u00e3o deu e n\u00e3o podia dar certo: quando a linha \u00abmoderada\u00bb do PCB come\u00e7ou a ser criticada, tamb\u00e9m foram criticados Gramsci e Luk\u00e1cs. \u00c9 o momento em que Marcuse esgota edi\u00e7\u00f5es a cada tr\u00eas meses e Gramsci \u00e9 vendido em estantes de saldo a pre\u00e7o de banana. As coisas hoje mudaram. Gramsci continua a ser lido, enquanto ningu\u00e9m mais l\u00ea Marcuse. Mas n\u00e3o digo isso com esp\u00edrito revanchista: \u00e9 uma pena que ningu\u00e9m mais leia Marcuse. Ele, com seu salutar radicalismo, tem muito a nos dizer.<\/p>\n<p><b>Folha<\/b><strong> &#8211; Em fins dos anos 60, grande parte da esquerda radicalizou suas a\u00e7\u00f5es contra o regime militar e partiu para a luta armada <\/strong>\u2014<strong> sob a influ\u00eancia de <\/strong><u><a href=\"http:\/\/www.acessa.com\/gramsci\/?page=visualizar&amp;id=574\"><b>Mao<\/b><\/a><\/u><strong>, Trotski e <\/strong><u><a href=\"http:\/\/www.acessa.com\/gramsci\/?page=visualizar&amp;id=564\"><b>Fidel Castro<\/b><\/a><\/u><strong>. Isso teria contribu\u00eddo para o \u00abp\u00e9 atr\u00e1s\u00bb em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s teorias gramscianas? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Coutinho &#8211; <\/strong>Muito provavelmente. Gramsci propunha algo diverso: para ele, em pa\u00edses mais complexos socialmente, como j\u00e1 era o caso do Brasil naquele momento, a estrat\u00e9gia era outra. Em vez da luta armada, da \u00abguerra de movimento\u00bb, dev\u00edamos adotar a \u00abguerra de posi\u00e7\u00e3o\u00bb, a luta progressiva pela hegemonia etc. <u><a href=\"http:\/\/www.acessa.com\/gramsci\/?page=visualizar&amp;id=10\">O PCB at\u00e9 fazia isso, mas o fazia t\u00e3o mal<\/a><\/u> que era dif\u00edcil convencer quem n\u00e3o fosse um disciplinado militante. Assim, num terreno marcado pela disputa entre Mao, Fidel e Brejnev, n\u00e3o havia nenhum lugar para Gramsci, o que foi p\u00e9ssimo para a esquerda brasileira. S\u00f3 no final dos anos 70 \u00e9 que Gramsci voltou a ser lido e a ter influ\u00eancia. Isso ocorreu sobretudo porque, naquele momento, entraram em crise tanto o \u00absovietismo\u00bb do PCB quanto as ilus\u00f5es da chamada \u00abesquerda armada\u00bb.<\/p>\n<p><b>Folha<\/b><strong> &#8211; Em que medida os\u00a0<\/strong><u><a href=\"http:\/\/www.acessa.com\/gramsci\/?page=visualizar&amp;id=127\"><b>conceitos gramscianos<\/b><\/a><\/u><strong> de \u00abhegemonia\u00bb e \u00absociedade civil\u00bb renovaram o pensamento marxista? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Coutinho &#8211; <\/strong>Foi principalmente por causa deles que o marxismo se tornou contempor\u00e2neo do s\u00e9culo 20 e, espero, tamb\u00e9m do s\u00e9culo 21. Gramsci percebeu que, a partir da segunda metade do s\u00e9culo 19, havia surgido uma nova esfera do ser social capitalista: o mundo das auto-organiza\u00e7\u00f5es, do que ele chamou de \u00abaparelhos privados de hegemonia\u00bb. S\u00e3o os partidos de massa, os sindicatos, as diferentes associa\u00e7\u00f5es \u2014 tudo aquilo que resulta de uma crescente \u00absocializa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica\u00bb. Ele deu a essa nova esfera o nome de \u00absociedade civil\u00bb e insistiu em que ela faz parte do Estado em sentido amplo, j\u00e1 que nela t\u00eam lugar evidentes rela\u00e7\u00f5es de poder. A \u00absociedade civil\u00bb em Gramsci \u00e9 uma importante arena da luta de classes: \u00e9 nela que as classes lutam para conquistar hegemonia, ou seja, dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, capacitando-se para a conquista e o exerc\u00edcio do governo. Ela nada tem a ver com essa coisa amorfa que hoje chamam de \u00abterceiro setor\u00bb, pretensamente situado para al\u00e9m do Estado e do mercado.<\/p>\n<p>Ao descobrir essa nova esfera, ao dar-lhe um nome e ao definir seu espa\u00e7o, Gramsci criou uma nova teoria do Estado. O Estado, para ele, n\u00e3o \u00e9 mais o simples \u00abcomit\u00ea executivo da burguesia\u00bb, como ainda \u00e9 dito no <u><a href=\"http:\/\/www.acessa.com\/gramsci\/?page=visualizar&amp;id=28\"><i>Manifesto comunista<\/i><\/a><\/u>, mas continua a ser um Estado de classe. Contudo, o modo de exercer o poder de classe muda, j\u00e1 que o Estado se amplia gra\u00e7as \u00e0 inclus\u00e3o dessa nova esfera, a \u00absociedade civil\u00bb. Buscar hegemonia, buscar consenso, tentar legitimar-se: tudo isso significa que o Estado deve agora levar em conta outros interesses que n\u00e3o os restritos interesses da classe dominante. Com isso, Gramsci chegou a compreender o tipo de Estado que \u00e9 pr\u00f3prio dos regimes liberal-democr\u00e1ticos, um Estado bem mais complexo do que aquele de que falam Marx e Engels no Manifesto ou Lenin e os bolcheviques no conjunto de sua obra.<\/p>\n<p><b>Folha<\/b><strong> &#8211; O que \u00e9 a chamada <\/strong><u><a href=\"http:\/\/www.acessa.com\/gramsci\/?page=visualizar&amp;id=198\"><b>\u00abrevolu\u00e7\u00e3o passiva\u00bb<\/b><\/a><\/u><strong>? