O novo eixo da luta de classes
SITUAÇÃO DOS FAVELADOS NO TERCEIRO MUNDO CORRESPONDE EM BOA PARTE À DEFINIÇÃO DO SUJEITO REVOLUCIONÁRIO ANTEVISTA POR KARL MARX O destino de um velho revolucionário comunista esloveno pode ser exposto como metáfora perfeita das voltas e reviravoltas descritas pelo stalinismo. Em 1943, quando a Itália capitulou, ele comandou uma rebelião de prisioneiros iugoslavos em um campo de concentração em Rab, uma ilha do mar Adriático: sob sua liderança, 200 prisioneiros semimortos de fome desarmaram 2.200 soldados italianos, sem nenhuma ajuda externa. Após a guerra ele foi preso e encarcerado numa "goli otok" ("ilha nua") da região -um conhecido campo de concentração comunista. Em 1953, ainda nesse campo, ele foi mobilizado, com outros detentos, para erguer um monumento para comemorar o décimo aniversário da rebelião de 1943 em Rab. Ou seja, enquanto era prisioneiro dos comunistas, foi obrigado a erguer um monumento a ele próprio, à rebelião liderada por ele… Se a injustiça (é mais adequado falar dela que da justiça) poética significou alguma coisa, foi o seguinte: não teria o destino desse revolucionário sido aquele da população inteira sob a ditadura stalinista, dos milhões de pessoas que, primeiro, promovem a derrubada histórica do "ancien régime", na revolução, e, depois, escravizados pelas novas regras, são obrigados a erguer monumentos em homenagem a seu próprio passado revolucionário? Acho que [o historiador britânico] Timothy Garton Ash teria apreciado esse acidente tragicômico -ele se aproxima do espírito de ironia eticamente engajada que permeia os melhores momentos de sua obra. Embora Ash seja, formalmente, meu adversário político, sempre o considerei digno de ser lido, sempre o apreciei por sua abundância de observações precisas e como fonte confiável de informações sobre as vicissitudes da desintegração do comunismo no Leste Europeu. Em "The Free World – America, Europe and the Surprising Future of the West" [O Mundo Livre – América, Europa e o Surpreendente Futuro do Ocidente, Allen Lane, 256 págs., 17,99 libras], seu novo livro, Ash aplicou a mesma abordagem lúcida e amargamente espirituosa ao quebra-cabeças das tensões recentes entre os países-chave da Europa Ocidental, por um lado, e os EUA, do outro. Suas observações sobre as relações entre Reino Unido, França e Alemanha em vários momentos recordam a ironia gentil do romance de costumes, conferindo um novo significado ao tema antigo da chamada "trindade européia". Em uma cena famosa de "O Fantasma da Liberdade", de Buñuel, as relações entre o comer e o defecar são invertidas: as pessoas ficam sentadas sobre privadas em volta da mesa, conversando agradavelmente e, quando sentem vontade de comer, perguntam discretamente à criada "onde é aquele lugar, sabe?" e saem para um pequeno cômodo nos fundos da casa, sem se deixarem notar. Então, como complemento a Lévi-Strauss, nos sentimos tentados a sugerir que as fezes também podem funcionar como "matière à penser" [matéria a pensar]: afinal, os três tipos básicos de privada não formam uma espécie de correlação/contraponto ao triângulo culinário levi-straussiano?
