Entrevista a Pedro Montes, economista: “Há que romper com o euro para garantir a saída da crise”

Alexandre Carrodeguas

Economista de longa trajetória profissional no Serviço de Estudos do Banco de Espanha (desde 1969), Pedro Montes tem idêntico percurso de compromisso com a esquerda social do Estado espanhol.

Autor de numerosos estudos e livros divulgativos sobre o neoliberalismo e a historia do euro, nom duvida na receita necessária para poder enfrentar a crise com garantias para os povos que a padecem: propom a imediata saída do euro e o desmantelamento do atual projeto de Uniom Europeia, que considera irreversivelmente fracassada.

O companheiro Alexandre Carrodéguas tivo ocasiom de entrevistar Pedro Montes para os leitores e leitoras do Diário Liberdade, durante umhas jornadas decorridas recentemente em Barcelona.

Este é o resultado da entrevista, que recomendamos ler como muniçom teórica para a luita social por umha saída revolucionária à crise capitalista.

Diário Liberdade – Podia falar-nos um bocado da relaçom existente entre o euro e a crise?

Pedro Montes – Umha crise desta natureza e destas dimensons tem causas complexas, mas eu já escrevim num artigo sobre a crise que, em minha opiniom, a chave desta crise é precisamente o euro. O euro é fundamental na hora de explicar a crise, sem nengumha dúvida.

Isto é assim num duplo sentido: primeiro, porque com o euro se originárom uns enormes desequilíbrios na chamada balança de pagamentos por “conta corrente” entre umhas economias e outras. Umha vez que já nom havia tipos de cámbio para que, tanto as economias mais fortes como as mais fracas, pudessem depreciar as suas moedas, isso resultou nuns desequilíbrios exteriores crescentes. Daí que tenhamos atingido défices, em estados como o espanhol ou Grécia, de entre 10 e 15% em relaçom ao PIB.

Essas magnitudes nunca fôrom reconhecidas antes na história. O euro possibilitou e facilitou tais desequilíbrios, mas ao mesmo tempo também facilitou umha grande expansom financeira, porque permitiu que qualquer país fosse financiado, levando a pensar que os défices podiam crescer sem problema. Acreditava-se que os mercados iriam assumir essas dívidas de cada Estado sem problemas, mas isso era falso. Na medida que os estados aumentavam enormemente os seus défices, acumulárom dívidas que acabárom por emergir como verdadeiros problemas para esses estados.

Entretanto, aconteceu que também rebentou a crise financeira internacional em setembro de 2008, com a falência do banco Lehman Brothers. Aí os mercados se fecham e começa a comprovar-se quem está endividado com quem, o valor da dívida, a qualidade, se pode ser paga ou nom… Entom descobre-se que a Europa é umha das regions do mundo com maiores desequilíbrios e com maiores dívidas entre estados.

A partir daí, entramos na crise do euro, porque essa moeda nom permitiu um desenvolvimento equilibrado das diferentes economias, mas sim um endividamento colossal de todas elas. Para além doutros fatores, o euro já criou as condiçons para umha grande crise na Europa.

DL – Era a criaçom do euro umha proposta utópica?

Pedro – Eu nom diria utópica, porque de facto o euro foi construído, mas sim foi umha construçom absolutamente errada, em dous sentidos. Para já, nom havia bases reais sensatas para a criaçom de umha moeda única entre estados tam desiguais como os que inicialmente formárom a uniom monetária. Posteriormente, o problema tem vindo a agravar-se porque o euro se estendeu até os 17 estados atuais, sem haver bases económicas para tal.

De facto, as famosas condiçons de convergência, que supunham um indicador sobre que estados podiam aderir ou nom ao euro desde os inícios, nom se cumprírom (por exemplo, a Bélgica devia cumprir com um máximo de dívida de 60% aquando da sua adesom, mas tinha 120% do PIB).

Ao mesmo tempo que nom se cumpriam as condiçons mínimas, sabia-se que tinha já havido umha crise do sistema monetário europeu poucos anos antes, em 93-94, em que o acordo de manter umha certa estabilidade monetária saltou polos ares devido às importantes diferenças económicas entre os diferentes estados. Todo isto tornava muito ousado tentar criar umha moeda única e permanente, fixando mesmo os tipos de cámbio.

DL – Podemos dizer que foi umha fugida para a frente?

Pedro – Podemos, sim. Deviam ter parado para refletir sobre “aonde é que vamos” e “quem é que vai”, já que, contra as reservas anteriores, se decidiu que todos os estados poderiam aderir no momento da criaçom da moeda única.