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Coutinho &#8211; <\/strong>Esse \u00e9 outro conceito central em Gramsci. Indica eventos concretos nos quais a classe dominante, reprimindo ou excluindo as demais, empreende processos de renova\u00e7\u00e3o \u00abpelo alto\u00bb, autorit\u00e1rios ou ditatoriais. Indica tamb\u00e9m \u00e9pocas hist\u00f3ricas em que a classe dominante, tentando excluir os \u00abde baixo\u00bb, recolhe algumas de suas demandas, mas impedindo que eles sejam protagonistas nos processos de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para Gramsci, por exemplo, foram \u00abrevolu\u00e7\u00f5es passivas\u00bb tanto o fascismo quanto o \u00abfordismo\u00bb. Parece-me um grande equ\u00edvoco, infelizmente adotado hoje por alguns autores brasileiros, ver na \u00abrevolu\u00e7\u00e3o passiva\u00bb uma coisa tamb\u00e9m positiva, algo que a esquerda pode usar em sua luta pela transforma\u00e7\u00e3o da sociedade. Gramsci a considerava um fen\u00f4meno negativo, j\u00e1 que \u00e9 uma modalidade de transforma\u00e7\u00e3o utilizada pelas classes dominantes para conservar o seu poder. Um pol\u00edtico brasileiro, o velho mineiro Antonio Carlos (agora imitado pelo seu hom\u00f4nimo baiano), resumiu muito bem o esp\u00edrito da revolu\u00e7\u00e3o passiva, quando, em 1930, afirmou: \u00abFa\u00e7amos a revolu\u00e7\u00e3o antes que o povo a fa\u00e7a\u00bb. A chamada Revolu\u00e7\u00e3o de 30, ali\u00e1s, \u00e9 um caso emblem\u00e1tico de \u00abrevolu\u00e7\u00e3o passiva\u00bb.<\/p>\n<p><b>Folha<\/b><strong> &#8211; Gramsci faz uma distin\u00e7\u00e3o entre dois modelos b\u00e1sicos de sociedade: as \u00aborientais\u00bb (pouco diversificadas) e as \u00abocidentais\u00bb (muito complexas). Como situar o Brasil nesse quadro? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Coutinho &#8211; <\/strong>Para Gramsci, no \u00abOriente\u00bb (e ele est\u00e1 pensando principalmente na R\u00fassia czarista), o Estado em sentido estrito \u00e9 tudo e a sociedade civil \u00e9 primitiva e gelatinosa; no \u00abOcidente\u00bb (e ele est\u00e1 pensando na Europa Ocidental e nos EUA), h\u00e1 um equil\u00edbrio entre as duas esferas. Foi a partir dessa distin\u00e7\u00e3o que ele n\u00e3o s\u00f3 renovou a teoria do Estado, mas tamb\u00e9m se empenhou em criar um novo paradigma de revolu\u00e7\u00e3o socialista, adequado ao \u00abOcidente\u00bb, diverso daquele dos bolcheviques, que seria v\u00e1lido apenas para pa\u00edses \u00aborientais\u00bb.<\/p>\n<p>O Brasil foi claramente \u00aboriental\u00bb durante o Imp\u00e9rio e a Rep\u00fablica Velha. A partir de 30, com interrup\u00e7\u00f5es, houve um processo de \u00abocidentaliza\u00e7\u00e3o\u00bb, de crescimento e complexifica\u00e7\u00e3o da sociedade civil. Hoje, penso que j\u00e1 somos uma sociedade \u00abocidental\u00bb. Claro, um \u00abOcidente\u00bb perif\u00e9rico e tardio, que cont\u00e9m em seu interior vastas zonas \u00aborientais\u00bb. Mas esse era tamb\u00e9m o caso da It\u00e1lia nos anos 30, e Gramsci n\u00e3o hesitou em consider\u00e1-la \u00abOcidente\u00bb.<\/p>\n<p>Por isso, um caminho vi\u00e1vel para o socialismo no Brasil n\u00e3o pode ser concebido a partir do que existe aqui de \u00aborientalidade\u00bb, mas deve respeitar essa \u00abocidentalidade\u00bb e se basear numa paciente batalha pela hegemonia, pela conquista de espa\u00e7os na sociedade civil. Embora a express\u00e3o n\u00e3o seja de Gramsci, agrada-me chamar esse caminho de \u00abreformismo revolucion\u00e1rio\u00bb.<\/p>\n<p><b>Folha<\/b><strong> &#8211; Gramsci atribu\u00eda \u00e0 cultura, \u00e0 superestrutura, uma dimens\u00e3o pol\u00edtica que foi subestimada pelo marxismo ortodoxo <\/strong>\u2014<strong> muito preso ao determinismo econ\u00f4mico. Quais as implica\u00e7\u00f5es dessa abordagem? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Coutinho &#8211; <\/strong>Certamente, entre os marxistas, Gramsci foi um dos que mais valorizaram a cultura e seu papel n\u00e3o s\u00f3 na transforma\u00e7\u00e3o da sociedade, mas tamb\u00e9m na sua conserva\u00e7\u00e3o. Essa valoriza\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos momentos constitutivos do seu conceito de hegemonia. Em Gramsci, hegemonia n\u00e3o \u00e9 apenas dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m cultural, isto \u00e9, obten\u00e7\u00e3o de consenso para um universo de valores, de normas morais, de regras de conduta. Mas \u00e9 preciso observar o seguinte: embora tenha ligado a cultura \u00e0 \u00abgrande pol\u00edtica\u00bb, que definia como um momento de liberdade e de universaliza\u00e7\u00e3o, Gramsci sempre combateu a instrumentaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da cultura, sempre respeitou sua autonomia, sua especificidade. Ou seja: a arte, assim como a cultura em geral, n\u00e3o se faz apenas com boas inten\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p><b>Folha<\/b><strong> &#8211; Os cadernos foram escritos antes que houvesse TV, Internet, m\u00eddia eletr\u00f4nica &#8212; o que se tem chamado de \u00abquarto poder\u00bb. Como um gramsciano avaliaria a emerg\u00eancia desse novo fen\u00f4meno? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Coutinho &#8211; <\/strong>Na medida em que o mundo da m\u00eddia continua a ser propriedade privada de pequenos grupos da classe dominante, isso provoca um indiscut\u00edvel desequil\u00edbrio na disputa pela hegemonia. A nova m\u00eddia eletr\u00f4nica, sobretudo a TV, tem um peso ineg\u00e1vel na forma\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, na constru\u00e7\u00e3o da cultura que est\u00e1 na base das rela\u00e7\u00f5es de hegemonia. Mas essa nova m\u00eddia tamb\u00e9m est\u00e1 imersa na sociedade civil e sofre sua influ\u00eancia. Lembro que, na campanha pelas Diretas-j\u00e1, em 84, a Globo come\u00e7ou simplesmente ignorando o movimento. Mas, a partir de um certo momento, \u00e0 medida que a campanha se tornava de massa, n\u00e3o s\u00f3 foi pressionada a \u00abrepercutir\u00bb a campanha, mas at\u00e9 mesmo assumiu um tom simp\u00e1tico a ela.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m aqui, portanto, trata-se de lutar pela conquista de espa\u00e7os no interior da m\u00eddia, o que significa lutar por sua efetiva democratiza\u00e7\u00e3o. Isso implica n\u00e3o s\u00f3 uma press\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, mas tamb\u00e9m a elabora\u00e7\u00e3o de uma legisla\u00e7\u00e3o adequada, que desprivatize o controle da m\u00eddia e o torne efetivamente p\u00fablico. Isso n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de estatiza\u00e7\u00e3o, mas sim de controle efetivo pela sociedade civil. Se o r\u00e1dio e a televis\u00e3o s\u00e3o uma concess\u00e3o p\u00fablica, devem evidentemente ser publicamente controlados. Em suma, um gramsciano veria o mundo da m\u00eddia como mais um espa\u00e7o de luta pela hegemonia. Nesse sentido, ele estaria mais pr\u00f3ximo de Benjamin, que supunha ser poss\u00edvel utilizar revolucionariamente a \u00abreprodutibilidade t\u00e9cnica\u00bb da cultura, do que de Adorno e Horkheimer, que condenam em bloco o que chamam de \u00abind\u00fastria cultural\u00bb.<\/p>\n<p><strong>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/strong><b><br \/>\n<\/b><strong>2. DEPOIMENTOS <\/strong><b><br \/>\n<\/b><strong>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211; <\/strong><b><\/p>\n<p><\/b>RAYMUNDO FAORO, ensa\u00edsta e advogado: \u00abGramsci \u00e9 um marxista que n\u00e3o pereceu na recente fogueira que pretendeu liquidar o marxismo. Ele, al\u00e9m de original e avesso \u00e0 ortodoxia, tem especial significa\u00e7\u00e3o para a compreens\u00e3o do Brasil. H\u00e1 conceitos seus que, neste pa\u00eds, s\u00e3o atual\u00edssimos. Felizmente, dessa vez, ser\u00e1 editada a obra completa, num conjunto que \u00e9 essencial para o conhecimento de suas id\u00e9ias.\u00bb<\/p>\n<p>JOS\u00c9 ARTHUR GIANNOTTI, fil\u00f3sofo: \u00abEst\u00e1 havendo, felizmente, um certo retorno a Marx, na medida em que n\u00e3o s\u00f3 o neoliberalismo est\u00e1 em xeque, mas tamb\u00e9m a pr\u00f3pria forma de pensar a sociedade entrou em colapso. A publica\u00e7\u00e3o de Gramsci se insere nesse quadro. Mesmo nos EUA se tem notado essa tend\u00eancia.\u00bb<\/p>\n<p>LUIZ WERNECK VIANNA, cientista pol\u00edtico: \u00abA recep\u00e7\u00e3o de Gramsci no Brasil deve ser contextualizada no processo de resist\u00eancia ao regime militar. Com a sua revaloriza\u00e7\u00e3o da sociedade civil, Gramsci foi o te\u00f3rico que favoreceu uma alian\u00e7a entre uma certa esquerda (uma ala do PCB) e alguns liberais preocupados em emancipar a sociedade do controle do Estado. Tenho a expectativa de que a edi\u00e7\u00e3o dos Cadernos desencadeie um novo tipo de reflex\u00e3o.\u00bb<\/p>\n<p>LEANDRO KONDER, ensa\u00edsta e escritor: \u00abMais de 30 anos se passaram e Gramsci est\u00e1 de volta entre n\u00f3s. \u00c9 uma excelente oportunidade para as novas gera\u00e7\u00f5es digerirem o que ele escreveu sobre a sociedade civil e o Estado, a guerra de posi\u00e7\u00f5es e a hegemonia, os intelectuais e a revolu\u00e7\u00e3o passiva, o senso comum e o bom senso, o nacional-popular e a pol\u00edtica cultural. Riqu\u00edssimo material para reflex\u00e3o.\u00bb<\/p>\n<p>JOS\u00c9 GENO\u00cdNO, deputado federal (PT-SP): \u00abGramsci \u00e9 uma refer\u00eancia importante para o pensamento de esquerda, um dos que mais contribu\u00edram para renovar o marxismo neste s\u00e9culo, tendo introduzido o conceito de \u00abhegemonia\u00bb \u2014 em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 id\u00e9ia de \u00abassalto ao poder\u00bb. Alguns pontos est\u00e3o superados, como as bases do dogmatismo marxista. A esquerda tem de ter uma rela\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia com esses textos, tom\u00e1-los como refer\u00eancia para uma releitura diante de um novo contexto. A cultura da esquerda em nosso pa\u00eds \u00e9 muito fraca. Essa publica\u00e7\u00e3o ajudar\u00e1 a melhorar a qualidade do debate.