Chafurdando em ideologia
Numa privada alemã tradicional, o buraco no qual as fezes desaparecem depois de darmos a descarga fica à frente, de modo que primeiro o cocô fica exposto à nossa frente, para cheirarmos e inspecionarmos para verificar possíveis sinais de doença. Na privada francesa típica, pelo contrário, o buraco fica atrás, ou seja, a idéia é que o cocô desapareça o quanto antes. E a privada americana (anglo-saxã), finalmente, apresenta uma espécie de síntese, uma mediação entre esses dois pólos opostos -a bacia da privada fica cheia de água, de modo que as fezes flutuam sobre ela, visíveis, mas não para serem inspecionadas. Não surpreende que, na famosa discussão sobre diferentes tipos de privadas européias presente no começo de seu livro semi-esquecido, "Medo de Voar", Erica Jong afirme, em tom zombeteiro, que "as privadas alemãs são realmente a chave dos horrores do Terceiro Reich. Pessoas capazes de construir privadas como essas são capazes de qualquer coisa". Fica claro que nenhuma dessas versões pode ser explicada em termos puramente utilitários: é claramente discernível uma certa percepção ideológica sobre como o sujeito deve relacionar-se com o excremento desagradável que sai de dentro de seu corpo. Hegel foi um dos primeiros a interpretar a tríade geográfica da Alemanha/França/Inglaterra como expressão de três atitudes existenciais distintas: a profundidade e meticulosidade reflexiva alemã, a pressa revolucionária francesa, o pragmatismo utilitário moderado inglês. Em termos de postura política, essa tríade pode ser lida como conservadorismo alemão, radicalismo revolucionário francês e liberalismo moderado inglês e, em termos do predomínio de uma das esferas da vida social, é a metafísica e poesia alemãs contra a política francesa e a economia inglesa. A referência a privadas permite não só discernir a mesma tríade em ação no campo mais íntimo da realização da função excrementícia mas também visualizar o mecanismo subjacente dessa tríade nas três atitudes diferentes em relação ao excesso excrementício: fascínio contemplativo ambíguo, a tentativa apressada de livrar-se do excesso desagradável o mais rapidamente possível e a abordagem pragmática de tratar o excesso como objeto comum ao qual deve ser dado um fim de maneira apropriada. Assim, é fácil para um acadêmico em uma mesa-redonda afirmar que vivemos num universo pós-ideológico -assim que ele vai ao banheiro após a discussão acalorada, volta a ver-se chafurdando em ideologia. Neste momento não devemos ter medo de formular a pergunta ingênua: por que não os EUA como polícia global?
As observações de Ash parecem indicar como, hoje, essa trindade está passando por um deslocamento estranho de termos com relação a suas posições: os franceses parecem estar preocupados com a cultura (como salvar seu legado cultural da vulgar americanização global), os ingleses estão concentrados em dilemas políticos (devem ou não ingressar na Europa politicamente unificada etc.) e os alemães -os alemães andam preocupados com a triste inércia de sua economia. Até aqui, tudo bem, então. Entretanto, quando, na segunda metade do livro, Ash passa a fazer um diagnóstico geral das ameaças à liberdade após o fim da Guerra Fria, o tom geral se torna dogmático e simplista, e as soluções propostas soam impossivelmente ingênuas e declaratórias. É verdade que, aqui ou ali, lemos insights e declarações surpreendentes, em se tratando de um autor da posição política de Ash (como, por exemplo, o ataque inequívoco às práticas comerciais injustas dos países desenvolvidos, que estão impelindo os países pobres à ruína). Apesar disso, fica claro que falta a suas propostas positivas uma fundamentação sólida numa análise detalhada da situação mundial. Para começar, ele identifica quatro "novos Exércitos Vermelhos" (sic!), as forças do mal (ou os processos históricos) que representam (ou vão representar) uma ameaça à democracia e à liberdade nas próximas décadas: a situação no Oriente Médio (o conflito israelo-palestino sem solução e a ascensão do fundamentalismo islâmico), a situação no Extremo Oriente (em que a China vai se transformar, no que diz respeito à democracia?), a disparidade entre o Norte rico e o Sul pobre e o impasse ecológico global. Já aqui não podemos deixar de notar como os quatro pontos de preocupação são enumerados com simplicidade: Ash simplesmente faz uma lista de quatro áreas que causam preocupação. Conseqüentemente, as soluções que ele propõe se lêem mais como uma lista de desejos (os países desenvolvidos devem respeitar as regras da concorrência de mercado que querem impor aos países subdesenvolvidos; eles devem fazer mais um esforço concentrado e sério para evitar possíveis catástrofes ecológicas; a crise do Oriente Médio só pode ser resolvida por meio do esforço conjunto dos jogadores-chave, nos EUA e na Europa…) do que como um plano de ação baseado numa análise séria da constelação global.