Por outra parte, está o aspeto político-ideológico. Os diferentes estados, com a fixaçom de tipos de cámbio rígidos e inamovíveis, veem surgir umha concorrência entre todos eles que é descarregada sobre as condiçons laborais, os salários, os impostos, os serviços públicos (salários indiretos dos trabalhadores e trabalhadoras), as pensons, etc.

Nom sei é como a esquerda foi tam estúpida para se comprometer com semelhante processo de criaçom do euro. Era claro que estávamos a entregar tantas armas ao capital e à burguesia que a esquerda deveu ter visto que aquilo nom era muito sensato. Porém, a euforia europeísta que nos invadiu durante muito tempo levou a que no Estado espanhol muito pouca gente se opugesse à criaçom do euro.

DL – Quem era entom que tinha tanto interesse em criar o euro?

Pedro – As burguesias europeias, para sustentarem a concorrência. Ao capital internacional também vinha bem um espaço e umha moeda única, para fazer os seus cálculos e os seus negócios livremente num ámbito territorial muito mais amplo.

DL – Entom, como se entende a posiçom dos sindicatos maioritários espanhóis -CCOO e UGT- em favor de Maastricht, pedindo um ‘sim crítico’ no referendo da Constituiçom europeia…?

Pedro – Foi umha fugida, umha cobardia na hora de se definir num problema que iria ser essencial no futuro. Deixárom-se arrastar, como a maioria da esquerda, pensando que era um grande avanço, sem pensar nas conseqüências terríveis a nível económico e ideológico. A partir daí ficamos em maos da burguesia para que figessem o que quigessem com o argumento de que havia que ser “competitivo”.

Nessa lógica, nem sequer os trabalhadores podiam luitar, porque as suas vitórias eram prejudiciais na medida que o seu Estado perdia competitividade.

DL – Pode-se falar de um complexo em torno da Europa modernizadora, que nos permitiria entrar no “clube dos ricos” e por aí diante?

Pedro – Sem dúvida, vendêrom-nos umha Europa que nom existia e o Estado espanhol comportou-se desde 1986, aquando da entrada no Mercado Comum, como “aluno avantajado”, querendo ser admitido, assimilado, e mostrando um grande “afám europeísta”. Porém, todo era um pouco falso, já que a integraçom europeia nom foi real, ficando claro que a uniom monetária nom significava umha uniom fiscal, o que é contraditório e evitou a intervençom do poder público que nom é comparável com a que representam os orçamentos comunitários.

As disfunçons entre zonas mais e menos desenvolvidas corrigem-se nos estados através do setor público, mas no ámbito europeu nom é assim, porque se mantenhem os orçamentos estatais desligados, o que permite que os grandes estados como a Alemanha se reforcem sem qualquer compensaçom dos desequilíbrios em favor das zonas menos favorecidas.

DL – Que opiniom tem do desmantelamento dos setores produtivos básicos (naval, agricultura…) que se verificou em países como a Galiza desde a sua incorporaçom forçada à Uniom Europeia?

Pedro – Nom conheço especificamente o caso galego, mas as normas de concorrência europeias, com as suas quotas, devem sem dúvida ter um efeito muito negativo na economia galega. No caso da indústria naval, a crise atual parte já da dos anos 70, mas a invasom de mercadorias, a dificuldade para exportar e as normas comunitárias significam destruiçom do tecido produtivo interno.

DL – Como avalia o papel do salários no desenvolvimento da crise?

Pedro – O problema dos salários parte de que a burguesia recebeu armas para poder controlá-los diretamente mais que nunca. Os próprios sindicatos tenhem participado com os pactos sociais para esse controlo burguês dos salários. A partir de Maastricht, começa-se a falar das condiçons de convergência, que sempre incluíam a “moderaçom salarial”, com a escusa da competitividade, mas o mais grave véu com a crise, quando se criou o mito de que “vivíamos por cima das nossas possibilidades” e devia haver um ajuste interno.

Foi Krugman [Nobel de Economia 2008] quem propujo que, se nom podia fazer um ajuste externo através da balança de pagamentos, devia havê-lo interno, através da revisom salarial, aplicada no caso espanhol primeiro polo PSOE e depois polo PP, até hoje, de maneira terrorífica. A mais recente reforma laboral tinha esse objetivo preferencial, aumentando as desigualdades na destribuiçom da renda e sem afetar positivamente a resoluçom da crise.

DL – E a expansom do crédito, até que ponto influi na atual crise?

Pedro – Um papel enorme. Os salários som essenciais em qualquer economia, porque refletem a capacidade de compra da populaçom, supondo 60 ou 70% da procura de um país, mas claro, como existe umha guerra contra os salários, a austeridade produz umha restriçom da procura.