\u00bb<\/p>\n<p>JACOB GORENDER, historiador: \u00abRespondendo \u00e0 indaga\u00e7\u00e3o a respeito do processo da revolu\u00e7\u00e3o socialista no Ocidente, no primeiro p\u00f3s-Guerra, Gramsci p\u00f5e \u00e0 luz o n\u00edvel de profundidade no qual se descobre a hegemonia burguesa alicer\u00e7ada na conquista do consenso do proletariado. Agora, todavia, o processo hist\u00f3rico completou um ciclo, que permite desvelar um n\u00edvel ainda mais profundo do conhecimento social: aquele em que se torna patente o reformismo ontol\u00f3gico do proletariado, sua prefer\u00eancia fundamental pelos benef\u00edcios dentro do pr\u00f3prio sistema capitalista.\u00bb<\/p>\n<p>FREI BETTO, frade dominicano e escritor: \u00abConsidero Gramsci mais atual que nunca, porque foi dos poucos te\u00f3ricos a tratar a quest\u00e3o da subjetividade e da cultura no processo hist\u00f3rico. A queda do Muro de Berlim, a meu ver, resultou do fracasso de se tentar construir coisa nova com material velho. A proposta era boa, conseguiu criar direitos sociais razoavelmente igualit\u00e1rios, por\u00e9m n\u00e3o se trabalhou a quest\u00e3o da subjetividade e sua express\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o da sociedade civil e da democracia. Particularmente me encanta em Gramsci a \u00f3tica despreconceituosa diante do fen\u00f4meno religioso, o que \u00e9 raro nos te\u00f3ricos marxistas da primeira metade do s\u00e9culo.\u00bb<\/p>\n<p><strong>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<\/strong><b><br \/>\n<\/b><strong>3. ARTIGOS &#8211; L\u00f6wy, Liguori, Rouanet <\/strong><b><br \/>\n<\/b><strong>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211; <\/strong><\/p>\n<p><b>O pensador heterodoxo<\/b><strong>, de MICHAEL L\u00d6WY <\/strong><\/p>\n<p>Entre as v\u00e1rias raz\u00f5es que estimularam a recep\u00e7\u00e3o de Gramsci no Brasil a partir dos anos 60, uma das mais importantes foi sem d\u00favida o desejo de levantar a chapa de chumbo do positivismo, que pesava com v\u00e1rias toneladas n\u00e3o s\u00f3 sobre a cultura \u00abrepublicana\u00bb brasileira desde o fim do s\u00e9culo 19, mas tamb\u00e9m sobre a cultura pol\u00edtica da esquerda marxista.<\/p>\n<p>Mais conjunturalmente, se tratava de encontrar pontos de apoio pol\u00edtico-filos\u00f3ficos para resistir \u00e0 onda de marxo-positivismo estruturalista promovida por Althusser e seus disc\u00edpulos, que vinha tendo grande impacto na Fran\u00e7a e no Brasil. \u00c9 nesse contexto que v\u00e1rios pensadores marxistas brasileiros \u2014 entre os quais Carlos Nelson Coutinho tem um papel pioneiro \u2014 v\u00e3o come\u00e7ar a introduzir o pensamento de Gramsci no Brasil, traduzindo suas obras e utilizando seus conceitos para interpretar a realidade brasileira.<\/p>\n<p>A obra de Antonio Gramsci representa, com efeito, uma das tentativas mais radicais de libertar o marxismo da heran\u00e7a cientificista e positivista que predominou na vers\u00e3o \u00abortodoxa\u00bb, tanto da Segunda Internacional (Plekhanov, Kautsky) como da Terceira (Bukharin, Stalin).<\/p>\n<p>Na obra de juventude de Gramsci (1916-19) a refer\u00eancia ao idealismo hegeliano de Croce e Labriola ou ao voluntarismo \u00e9tico de Bergson e Sorel \u00e9 essencialmente um meio para lutar contra a ortodoxia \u00abcient\u00edfica\u00bb e o determinismo economicista dos representantes oficiais do marxismo \u00e0 cabe\u00e7a do movimento socialista italiano: Claudio Treves e Filippo Turati. Esse \u00abbergsonismo\u00bb de Gramsci, para citar um termo amb\u00edguo utilizado com frequ\u00eancia por seus advers\u00e1rios positivistas, ser\u00e1 progressivamente superado (aufgehoben) no curso de sua evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e filos\u00f3fica como dirigente comunista italiano.<\/p>\n<p>O famoso artigo de 1917, celebrando a insurrei\u00e7\u00e3o de outubro como \u00abuma revolu\u00e7\u00e3o contra O capital\u00bb, deve tamb\u00e9m ser visto nesse contexto, isto \u00e9, como uma tentativa de romper com o que Gramsci chamava \u00abas esc\u00f3rias positivistas e naturalistas\u00bb do marxismo.<\/p>\n<p>Encarcerado pela pol\u00edcia fascista em 1926, Gramsci vai redigir na pris\u00e3o, no curso dos anos 1929-35, uma s\u00e9rie de notas sobre temas filos\u00f3ficos, pol\u00edticos e culturais que constituem um dos pontos altos na hist\u00f3ria do pensamento cr\u00edtico no s\u00e9culo 20. Ao definir o marxismo como filosofia da pr\u00e1xis e como um m\u00e9todo ao mesmo tempo radicalmente humanista e radicalmente historicista, ele se situa num plano infinitamente superior ao \u00abdiamat\u00bb (materialismo dial\u00e9tico) sovi\u00e9tico e suas in\u00fameras tentativas de \u00abaplica\u00e7\u00e3o\u00bb. Isso tamb\u00e9m se traduz, no plano pol\u00edtico, por um \u00abesfriamento\u00bb, no curso dos anos 30, das rela\u00e7\u00f5es entre Gramsci encarcerado e a dire\u00e7\u00e3o do Partido Comunista Italiano (<u><a href=\"http:\/\/www.acessa.com\/gramsci\/?page=visualizar&amp;id=277\">Palmiro Togliatti<\/a><\/u>).