Anticlímax
Assim, a conclusão do livro forma um anticlímax e não satisfaz as expectativas do projeto declaradas no subtítulo do livro, ou seja, mostrar como o mundo pós-Guerra Fria, apesar de gerar problemas novos e próprios, também abre uma oportunidade única de fazer frente a esses problemas. A percepção que eu tenho das causas dessa deficiência é totalmente "superada", tingida de marxismo: para mim, está claro que os quatro pontos problemáticos citados por Ash têm suas raízes na dinâmica geral do capitalismo de hoje. Essa ligação fica auto-evidente no caso dos problemas ecológicos e da disparidade econômica entre o Norte e o Sul. A ascensão do fundamentalismo islâmico não é condicionada pela recusa da civilização muçulmana em integrar a dinâmica social do capitalismo? A dinâmica econômica estranha da China não tem suas raízes no fato de ela ser um Estado comunista que aderiu plenamente à economia capitalista? Assim, a questão deveria ser formulada em um nível mais generalizado: em que pé estamos com relação ao capitalismo global? Esses pontos problemáticos são sintomas de uma falha estrutural inscrita no próprio cerne da máquina capitalista ou são meros acidentes que poderiam ser mantidos sob controle, quando não resolvidos? Isso não significa que devamos pura e simplesmente rejeitar o diagnóstico e as propostas de Ash por meio de uma réplica marxista impolida, dizendo que "ele não leva em conta a totalidade dialética da situação". Existem pontos nos quais o sofrimento humano, em sua singularidade, alcança um nível no qual a referência fácil a uma totalidade maior vira cinismo. Dentro desse espírito, o único argumento válido a favor da Guerra do Iraque foi evocado repetidas vezes por Christopher Hitchens: não devemos nos esquecer de que a maioria dos iraquianos é, concretamente, vítima de Saddam e ficaria realmente feliz e aliviada em ver-se livre dele. Saddam foi uma catástrofe tão grande para seu país que uma ocupação americana, fosse qual fosse a forma que assumisse, poderia parecer à população iraquiana uma perspectiva muito mais animadora, no que dizia respeito à sua sobrevivência diária e seus níveis de medo. Não estamos falando aqui em "levar a democracia ocidental ao Iraque", mas apenas em nos livrar do pesadelo chamado Saddam. Para essa maioria da população, a cautela expressa por liberais ocidentais só pode se configurar como uma hipocrisia profunda -será que esses liberais realmente se preocupam com o sentimento da população do Iraque? Podemos apresentar aqui um argumento ainda mais geral: o que dizer dos esquerdistas ocidentais pró-Fidel Castro, que desprezam aqueles que os próprios cubanos designam como "gusanos" (vermes), ou seja, os cubanos que deixaram o país? Entretanto, mesmo com toda a simpatia do mundo pela Revolução Cubana, que direito tem um típico esquerdista ocidental de classe média de desprezar um cubano que decidiu deixar Cuba não por desencanto político, mas também em razão da pobreza (tão grande que envolve a fome concreta)? Nesse mesmo veio, eu mesmo me recordo -no início dos anos 1990- de dezenas de esquerdistas ocidentais que, orgulhosamente, me atiraram na cara o fato de que, para eles, a Iugoslávia ainda existia e me criticaram por ter traído a oportunidade única de manter a Iugoslávia -acusação à qual eu sempre respondia que ainda não estava disposto a viver minha vida de maneira a não desiludir esquerdistas ocidentais. Existem poucas coisas mais dignas de desprezo, poucas atitudes mais "ideológicas" (se esse termo possui algum significado hoje, deve ser aplicado aqui), do que um catedrático esquerdista ocidental desprezando com arrogância (ou, ainda pior, "compreendendo" de maneira paternalista) um europeu oriental de um país comunista que anseia pela democracia liberal ocidental e por alguns bens de consumo.
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