Daí parte a chamada financeirizaçom: “Nom dou salário aos trabalhadores e trabalhadoras, mas sim crédito”. Essa possibilidade de compra concedida através do crédito acaba degenerando ao ficar em evidência que nom é possível pagar esses créditos, o que no ámbito da construçom se vê no desenvolvimento da chamada bolha imobiliária.

O crédito é umha das seqüelas do neoliberalismo, junto à livre circulaçom de capitais e a desregulaçom económica, que provocam a crise financeira. Isso situa o próprio neoliberalismo como causante da crise mundial atual. Nom sei se todo isso está nos genes do neoliberalismo, mas de facto foi assim que atuou.

DL – Podemos falar também de umha fugida para a frente em relaçom à crise dos 70?

Pedro – Sim. Mandel fala dos ciclos longos da economia e eu concordo nisso. Houvo um ciclo longo de expansom, que partiu do fim da II Guerra Mundial e durou até 1972-73, em que se produz umha mudança na tendência económica mundial, que ainda nom acabou. Depois disso, nom voltou a haver expansom comparável às existentes anteriormente, nem sequer no caso espanhol, que até 2008 tivo taxas de crescimento de 2,5%. Nada comparável às existentes naquele longo período de expansom, que no Estado espanhol chegou a registar 6 e 7% de crescimento económico anual e cumulativo.

DL – Entom continuamos na crise dos 70?

Pedro – O período histórico longo em que estamos é recessivo, mas nos últimos 40 anos acontecêrom muitas cousas e agora realmentes estamos num período especialmente grave.

DL – Concorda na visom marxista que explica as crises como resultado da sobreproduçom?

Pedro – Concordo, sim. O capitalismo nom produz para satisfazer necessidades e sim para gerar lucro. Isso provoca contradiçons diversas, como a sobreproduçom ou o subconsumo, relacionado com a financeirizaçom de que antes falamos.

DL – Porque a esquerda tem que luitar por abandonar o euro?

Pedro – Porque é umha condena imposta polo capitalismo e se quigermos começar a sair da crise, deve recuperar-se umha certa capacidade de concorrência, reabilitando a própria moeda, desvalorizando-a em relaçom ao euro atual e melhorando assim a relaçom entre importaçom e exportaçom.

Além disso, os países endividados perdem liquidez, ao carecerem de excedentes na balança de pagamento, que é negativa, e de financiamento exterior. A economia fica deprimida e com subconsumo devido à falta de liquidez. A liquidez cria-se com a emissom de moeda por cada Estado, pondo fim aos cortes e favorecendo o consumo.

Agora o tecido produtivo está destruir-se por essa falta de liquidez.

DL – Mas alguns economistas “de esquerda” dim que abandonar agora o euro seria como saltar de um aviom em marcha…

Pedro – Isso é engraçado, sim… o problema é que o aviom nom está em marcha, o aviom está próximo de colidir. Devemos saltar, se houver ocasiom, antes da colisom. Nom sei porque se vê como impossível desmontar algo que existe há 15 anos, depois de todo o que já tem acontecido na história nas últimas décadas, a começar pola queda da Uniom Soviética, por exemplo.

Nom serve dizer que “Europa ou o caos”, porque a Europa já é o caos e a Europa que proponhem é impossível de construir.

DL – Acha que a esquerda devia começar a defender a saída do euro em lugar de se limitar a dizer que há que crescer e criar emprego?

Pedro – Absolutamente. Crescer e criar emprego é a soluçom final, mas há que incidir nos problemas reais que impedem atingi-la. Surpreende que, estando claro que nom há soluçom no quadro do euro, que leva os estados à Idade Média, porque nom se pode desmontar esta Europa e começar a construir umha diferente? É preciso recuperar a soberania económica dos estados: taxas alfandegárias, política fiscal, controlo dos capitais, setor público industrial, política monetária… as sociedades estám atadas e a esquerda nom está a reivindicar a recuperaçom de todos esses recursos por parte de cada sociedade particular. Nom se entende essa atitude.

O continuísmo nom vai servir, isto é umha ruptura e, digam o que dixerem, fagam o que figerem, a Europa do euro nom se vai sustentar. Estamos agora, no Estado espanhol, nos 6 milhons de desempregados e desempregadas. Alguém pensa que se vai criar emprego nos próximos 2, 3 ou 4 anos? Vamos continuar até os 7 milhons de pessoas no desemprego? Esta é a normalidade que nos proponhem?

Essa Europa nom é viável e nom existe já projeto de construçom europeia. Deve-se romper o euro e que cada sociedade recupere os seus instrumentos para enfrentar a crise de maneira efetiva e soberana.

Diário Liberdade www.diarioliberdade.org

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