<\/p>\n<p>O historicismo radical implica, antes de tudo, a nega\u00e7\u00e3o de qualquer tentativa de interpretar a realidade social segundo o m\u00e9todo materialista cient\u00edfico-natural, buscando descobrir \u00ableis naturais\u00bb da sociedade que permitam \u00abprever cientificamente\u00bb o curso dos acontecimentos. Ele exige tamb\u00e9m que o materialismo hist\u00f3rico seja aplicado a si mesmo, definindo assim seus pr\u00f3prios limites hist\u00f3rico-sociais. Segundo Gramsci, compreender a historicidade do marxismo significa reconhecer que ele pode \u2014 ou melhor, deve \u2014 ser superado pelo desenvolvimento hist\u00f3rico, com a passagem do reino da necessidade ao reino da liberdade, da sociedade divida em classes \u00e0 sociedade (comunista) sem classes. Evidentemente, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dizer, sem cair no utopismo, qual ser\u00e1 o conte\u00fado dessa nova forma de pensamento. Isso tamb\u00e9m significa, inversamente, que, enquanto vivemos num mundo dominado pelo capitalismo e pelas classes exploradoras, o marxismo continua sendo a forma mais avan\u00e7ada de a\u00e7\u00e3o\/interpreta\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Polemizando contra o historicismo, Louis Althusser insistia que Marx era \u00abum homem de ci\u00eancia como os outros\u00bb, compar\u00e1vel, em seu terreno, a Lavoisier ou Galileu. Sem o dizer de forma expl\u00edcita, ele se opunha diretamente a uma tese de Gramsci, que escrevia: \u00abGraziadei [&#8230;] coloca Marx como unidade em uma s\u00e9rie de grandes cientistas. Erro fundamental: nenhum dos outros produziu uma concep\u00e7\u00e3o original e integral do mundo\u00bb. Essa vis\u00e3o do mundo, a filosofia da pr\u00e1xis, n\u00e3o pode ser decomposta em uma ci\u00eancia positiva de um lado e uma \u00e9tica do outro: ela supera, em uma s\u00edntese dial\u00e9tica, a oposi\u00e7\u00e3o tradicional entre \u00abfatos\u00bb e \u00abvalores\u00bb, ser e dever-ser, conhecimento e a\u00e7\u00e3o, teoria e pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Na sua tentativa de reconstru\u00e7\u00e3o do marxismo e do comunismo, Gramsci submete a uma cr\u00edtica radical a doutrina predominante na <u><a href=\"http:\/\/www.acessa.com\/gramsci\/?page=visualizar&amp;id=109\">Terceira Internacional<\/a><\/u>, que tem uma de suas manifesta\u00e7\u00f5es mais inteligentes no livro de Nikolai Bukharin sobre o materialismo hist\u00f3rico, o Manual Popular de Sociologia Marxista (1922). Trata-se, para o autor dos Cadernos, de uma obra totalmente prisioneira de um conceito de ci\u00eancia copiado das ci\u00eancias naturais \u2014 segundo o princ\u00edpio fixado pelo positivismo de que estas s\u00e3o a \u00fanica forma poss\u00edvel de ci\u00eancia. O resultado \u00e9 que a compreens\u00e3o de Bukharin da hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 dial\u00e9tica, mas inspirada por um \u00abchato e vulgar evolucionismo\u00bb que pretende fazer \u00abprevis\u00f5es cient\u00edficas\u00bb an\u00e1logas \u00e0s que buscam as \u00abci\u00eancias exatas\u00bb.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante observar que alguns anos antes Georg Luk\u00e1cs havia criticado o manual de Bukharin em termos bastante semelhantes na revista Archiv f\u00fcr die Geschichte des Sozialismus und der Arbeiterbewegung (1925). \u00c9 muito pouco prov\u00e1vel que Gramsci tivesse lido esse ensaio: simplesmente os dois partilhavam uma mesma orienta\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, historicista\/dial\u00e9tica, humanista revolucion\u00e1ria e antipositivista, da qual participavam tamb\u00e9m outros pensadores marxistas como Karl Korsch ou \u2014 desconhecido na Europa \u2014 o peruano <u><a href=\"http:\/\/www.acessa.com\/gramsci\/?page=visualizar&amp;id=446\">Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui<\/a><\/u>.<\/p>\n<p>Gramsci praticamente n\u00e3o conhecia os trabalhos de Luk\u00e1cs; e este \u00faltimo s\u00f3 descobriu o marxista italiano a partir dos anos 60. Mas, numa entrevista de julho de 1971 \u2014 pouco antes de sua morte \u2014 para a revista inglesa New Left Review, o fil\u00f3sofo h\u00fangaro reconhece que ele, Karl Korsch e Antonio Gramsci haviam tentado lutar, cada um \u00e0 sua maneira, contra o positivismo e o mecanicismo que o movimento comunista havia herdado da Segunda Internacional. Luk\u00e1cs acrescenta o seguinte coment\u00e1rio retrospectivo: \u00abGramsci era o melhor entre n\u00f3s\u00bb.<\/p>\n<p><b>Um comunista democr\u00e1tico<\/b><strong>, de GUIDO LIGUORI <\/strong><\/p>\n<p>Dez anos j\u00e1 se passaram desde 1989, o ano-s\u00edmbolo que encerrou um pouco antecipadamente o Novecentos, dando a Eric Hobsbawm a possibilidade de defini-lo como um \u00abs\u00e9culo breve\u00bb. Ainda estamos longe de uma plena compreens\u00e3o hist\u00f3rica daqueles acontecimentos, mas uma coisa podemos afirmar com certeza: Antonio Gramsci superou ileso essas recentes tempestades.<\/p>\n<p>As previs\u00f5es de quem vaticinava um redimensionamento de sua \u00abfortuna\u00bb depois do fim do \u00absocialismo real\u00bb e da crise do movimento comunista internacional, em todas as suas distintas vers\u00f5es, foram clamorosamente desmentidas: Gramsci continua sendo lido, estudado, traduzido, citado pelas mais diversas disciplinas e a partir de diferentes pontos de vista pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Obviamente os acontecimentos da \u00abgrande pol\u00edtica\u00bb n\u00e3o deixaram de fazer sentir seu peso. A hist\u00f3ria das interpreta\u00e7\u00f5es gramscianas, de resto, sempre foi exemplarmente \u00abdial\u00e9tica\u00bb. O pensamento do autor dos Cadernos sempre se coadunou aos contextos com que se defrontou, dando lugar a leituras divers\u00edssimas \u2014 como ocorre com os cl\u00e1ssicos e sobretudo com um pensador \u00ababerto\u00bb, problem\u00e1tico, incompleto e (s\u00f3 na apar\u00eancia) fragment\u00e1rio. Isso n\u00e3o significa que todas as leituras sejam leg\u00edtimas, mas apenas que a hist\u00f3ria mesma decidir\u00e1 o que, nele, se mostrar\u00e1 duradouro ou caduco.<\/p>\n<p>Por exemplo: a atual tend\u00eancia \u2014 na It\u00e1lia, mas n\u00e3o apenas \u2014 a fazer de Gramsci um autor democr\u00e1tico-liberal, que n\u00e3o parece ter fundamento nos textos e na hist\u00f3ria deste autor, mas que caracterizou muitas interpreta\u00e7\u00f5es nesses \u00faltimos dez anos, tem futuro? \u00c9 cedo para dizer. O certo \u00e9 que Gramsci se considerava um comunista, ainda que seu modo de s\u00ea-lo, por ser t\u00e3o rico, atento \u00e0 busca do consenso, avesso \u00e0s c\u00f4modas simplifica\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria, o afastassem das vers\u00f5es preponderantes do \u00abser comunista\u00bb neste s\u00e9culo. Talvez o frustrado reconhecimento de Gramsci como a grande figura do comunista democr\u00e1tico \u2014 o que ele de fato era \u2014 decorra do preconceito, partilhado por muitos, de que esta express\u00e3o seria quase um ox\u00edmoro.<\/p>\n<p>Ao lado do debate pol\u00edtico sobre Gramsci, houve na It\u00e1lia dos anos 90 uma intensa discuss\u00e3o filol\u00f3gica sobre sua obra. Entende-se que, para um autor que morreu sem ter podido preparar a edi\u00e7\u00e3o de sua obra principal (os Cadernos do c\u00e1rcere), a quest\u00e3o filol\u00f3gica seja fundamental, se bem que recentemente se tenha exagerado nesse aspecto, dando inclusive a impress\u00e3o de que a filologia estaria sendo usada como anest\u00e9sico ao inc\u00f4modo \u00abser comunista\u00bb do autor.<\/p>\n<p>A recep\u00e7\u00e3o de Gramsci foi profundamente condicionada pela forma como <u><a href=\"http:\/\/www.acessa.com\/gramsci\/?page=visualizar&amp;id=170\">Palmiro Togliatti<\/a><\/u>, seu sucessor na dire\u00e7\u00e3o do Partido Comunista Italiano, publicou os Cadernos. Togliatti reuniu as notas de Gramsci por assunto, eliminando as mais problem\u00e1ticas, isto \u00e9, aquelas que mais colidiam com a pol\u00edtica da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, e tamb\u00e9m as muitas repeti\u00e7\u00f5es e variantes sup\u00e9rfluas. Com isso ele favoreceu bastante a difus\u00e3o e a legibilidade dos Cadernos. Na metade dos anos 70 <u><a href=\"http:\/\/www.acessa.com\/gramsci\/?page=visualizar&amp;id=162\">Valentino Gerratana<\/a><\/u> publicou uma apurada edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, que apresentava a obra de Gramsci tal como ele a havia deixado escrita nos cadernos: uma obra de leitura bem dif\u00edcil, que talvez tenha desencorajado os militantes, mas entusiasmou (com raz\u00e3o) os especialistas.<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 90 houve quem, contra a opini\u00e3o do pr\u00f3prio Gerratana, pensou avan\u00e7ar ainda mais no caminho \u00abfilol\u00f3gico\u00bb, buscando reconstruir os Cadernos n\u00e3o segundo a ordem \u00abespacial\u00bb em que nos chegaram, mas segundo a seq\u00fc\u00eancia cronol\u00f3gica em que o autor os teria pensado e redigido. Gramsci escrevia meio que saltando de um caderno a outro ou dentro de um mesmo caderno, n\u00e3o s\u00f3 pelos complexos motivos do regime carcer\u00e1rio, mas tamb\u00e9m por vontade pr\u00f3pria. Uma edi\u00e7\u00e3o desse tipo talvez fosse inoportuna porque n\u00e3o respeitaria aquele m\u00ednimo planejamento editorial que o pr\u00f3prio Gramsci esbo\u00e7ou no c\u00e1rcere. Al\u00e9m disso, ao pretender estabelecer o que o autor teria feito se fosse livre para escrever suas notas, sem as limita\u00e7\u00f5es impostas, tal edi\u00e7\u00e3o arriscaria sobrepor o arb\u00edtrio do int\u00e9rprete \u00e0 vontade de Gramsci.<\/p>\n<p>Esses imbr\u00f3glios filol\u00f3gicos n\u00e3o deixaram de complicar a vida dos tradutores que, em v\u00e1rias partes do mundo, est\u00e3o hoje \u00e0s voltas com a tentativa de apresentar aos respectivos p\u00fablicos a complexidade do texto de Gramsci, respeitando o escr\u00fapulo filol\u00f3gico de Gerratana, mas tamb\u00e9m a paci\u00eancia e a compet\u00eancia dos tantos leitores que, sem serem especialistas, continuam lendo o autor.<\/p>\n<p>A expectativa \u00e9 que a proposta apresentada pelos <u><a href=\"http:\/\/www.acessa.com\/gramsci\/?page=visualizar&amp;id=296\">organizadores da edi\u00e7\u00e3o brasileira<\/a><\/u> \u2014 que buscaram conciliar a maior \u00abinteligibilidade\u00bb da edi\u00e7\u00e3o de Togliatti com a inteireza e confiabilidade filol\u00f3gica da edi\u00e7\u00e3o Gerratana \u2014 possa dar ao leitor de l\u00edngua portuguesa uma \u00abcaixa de ferramentas\u00bb conceituais ainda \u00fatil para a orienta\u00e7\u00e3o no mundo de hoje. E ao alcance de muitos.<\/p>\n<p><b>A democracia cosmopolita<\/b><strong>, de SERGIO PAULO ROUANET <\/strong><\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 60, um conhecido fil\u00f3sofo marxista disse que era preciso \u00abgramscianizar\u00bb o Brasil. Pouco tempo depois, seus sonhos mais ambiciosos tinham sido ultrapassados pela realidade. Seria um exagero dizer que o Brasil tinha se \u00abgramscianizado\u00bb, mas o certo \u00e9 que da noite para o dia quase toda a esquerda brasileira come\u00e7ou a usar express\u00f5es como \u00abintelectual org\u00e2nico\u00bb, \u00abbloco hist\u00f3rico\u00bb e \u00abhegemonia\u00bb.<\/p>\n<p>O que havia passado? Muito simplesmente, a esquerda independente sentira a necessidade de um marxismo mais aberto. Luk\u00e1cs oferecera uma alternativa est\u00e9tica. N\u00e3o faltaram alternativas filos\u00f3ficas, como a Escola de Frankfurt e Walter Benjamin. Havia uma alternativa pol\u00edtica, o mao\u00edsmo. Com sua autoridade de ex-secret\u00e1rio-geral do Partido Comunista Italiano e de pensador que analisara todas as esferas da cultura, Gramsci foi num certo sentido a s\u00edntese de todas essas alternativas.<\/p>\n<p>Em seus Cadernos do c\u00e1rcere, ele mostrara que o determinismo econ\u00f4mico era uma doutrina grosseira, compar\u00e1vel \u00e0 atitude do adolescente \u00absat\u00e2nico\u00bb, no per\u00edodo rom\u00e2ntico, que via, numa bela mulher, apenas o inv\u00f3lucro de um esqueleto. Sem a inst\u00e2ncia ideol\u00f3gica, dizia Gramsci, a base econ\u00f4mica era inerte, desprovida de qualquer dinamismo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Tudo isso era altamente bem-vindo para uma dissid\u00eancia em busca de legitimidade te\u00f3rica. A gera\u00e7\u00e3o anterior tinha aprendido com Karl Mannheim que a intelligentsia era um estrato social flutuante (eine freischwebende Intelligenz), sem nenhuma vincula\u00e7\u00e3o com grupos sociais espec\u00edficos. Ora, os intelectuais se consideravam ligados aos interesses da classe oper\u00e1ria. Por outro lado, o partido que supostamente defendia esses interesses tinha uma desconfian\u00e7a instintiva contra os intelectuais, em sua quase totalidade de origem burguesa.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse momento que aparece Gramsci, dizendo que a classe oper\u00e1ria s\u00f3 poderia chegar ao poder depois que os intelectuais tivessem logrado dissolver a hegemonia existente. Gra\u00e7as a Gramsci, os intelectuais recebiam uma miss\u00e3o, a de difundir uma nova concep\u00e7\u00e3o do mundo; um cargo, o de \u00abfuncion\u00e1rios da superestrutura\u00bb; e um espa\u00e7o de atua\u00e7\u00e3o, a sociedade civil, atravessada por institui\u00e7\u00f5es como a fam\u00edlia, a Igreja, a escola, a universidade, o jornalismo, o r\u00e1dio e a televis\u00e3o.<\/p>\n<p>A voga de Gramsci pertence em grande parte ao passado. Ela deixou apenas alguns vest\u00edgios, como a express\u00e3o \u00absociedade civil\u00bb, que em geral \u00e9 usada hoje no Brasil por pessoas que nunca ouviram falar em Gramsci. Esse decl\u00ednio \u00e9 explic\u00e1vel pela redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e pela perda de prest\u00edgio do marxismo, em todas as suas variantes. Preferimos hoje ver a sociedade civil como um espa\u00e7o de argumenta\u00e7\u00e3o e debate, e n\u00e3o como a arena em que se trava uma luta de morte entre classes antag\u00f4nicas. Ficamos um pouco constrangidos com a trucul\u00eancia de certas met\u00e1foras militares, como a que fala em \u00abguerra de movimento\u00bb, em contraste com a \u00abguerra de posi\u00e7\u00e3o\u00bb, ou a que considera o Estado como uma \u00abtrincheira avan\u00e7ada\u00bb e a sociedade civil como \u00abuma robusta cadeia de fortalezas e casamatas\u00bb. E h\u00e1 que reconhecer hoje, em retrospecto, que Althusser teve alguma raz\u00e3o, nos anos 60, em preocupar-se com o \u00abhistoricismo\u00bb de Gramsci, que o levou a considerar \u00abverdadeiras\u00bb todas as concep\u00e7\u00f5es de mundo que se tivessem objetivado historicamente.<\/p>\n<p>E, no entanto, \u00e9 preciso reler Gramsci. Sob v\u00e1rios aspectos sua atualidade \u00e9 indiscut\u00edvel.<\/p>\n<p>Veja-se, por exemplo, o que ele disse sobre a degrada\u00e7\u00e3o da mulher na sociedade moderna, que a reduz \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u00abmam\u00edfero de luxo\u00bb. Para Gramsci, \u00aba forma\u00e7\u00e3o de um nova personalidade feminina \u00e9 a quest\u00e3o mais importante, de car\u00e1ter \u00e9tico e civil, relacionada com a quest\u00e3o sexual. Enquanto as mulheres n\u00e3o puderem atingir uma independ\u00eancia genu\u00edna em rela\u00e7\u00e3o aos homens, uma nova maneira de refletirem sobre si mesmas e sobre seu papel nas rela\u00e7\u00f5es sexuais, a quest\u00e3o sexual permanecer\u00e1 rica em caracter\u00edsticas m\u00f3rbidas\u00bb.<\/p>\n<p>Em termos mais gerais, nenhuma teoria pol\u00edtica que se respeite pode ignorar certas intui\u00e7\u00f5es de Gramsci, como a vis\u00e3o ampliada de Estado, incluindo n\u00e3o somente a sociedade pol\u00edtica (institui\u00e7\u00f5es governamentais), mas tamb\u00e9m a sociedade civil, constitu\u00edda pelas associa\u00e7\u00f5es ditas privadas. Essa id\u00e9ia \u00e9 de grande import\u00e2ncia na concep\u00e7\u00e3o atual de democracia, que pressup\u00f5e a livre intera\u00e7\u00e3o entre a esfera estatal e a social e v\u00ea em cada \u00f3rg\u00e3o da sociedade civil o lugar de um confronto entre posi\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias.<\/p>\n<p>Mas, ao lado desses temas tradicionais, creio que o pensamento gramsciano pode comprovar sua vitalidade defrontando-se com um tema novo, que ultimamente vem merecendo a aten\u00e7\u00e3o de cientistas sociais como David Held e Daniele Archibugi: o da \u00abdemocracia cosmopolita\u00bb. A democracia cosmopolita \u00e9 uma forma de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que complementa as democracias nacionais, estabelecendo, com a participa\u00e7\u00e3o e o assentimento expresso dos diretamente interessados, formas transnacionais de governo e de cidadania.<\/p>\n<p>Podemos reformular na linguagem de Gramsci a estrutura da democracia cosmopolita. Ela seria composta de dois estratos: uma \u00absociedade pol\u00edtica\u00bb, com institui\u00e7\u00f5es governamentais de \u00e2mbito mundial, cujos integrantes seriam eleitos diretamente pelos indiv\u00edduos, qualquer que fosse sua nacionalidade, e uma \u00absociedade civil\u00bb, tamb\u00e9m de \u00e2mbito mundial, composta de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais, sindicatos, partidos pol\u00edticos, igrejas e movimentos sociais.<\/p>\n<p>Os atores que Gramsci mais valorizava \u2014 os intelectuais \u2014 desempenhariam um papel estrat\u00e9gico na democracia cosmopolita. Eles atuariam na sociedade civil universal, assim como os intelectuais de Gramsci atuavam nas sociedades civis nacionais. Estariam tamb\u00e9m a servi\u00e7o de um \u00abPr\u00edncipe\u00bb, com a diferen\u00e7a de que ele n\u00e3o seria nem um d\u00e9spota, como no tempo de Maquiavel, nem um partido totalit\u00e1rio, mas sim um sistema democr\u00e1tico global. E teriam um programa, voltado para os interesses mais gerais da humanidade: a luta contra as viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos, contra as assimetrias internacionais de riqueza e de poder, contra as aberra\u00e7\u00f5es do capitalismo globalizado e contra os particularismos selvagens que est\u00e3o levando \u00e0 retribaliza\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>Finalmente, a matriz gramsciana pode contribuir para essa reflex\u00e3o com uma utopia: a de uma nova civilt\u00e0, que seria algo como a \u00abid\u00e9ia reguladora\u00bb da democracia cosmopolita. \u00c9 o projeto, inalcan\u00e7\u00e1vel, mas irrenunci\u00e1vel, de uma civiliza\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria, que segundo Gramsci teria \u00abas caracter\u00edsticas de massa da Reforma protestante e do Iluminismo franc\u00eas e as caracter\u00edsticas de classicismo da cultura grega e do Renascimento italiano, uma cultura que sintetize Kant e Robespierre, em uma dial\u00e9tica intr\u00ednseca a um grupo social, n\u00e3o s\u00f3 franc\u00eas ou alem\u00e3o, mas europeu e mundial\u00bb.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Fonte: <\/b><i>Folha de S. Paulo<\/i>. Caderno Mais!, 21 nov. 1999.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><P> 1999  <\/P><P> <\/P><P> <\/P><P>O material publicado pela Folha de S. Paulo, reproduzido abaixo, compreende a entrevista de Carlos Nelson Coutinho, realizada por Maur&iacute;cio Santana Dias; depoimentos de expressivos intelectuais brasileiros; e tr&ecirc;s artigos especiais, assinados por Michael L&ouml;wy, Guido Liguori e S&eacute;rgio Paulo Rouanet <\/P><P>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;1. ENTREVISTA &#8211; Carlos Nelson Coutinho &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;  <\/P><P>No dia 8 de novembro de 1926, o deputado e secret&aacute;rio-geral do PCI (Partido Comunista Italiano), Antonio Gramsci (1891-1937), foi preso pelas for&ccedil;as de Mussolini. Dois anos mais tarde, em seu julgamento, o promotor teria afirmado: &quot;&Eacute; preciso impedir que esse c&eacute;rebro funcione por 20 anos&quot;. Gramsci foi ent&atilde;o condenado a uma pena pouco maior que essa, da qual cumpriu mais de dez anos. No c&aacute;rcere, entre 29 e 35, produziu uma das mais importantes obras de reflex&atilde;o pol&iacute;tica do s&eacute;culo.  <\/P><\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[865,1356],"class_list":["post-821","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-la-izquierda-a-debate","tag-antonio-gramsci","tag-carlos-nelson-coutinho"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/821","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=821"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/821\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=821"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=821"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espai-marx.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=821"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}